CRÍTICA – ‘Crisol: Theater of Idols’ é o horror religioso na sua mais pura forma

    Um dos elementos que sempre me causaram mais terror foi imaginar coisas inanimadas ganhando vida. E o pior disso é vê-las avançando em sua direção. Mas eu nunca havia parado de fato para pensar nisso, pelo menos não até assistir ao primeiro episódio da primeira temporada moderna de Doctor Who, “Rose”, lançado em 2005. E, para minha surpresa, encontrei algo bem parecido em Crisol: Theater of Idols. Aqui, o horror vai além do físico e brinca com a culpa religiosa, algo equivalente à culpa cristã. Somos lançados em uma jornada que exige um sacrifício constante: doar o próprio sangue do protagonista para seguir em frente.

    Aqui, estes não são manequins, como em Doctor Who, mas sim Astillados, estátuas com visual barroco que avançam em sua direção sem pena.

    Crisol possui uma forte ligação com o que é divino e o profano. Por mais que os dois andem de mãos dadas, e a linha entre eles nunca pareça ser esclarecida, o game parece querer nos encaminhar para tirar nossas próprias conclusões ao final da história. Por mais que eu ainda não tenha chegado até lá, parei no início do capítulo 4 e acredito não estar muito longe do fim.

    O pessoal da Vermila Studios me enviou a chave para produção de conteúdo do game antecipadamente, o que me permitiu jogar cerca de 13 horas antes de fazer esse review.

    O sangue é o mais claro sinal de obediência

    Crisol

    Crisol parece explicitar a todo momento que adoração e penitência andam de mãos dadas. No controle de Gabriel, precisamos pagar com sangue as munições que utilizaremos a fim de avançar na missão divina do personagem. Em nome da Igreja do Sol, precisamos ir até Tormentosa caçar o líder do Culto do Mar.

    O Culto do Mar parece ser uma religião relativamente nova neste mundo e funciona como uma corruptela de tudo que a Igreja do Sol acredita e prega (pelo menos em partes).

    Ao longo de sua jornada, Gabriel entende que não possui força o suficiente para atravessar o que se coloca entre ele e seu objetivo. Enquanto descobre a verdade por trás do que acreditava ser real, seu mundo parece ruir aos poucos e ele compra com sangue as munições das armas que utilizará para avançar. Munido de armas de fogo, plasmarinas (a poção de vida do game) e um poder “divino” de absorver sangue, Gabriel precisa se manter vivo.

    Enquanto isso, nós, jogadores, precisamos escolher: preferimos uma arma carregada ou sangue o suficiente para avançar?

    Do lado dos Solari (aqueles que ainda acreditam no deus do Sol), Gabriel encontra abrigo no que parece ser um parque de diversões antigo, em Tormentosa. Alguns dos elementos mais divertidos do game vêm dali. Esses personagens representam os indivíduos que lutam contra a opressão do Culto do Mar, mas não se resumem a isso. Diferente de Gabriel, eles sabem o que o deus Sol fez no passado e, ainda assim, optam por segui-lo.

    Gameplay e enredo

    Crisol

    Com a gameplay em primeira pessoa, o jogo aproveita para nos aprofundar no terror. Crisol lança contra você estátuas barrocas, querubins, pinturas bizarras que ganham vida e monstros de mais de 3 metros de altura. Aqui, o jogo nos obriga o tempo todo a escolher como agir diante de um desafio. Seja diante de puzzles ou inimigos enormes, cabe a nós entender as dinâmicas do game e ver como tirar melhor proveito delas.

    Um dos aspectos mais interessantes e dinâmicos da gameplay é o gerenciamento de vida, que, ao mesmo tempo, é o gerenciamento de munição. Ou seja, caso você tenha vida o suficiente, bem como plasmarinas, você pode ter munições quase que infinitas. Ouso dizer que, aqui, o game parece pegar demais na sua mão. Em determinado momento, me vi com 6 plasmarinas no inventário prontas para serem usadas. Que, se misturadas à adição de animais e pessoas para absorver e “roubar” o sangue, são mais do que suficientes para progredir.

