James Cameron vs Mulher Maravilha: O que achamos das pérolas de Cameron

Infelizmente, precisamos falar sobre James Cameron e suas últimas declarações… sim, recentemente o assunto rendeu, por isso não discutirei aqui o talento de Cameron ou de Patty Jenkins como diretores, tampouco os defeitos e qualidades do filme Mulher Maravilha. Não. O foco aqui serão as pérolas de Mr Cameron acerca do filme e da representatividade feminina.

Caso não tenha lido sobre o ocorrido na última semana ou tenha esquecido, em agosto Cameron declarou que:

Todos esses autoelogios que Hollywood está fazendo sobre Mulher Maravilha tem sido tão equivocados. Ela é um ícone objetificado, e são só os homens de Hollywood fazendo as mesmas coisas! Eu não estou dizendo que eu não gostei do filme mas, para mim, é um retrocesso. Sarah Connor não era um ícone de beleza. Ela era forte, tinha problemas, era uma péssima mãe e conseguiu o respeito do público através de pura garra. E para mim, [a vantagem de personagens como Sarah] é tão óbvia. Quer dizer, metade do público é feminino!

Dito isso, alguns pontos devem ser destacados:

Mulher Maravilha “ícone objetificado”

Analisando a personagem, desde a sua criação em 1941, pelo psicólogo americano William Moulton Marston (inspirado pelo movimento sufragista), diferentes características foram potencializadas ou abafadas ao longo dos anos mas vale destacar que na década de 1950, a pressão moralista do macartismo denunciou a personagem como promotora do homossexualismo e de ódio aos homens (ora, ora se não é a mesma verborreia que desinformados usam hoje para falar sobre feministas?!), o que fez com que seu perfil nas publicações fosse neutralizado, adquirindo características subalternas. Nas décadas de 60/70, com a ascensão do movimento feminista, o perfil de empoderamento e autonomia foi retomado. Obviamente, as publicações variaram entre roteiristas ao longo dos anos, principalmente após a morte de seu criador em 1947, e assim, nem todos mantinham seu perfil engajado. Além disso, como a maioria das personagens femininas nas HQs, seus traços foram sexualizados em maior ou menor grau.

Um filme dirigido por uma mulher, com protagonistas femininas, inteligentes, mostrando mulheres de diferentes raças chutando bundas e ao mesmo tempo demonstrando vulnerabilidade, erros, dúvidas (como todo e qualquer ser humano) batendo recordes absurdos de bilheteria obviamente incomoda. O primeiro filme com uma super-heroína protagonista (e não coadjuvante esperando a ordem dO líder para fazer algo), massacrando os números alcançados por filmes anteriores e suas fórmulas para lá de batidas… É mais fácil taxá-lo como mediano, muito padrão ocidental, muito objetificado e diminuir sua importância, não é mesmo? É mais fácil usar essas palavrinhas do que entender sua importância e relevância, não é mesmo?

E ainda sobre “objetificar personagens femininas”, é sempre bom lembrar da declaração desse senhor em 2009:

Bem no começo da produção de Avatar, eu disse aos técnicos sobre Neytiri: ‘Ela tem que ter seios’, mesmo que não faça sentido porque não é uma raça mamífera.

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Sarah Connor

Na interpretação de Linda Hamilton (nem irei considerar as interpretações de Lena ‘Cersei’ Headey e Emilia ‘Daenerys’ Clarke como intérpretes dessa personagem icônica) foi certamente um dos primeiros modelos que tive de personagens femininas F#D@$… mas essa imagem não se devia necessariamente a pura interpretação. No período de gravações, a atriz sofria de bipolaridade não diagnosticada, com crises frequentes que incluíam comportamentos autodestrutivos, uso de drogas e álcool, rompantes de violência e impulsos que influenciaram inclusive sua aparência física em Exterminador do Futuro 2 (nos picos de euforia, chegava a treinar 6 horas por dia). Mas Mr Cameron (ex marido de Linda) prefere afirmar que a mulher neurótica e problemática é o padrão esperado para representar o estereótipo feminino. “Oi?”

