CRÍTICA – Colossal (2016, Nacho Vigalondo)

Alerta amigo: Sempre tento manter as resenhas livre de spoilers, porém alguns casos são mais difíceis que outros. Esse é um caso bem, bem difícil. Eu recomendo que se você não gosta de qualquer informação sobre a trama, assista ao filme e volte aqui pra gente conversar. Beleza?

Colossal é escrito e dirigido por Nacho Vigalondo e estrelado por Anne Hathaway e Jason Sudeikis. A recém desempregada Glória (Hathaway), abusa das festas e do álcool, e quando seu namorado a expulsa de casa, ela retorna para sua cidade natal. Enquanto isso, um gigante “Kaiju” – monstro da cultura oriental que ataca grandes cidades – aterroriza a cidade de Seoul na Coréia do Sul. Glória e o monstro compartilham uma misteriosa relação.

Hollywood vive uma era de excessos de remakes, reboots, universos compartilhados, sequências e adaptações. Logo, é refrescante assistir a uma história nova, original e concisa como Colossal. Tem seus problemas, mas é um colírio para olhos cansados da mesmice corporativa.

Se por um lado temos um drama cômico sobre uma mulher em ruínas e sem perspectivas, por outro temos um suspense fantástico sobre um “kaiju” devastando Seoul. A amarração é tão bizarra que gera confusão e não vai funcionar para grande parte do publico, em especial aqueles que esperam por um filme de monstro ou uma comédia romântica com Anne Hathaway. Ao sugerir ambos, Colossal não é efetivamente nenhum dos dois. Porém, a narrativa pouco convencional que explora temas complexos como alcoolismo, relacionamentos abusivos, auto estima e isolamento oferece recompensas para quem se aventurar.

No lado positivo, temos a originalidade do mexicano Vigalondo em um enredo estapafúrdio e uma profusão de piadas anti climáticas que confundem as emoções e sensações do espectador. Essa confusão agarra a atenção e motiva a narrativa pelo que vem pela frente.

O alcoolismo aparece como uma constante que movimenta a trama, e mostrado por diversas óticas diferentes, sempre com uma mensagem de que o caos e a destruição o cercam. O vício de Gloria a deixa em um estado de vulnerabilidade no qual ela perde o controle sobre sua vida e sobre sua própria narrativa, nunca se lembrando da noite anterior e ouvindo sua história contada por outros. Situação essa que parece inofensiva, até que eventos e comportamentos também motivados pelo excessivo consumo de álcool, demonstram a Gloria a necessidade de se impor.

Um personagem em especial apresenta uma mudança de comportamento que a primeira vista parece drástica, mas em uma análise mais aprofundada, foi construída de forma sutil e assertiva. O filme subverte alguns estereótipos da comédia romântica de forma inteligente e com um propósito claro. O desconforto é intencional e bem explorado. O isolamento de Gloria em relação a outras mulheres (o filme não possui nenhuma outra personagem feminina além da protagonista) potencializa a inquietação e até desespero em frente a decisões e reações de Glória. Seria esse isolamento proposital? Vamos discutir!

Porém, Colossal não é bem-sucedido em todos os aspectos. O enredo apresenta algumas falhas graves que servem apenas para conduzir a narrativa no rumo desejado em detrimento da lógica do universo estabelecido.

Outro problema é o trabalho fraco de desenvolvimento de personagens. Todos são concebidos de forma unilateral, o que compromete o envolvimento com a trama. Glória não é uma protagonista palpável e os personagens coadjuvantes – com exceção de Oscar (Sudeikis) – são irrelevantes para a trama. Toda a motivação é exterior, nenhum arco interno é bem estabelecido.

No campo estético, a representação de Glória é negligente. Mesmo alcoolizada e sem dormir há vários dias, ela mal apresenta sinais de cansaço, com uma maquiagem sem borrões e os cabelos bem penteados. Vigalondo entende que colocar sua protagonista em roupas escuras e não ajustadas ao corpo, comunica que Gloria é uma mulher sem rumo. Tente melhor da próxima vez!

Colossal não é um filme convencional e vive perigosamente entre dois gêneros díspares. Nem tudo funciona, mas as mensagens que busca comunicar através de metáforas e alegorias, são importantes e apresentam um forte elemento catártico. Uma grande vitória do filme é promover e elevar debates, o que vem ocorrendo desde a sua estréia em festivais ao redor do mundo. Venha de cabeça aberta e com senso crítico ativo, e assim, Colossal pode te surpreender.

Confira o trailer:

Avaliação: Bom

Colossal estreia nesta quinta, dia 15 de Junho nos cinemas!  Não deixe de nos acompanhar nas principais redes sociais para mais novidades:

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the author

Graduada em Antropologia pela Universidade de Brasília e mestra em Cinema e TV pela University of East Anglia, Reino Unido. Atualmente trabalha com produção, filmagem e edição de vídeos. Ama a Viola Davis e batatas de sal e vinagre.