CRÍTICA – T2 Trainspotting (2017, Dany Boyle)

T2 Trainspotting é a aguardada sequencia do aclamado Trainspotting de 1996 que alavancou a carreira de Dany Boyle como diretor e de vários membros de seu elenco. O filme foi um marco em sua geração, inspirando muitos filmes da sua época e inspira até os dias de hoje. As personagens principais Spud (Ewen Bremner), Mark Renton (Ewan McGregor), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Begbie (Robert Carlyle) estão de volta em T2, e são confrontados pelos eventos do final do primeiro filme.

É interessante que o tempo de passagem do filme seja o mesmo que separa ambos, 20 anos, pois abre espaço para diversas outras críticas sociais, bem características do primeiro Trainspotting, porém o vácuo de tempo entre os filmes pode ser um problema ao conectar o público mais jovem a esses personagens; diferente do apego de nós fãs do filme original. Apesar disso, o filme faz um excelente trabalho em estabelecer no primeiro ato, quem esses personagens são e ao envolver o espectador em suas histórias. A estética segue os padrões iniciados pelo primeiro filme, por outro lado, o sentimento geral é outro. T2 Trainspotting trata de memórias e arrependimentos. O longa, assim como suas personagens, olha saudoso para o passado ao tentar compreender e fazer sentido o presente; inclusive as decisões tomadas que levaram todos a chegar onde estão.

O filme tem pouco em comum com o segundo livro da saga, Porno, e troca a crítica dos valores da classe média e do capitalismo, tão fortes em seu predecessor, por uma discussão inteligente e contemporânea sobre masculinidade, memória e redenção. Mesmo sem perder o humor ácido e sagaz característicos do longa original e dos livros de Irvine Welsh. É um filme reflexivo e maduro, onde as personagens, até mesmo inconscientemente, buscam redenção. Um dos melhores exemplos é uma bela cena entre Begbie e seu filho. O tema da redenção também guia a narrativa de Renton, que busca se reentender com seu melhor amigo Sick Boy, após a traição cometida por Mark no filme original. Os dois rendem uma das cenas mais engraçadas e criativas do filme,um número musical, no mínimo, inusitado!

Além dos 4 protagonistas, temos o retorno de DianeGail – agora ex-esposa de Spud –, ambas em participações pequenas. As personagens femininas não tinham muito espaço no filme original, o que não é muito diferente aqui, porém uma nova personagem, Veronika (Anjela Nedyalkova) participa ativamente da história de uma forma mais central, inclusive nas resoluções finais. Veronika é a princípio apenas um possível novo conflito entre Mark e Sick Boy, porém a personagem tem suas próprias motivações e seu relacionamento com os protagonistas, principalmente Spud, acrescenta muito na narrativa do filme. Foi uma grata novidade no elenco!

Ao meu ver a narrativa mais interessante é na verdade a de Spud. O garoto, agora homem, nunca se livrou do vício em heroína, e pretendia cometer suicídio, sendo interrompido por Mark em uma cena ao mesmo tempo trágica, engraçada e nauseante, como muitas do filme original. Com essa segunda chance, Spud busca recuperar sua vida, encontrar seu espaço e sua voz, e assim reatar o relacionamento com seu filho, agora também um jovem rapaz. Sua história se relaciona com os livros de Welsh de uma maneira inesperada, mas que agrada. As escolhas feitas pelos garotos em sua juventude tem consequências, e todos buscam, a sua maneira, lidar com elas. As atuações são excelentes, assim como a direção e a inovadora fotografia.

Porém caro leitor, não se engane! esse ainda é um filme de Dany Boyle. E isso significa um design de produção interessante e louco, uma trilha sonora ácida que trabalha com as cenas e com os sentimentos e uma edição rápida, cheia de frames congelados e flashbacks do primeiro filme. É uma divertida experiência no cinema, e vai agradar aos fãs do original, mesmo aqueles resistentes a necessidade de uma sequência. Talvez as gerações mais jovens tenham dificuldade para compreender os temas ou criar empatia com os protagonistas, mas irão se divertir.

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Avaliação: Ótimo!

Para uma sequência que surge depois de muita polêmica, vários anos passados e um mundo que não vê mais cinema da mesma maneira, T2 Transpotting faz um excelente trabalho de complementar e homenagear seu icônico precursor.

Confira o trailer:

T2 Transpotting chega aos cinemas nesta quinta, 23 de março! E você, assistiu ao primeiro Transpotting? Qual sua expectativa para esse novo longa? Deixe-nos seu comentário e não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais:

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the author

Graduada em Antropologia pela Universidade de Brasília e mestra em Cinema e TV pela University of East Anglia, Reino Unido. Atualmente trabalha com produção, filmagem e edição de vídeos. Ama a Viola Davis e batatas de sal e vinagre.