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Para encerrar o assunto nesse primeiro momento, Patty Jenkins, diretora de Mulher Maravilha respondeu da forma mais classuda possível:

A incapacidade de James Cameron entender o que a Mulher Maravilha é ou o que representa para mulheres de todo o mundo não é uma surpresa, já que, embora ele seja um ótimo cineasta, ele não é uma mulher. Mulheres fortes são ótimas. Os elogios dele para meu filme Monster: Desejo Assassino e nossa abordagem de uma mulher forte, mas problemática, foi muito apreciado. Mas se mulheres precisam sempre ser duronas e problemáticas para serem fortes, e não estamos livres para sermos multidimensionais ou celebrarmos um ícone de mulheres de todo o mundo porque ela é atraente e adorável, então nós não evoluímos muito, né? Eu acredito que mulheres podem e deveriam ser TUDO o que os protagonistas masculinos podem ser. Não há um tipo de mulher poderosa certo ou errado. E o enorme público que fizeram do filme um sucesso certamente podem escolher e julgar seus próprios ícones de progresso.

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O assunto parecia encerrado mas essa semana James Cameron resolveu tocar novamente no assunto e nos presentear com mais uma pérola:

Sim, mantenho o que disse. Quer dizer, ela foi a Miss Israel e ela estava usando uma espécie de bustier que era bem justo. Ela é absolutamente linda. Para mim, isso não é inédito. Eles tinham Raquel Welch fazendo essas coisas nos anos 1960. Era tudo no contexto de falar sobre como a Sarah Connor – o que Lynda criou em 1991, era, senão à frente de seu tempo, pelo menos um avanço para a época. Não penso que era realmente à frente de seu tempo, porque ainda não estamos [dando estes papéis às mulheres]… Então, tanto quanto eu aplaudo Patty dirigindo o filme e Hollywood, uh, “deixando” uma mulher direcionar uma grande franquia de ação, não pensei que houvesse algo inovador em ‘Mulher Maravilha'[…] Fiquei impressionado com o fato de que [meu comentário] fosse uma declaração polêmica. Era bastante óbvio na minha mente. Eu apenas acho que Hollywood não entendeu sobre mulheres em franquias comerciais. […] no segundo em que eles começam a fazer um grande filme de ação comercial, eles pensam que precisam apelar para machos de 18 anos ou machos de 14 anos”

Nem preciso comentar sobre mais essa verborreia porque Lynda Carter (sim, ela!) respondeu:

“Pare James Cameron – PARE de criticar Mulher Maravilha, pobre alma. Talvez você não entenda a personagem. Eu certamente entendo. Como todas as mulheres – somos mais do que a soma de nossas partes. Seus golpes em uma diretora brilhante, Patty Jenkins, são mal-aconselhados. O filme é certeiro. Gal Gadot foi ótima. Eu sei, Sr. Cameron – porque encarnei essa personagem por mais de 40 anos. Então – PARE COM ISSO!”

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Fica a lição para James Cameron e “Cameronzinhos” espalhados por aí:

Parem de tentar definir o que representa ou não as mulheres. Parem de definir o que representa ou não situações que não os atingem. Procurem entender sem tentar julgar, definir ou restringir o que nos empodera. Estereotipar representatividade só demonstra a total incapacidade de entenderem a realidade das mulheres em todos os setores da sociedade, neste caso, esteja ela assistindo ou protagonizando um filme.

Não, não estou afirmando que Mulher Maravilha é o exemplo máximo de filme sobre empoderamento e representatividade feminina (até porque a questão do salário de Gal Gadot em comparação aos atores do Universo Cinematográfico DC também causa uma outra discussão) mas após anos ouvindo que um filme sobre uma super-heroína jamais daria certo, que jamais teria público, é inegável que Patty Jenkins, Gal Gadot e cia mostraram como é que se faz. #SentaLáJamesCameron

E se você ainda não assistiu Mulher Marvilha, assista! Mas antes, confira o que achamos do filme:

CRÍTICA – Mulher Maravilha (2017, Patty Jenkins)

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Leia mais sobre Mulher Maravilha.

the author

Paulista, 38 anos. Doida por séries, filmes, classic rock, gatos e catioros.