CRÍTICA – Ao Cair da Noite (2017, Trey Edward Shults)

Ao Cair da Noite (It Comes at Night) é o novo trabalho de Trey Edward Shults – de Krisha (disponível na Netflix) – e estrelado por Joe Edgerton, Kelvin Harrison Jr. e Carmen Ejogo. Na trama, uma família vive isolada na floresta por conta de uma grave epidemia, porém a chegada de um desconhecido também buscando a sobrevivência, vai colocar em cheque as certezas e seguranças de todos.

No âmbito técnico, Ao Cair da Noite é brilhante. A maior parte da trama se passa dentro de uma casa com as janelas e portas cobertas por tábuas de madeira, e toda a iluminação vem de focos de luz presentes no filme de forma orgânica como lanternas, frestas na janela e lampiões. Essa ambientação cria um clima de tensão claustrofóbico que não busca assustar, mas sim envolver o espectador nos sentimentos dos personagens encurralados naquele local.

A fotografia apresenta uma câmera viva, não estática, que acompanha personagens e expressa seus conflitos internos através de closes e planos-detalhe, assim como a utilização do travelling para frente com intuito dramático, aliado a uma trilha sonora carregada e melancólica. Os efeitos sonoros não apenas colaboram com essa ambientação como causam sensações desconcertantes vividas por seus personagens, como respirações ofegantes e abafadas por máscaras de ar. Porém, é preciso deixar claro: Esse não é um filme de terror. Isolamento, medo, confusão e instinto de sobrevivência são os temas tratados aqui. A ameaça externa não é o mais importante.

O trabalho de direção consegue agregar todos os elementos da mise en scène às atuações sólidas num belo conjunto cinematográfico. Mas o maior feito de Edward Shults aqui é a audácia. O filme não possui cenas expositivas e não oferece respostas a seu expectador. Nós não sabemos nada que Trevor (Harrison Jr.), Sarah (Ejogo) e Paul (Edgerton) não saibam, e suas desconfianças e medos geram expectativas que o filme insiste em frustrar de forma inteligente.

Shults é um excelente condutor de narrativa. Mas ao mesmo tempo que essa é a maior proeza de Ao Cair da Noite, é também onde alguns de seus problemas residem. Algumas das questões deixadas em aberto pelo roteiro fazem parte da proposta inicial de imersão nos personagens sem qualquer conhecimento prévio da situação ou ocorrido. Outras são de ordem prática e parecem servir a trama, não a lógica. Entendo que essa seja também uma estratégia para causar confusão mental no público, mas acaba gerando alguns momentos de desalinho não intencional dos fatos.

Para quem acompanha essas resenhas, uma constante crítica minha é a falta de desenvolvimento das personagens femininas. Ao Cair da Noite infelizmente sofre do mesmo mal. Ambas as personagens femininas presentes aqui são pouco utilizadas, suas interações entre si são mínimas e em geral motivadas por seus respectivos maridos ou filhos. Os seus medos internos e suas reações não são sentidos de forma tão assertiva e poderiam enriquecer a narrativa. De forma geral as atuações são excelentes, Joel Edgerton se firma como um nome a se prestar atenção e aguardar por novos trabalhos.

Ao Cair da Noite é uma obra tecnicamente brilhante, com uma narrativa falha, mas que desafia o espectador a todo momento e não se apoia em estratégias comuns do suspense para oferecer informações, apostando na frustração de expectativas e imersão sensorial e emocional na realidade de seus personagens para entregar um filme que vai gerar muitas opiniões conflitantes.

Confira abaixo o trailer do filme: 

Avaliação: Ótimo

Ao Cair da Noite estreia no dia 22 de Junho em cinemas de todo o Brasil! Não deixe de nos seguir nas redes sociais e ficar por dentro de tudo que rola no mundo do cinema

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the author

Graduada em Antropologia pela Universidade de Brasília e mestra em Cinema e TV pela University of East Anglia, Reino Unido. Atualmente trabalha com produção, filmagem e edição de vídeos. Ama a Viola Davis e batatas de sal e vinagre.