CRÍTICA – The Leftovers (2014 – 2017)

O tudo e o nada, o real e o abstrato, a balança da fé e ceticismo, The Leftovers foi tudo isso e mais. A série da HBO, com sua linguagem por vezes lúdica, uma trilha sonora transitando pela série como um personagem fantástico, adicionou mais camadas ao roteiro, mensagem velada por meio de um mistério que nunca foi o ponto da série, e sim, engrenagens para entender a dinâmica das relações humanas, da perda, do vazio e da culpa. Uma série que ousou e em momento algum subestimou o telespectador, que há cada episódio sentia mais e mais a necessidade de entender personagens tão cativantes na sua mais estranha paranoia, dor e confusão. Quem não ficaria intrigado ao acompanhar pessoas que precisam de auto asfixia, colete a prova de balas, abraços mágicos de xamãs, viagens a outros planos (ou pós vida?), um leão e uma conversa direta com Deus, para encontrar um sentido para tudo ao seu redor?!

The Leftovers em suas 3 temporadas (28 episódios) deixou sua marca, ao incitar discussões metafóricas através dos seus personagens, usando de um cenário de desnorteamento de toda população, da perda literal de alguns e espiritual de outros, para abordar os temas tão indigestos e sombrios da nossa existência, a efemeridade do tempo que nós temos aqui neste plano e como cada indivíduo interage com o absoluto desconhecido.

Na vida Pós Partida Repentina não há certezas, não há alívio nem sensação de segurança, afinal, como conceber a ideia de 2% da população sumir aleatoriamente sem nenhuma explicação, como encontrar uma forma de viver após ter arrancado o que faz você ser você, como aceitar a sua humanidade diante do imponderável e do invisível. Assim, vidas se encontram no meio do caos, pessoas recorrem a religião para conforto ou explicação, e há os que inertes, seguem impondo normalidade como subterfúgio para fugir da evidente desorientação.

Assim como na segunda temporada, o último ano de The Leftovers para Kevin, Nora e cia iniciou com seu festival de máscaras emulando normalidade, equilíbrio e otimismo, mas sabemos a série que estamos assistindo, e se tudo parece tão fora do lugar e desconexo da realidade daquelas pessoas, é porque está.

Então começamos a acompanhar o derradeiro final de pessoas que por não saberem existir, escolheram fingir ou fugir, até o ponto em que o inegável pede passagem, em que ignorar os últimos 7 anos continua sendo impossível, e assim passamos a seguir ao lado de Kevin, ou Messias para Matt, uma jornada que finda novamente nos seus dois mundos, nos seus “Kevins”, e de Nora em busca da resolução final para sua tormenta, a sua cartada final para ter de volta aquilo que lhe foi tirado subitamente e para os fins, todos os meios justificam.

Em The Most Powerful Man in the World (and His Identical Twin Brother) somos confrontados junto com nosso protagonista masculino, por todo o universo criado pelo mesmo na procura camuflada de evitar um dilúvio que nunca virá. Na busca de encerramento para outros, Kevin se depara com seu alter ego, por assim dizer, na maior batalha que ele poderia enfrentar, sua própria existência, visitando símbolos e personagens que tiveram um grande relevância durante os 3 anos da série, presenciamos um Kevin buscando a si mesmo, procurando dentro de um universo caótico sua própria direção, e não a que Kevin Senior, Matt ou John tentam impor. É interessante assistir essa realidade alternativa aonde Kevin, o presidente, prega uma sociedade aonde a família não existe, não importa, ninguém importa, trazer de volta à tona os dogmas dos Remanescentes Culpados, é trazer de volta o conflito original, aonde Kevin não perdeu ninguém no dia 14 de outubro, mas ao mesmo tempo perdeu tudo, inclusive suas definições de família.

Curiosamente, por toda sua jornada, The Leftovers nunca pendeu seu roteiro para uma história de amor, até porque, como falar de amor diante do horror, do temor e da inquietação predominante. Mesmo assim, nos seus dois últimos episódios, sutilmente, temos a constatação entre esses dois personagens tão destruídos e inaptos ao convívio, ao amar, de que Kevin por covardia, e Nora por não conseguir esquecer, seguem em caminhos opostos, juntos se destroem e optam pela solidão.

Em The Book of Nora, como antecipado “Nada será respondido, tudo será respondido. E aí acaba.”

O primeiro ato com Nora e Matt, “A menina mais corajosa do mundo” e o padre que “Não faz nenhuma ideia do que está falando” traz a incerteza e a despedida final entre irmãos que escrevem obituários fictícios com palavras aleatórias. Você sorri chorando com os dois.

Seguimos Nora até o último passo até a redoma que levaria ela de volta a vida que ela supunha ter, até o último suspiro antes de ser submersa por expectativas e o desejo de não mais sentir o vazio, então fade out.

Os eventos futurísticos que assistimos no primeiro episódio ganham luz e vemos uma Nora, ironicamente, com pombos que irão entregar mensagens de amor pelo globo em algumas horas. Nora, a cínica que não conseguiu seguir em frente por 7 anos, que não conseguiu ser e estar com Kevin, que cobriu tatuagens para não ver, perseguiu cientistas por uma resposta.

Nos seus últimos atos, vemos a série transformar-se especialmente nessa história de amor disfuncional, trágica e poética de Kevin e Nora. O reencontro, a dança ao som de “Tudo que eu sei, eu fui embora e chorei” e “Eu ainda quero que você fique, Eu ainda te amo mesmo assim, Eu ainda quero que você não me deixe nunca.”

Que cena, Carrie Coon e Justin Theroux em uma dança disseram absolutamente tudo, e mais uma vez a trilha sonora como uma mão guiando o contar da história dos dois, o quanto percorreram até aquele dança, aquele abraço e aquele reconhecimento, que história nenhuma contada por Kevin de como eles se viram apenas uma vez seria aceita.

Todos os caminhos levaram até esse momento, onde Kevin e Nora ali, aceitaram em fim o destino. Se a história de Nora é ou não verdade, eu escolhi acreditar, assim como Kevin. Se Nora visitou esse mundo aonde 98% desapareceu de repente, não me importa, mas tratando-se de The Leftovers, Nora visitar um mundo aonde ela permanece como um fantasma, vagando a procura daquilo que não existe mais, Kevin por já ter experienciado seu próprio submundo, não sendo difícil de acreditar em uma história dessa, é de uma tremenda coerência para ambos personagens.

Kevin e Nora precisaram ir além, enfrentar seus maiores pesadelos e voltar para enfim entenderem o sentido que procuravam. Kevin, não mais um covarde fugindo de uma vida e vivendo a história dos outros, Nora não mais refém de uma vida que não teve, da culpa e ira de outrora, libertando até um bode/cabra dos pecados.

Assim, The Leftovers encerra sua caminhada, entregando respostas e questionamentos que cada telespectador terá que dar sua significância. Os sedentos por resoluções não se decepcionam, os que não esperavam por elas seguem satisfeitos, mas o balanço final é: que série linda e memorável, que atuações, que história. No fim, o que não podemos deixar de lembrar é que assim como Nora e Kevin:

“You’re here.”

“I’m here.”

Avaliação: Ótimo!

Confira abaixo o trailer de The Leftovers

Esta crítica foi escrita por Bruna Mussi.

The Leftovers chegou ao fim no último dia 04 de Junho de 2017! Se curte uns desgraçamentos mentais, assista! Não deixe de nos acompanhar nas principais redes sociais para mais novidades:

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the author

Natural do Rio de Janeiro, agora, um candango do cerrado.
23 anos, de muita nerdice. Cinéfilo, viciado em séries e livros.