    Crisol

    Mesmo jogando no difícil, não senti grande dificuldade. Enfrentar inimigos, gerenciar grandes hordas quando chega a hora e manter uma quantidade de sangue razoável durante o combate não é um enorme desafio.

    Outro elemento positivo do game vem dos upgrades possíveis. Quase sempre, ao lado de um save point, está a Bruxa, uma personagem misteriosa que concede melhorias para Gabriel. Garantindo habilidades que vão além do combate e giram em torno da sobrevivência, ela nos permite realizar aprimoramentos a fim de cumprir nossa missão, melhorando não apenas as habilidades, como o arsenal do Guerreiro do Sol.

    Enquanto se distanciam do “Escolhido”, do Guerreiro do Sol na figura de Gabriel, os Solari entendem que o reinado do Culto do Mar precisa chegar ao fim em Tormentosa. E estes auxiliarão nosso “herói” em sua jornada. Auxiliado quase que inteiramente por Mediodia, uma jovem solari, Gabriel passa a descobrir que existe mais do mundo do que ele conhece. Quando uma amizade improvável surge, cabe a nós fazer uso dessa relação para progredir e descobrir cada vez mais sobre o mundo e sobre os segredos do Rei Sol.

    Lançamento e falhas

    O game chega no dia 10 de fevereiro para PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC. A Vermila Studios, um estúdio indie espanhol, desenvolveu o jogo pensando na experiência completa em seu idioma nativo. Mas é claro, Crisol traz legendas em português do Brasil, o que torna a experiência muito mais profunda e rica.

    Com um brilhante trabalho de atuação de voz, ainda mais na versão em espanhol do que no inglês, a Vermila se juntou à Blumhouse na empreitada de apresentar essa história ao mundo, que parece saída de um pesadelo. Mergulhados em um mundo perverso, o preço cobrado na jornada parece por vezes alto demais. Mas Gabriel, como o bom soldado que é, está disposto a pagar.

    Apesar de tudo que existe de bom na história ou gameplay, Crisol: Theater of Idols possui alguns aspectos negativos que não podem ser negados. Joguei o game no PlayStation 5, mas constatei falhas de frames constantes em diversos momentos da gameplay. Mas não apenas isso: testemunhei dois ou três congelamentos de tela e quedas de frames que podem ou não ter beirado 10fps.

    Algo que vale apontar aqui é que, toda vez que fechei o game e precisei voltar ao meu save, ao retornar pelo menu inicial com a opção “continuar”, ele continuava sempre do último checkpoint. O salvamento do game parece ignorar completamente o salvamento manual, o que me forçou a carregar o game novamente, mas dessa vez, no save.

    Outro ponto negativo vem da gameplay e dos puzzles, alguns simples demais e outros sem qualquer tipo de explicação. Um deles tem a ver com um penitente cujo corpo precisamos encontrar. Passei quase 30 minutos para solucioná-lo da primeira vez. O fiz, mesmo sem saber como. Ao fazer o puzzle em outras duas vezes mais à frente (em dificuldades diferentes), consegui ver a lógica, ou a tentativa de se fazer lógico, por trás dele.

    Crisol: Theater of Idols é horror, e o fim pode ser só o início

    Crisol

    Avançar pela história de Crisol pode ser apenas um detalhe diante das poucas, mas profundas dinâmicas que precisamos gerenciar para um FPS. Enquanto se aprofunda no gênero, ele rapidamente deixa de ser um raso FPS para ser um profundo jogo de terror. O gore está presente em tudo, desde o sangue de Gabriel escorrendo nas armas até os corpos de animais mortos na rua. É assim que Crisol nos faz “coçar” em um lugar escondido da mente: no medo do ilógico.

    Ver estátuas, querubins e pinturas ganharem vida dá ao game uma sensação de misticismo única. Com uma atmosfera profunda, vemos diversos aspectos que traçam paralelos entre as religiões retratadas no jogo com as religiões do mundo real. Seja pela penitência constante, ou pelo fato de ser necessário sofrer em vida para merecer algo melhor no que vier depois.

    Gabriel entra na história como um personagem que parece saber pouco do mundo real, mas já parece ter matado muitos em virtude da sua fé cega. Seguindo à risca toda e qualquer doutrina que parece ter sido enfiada por sua goela abaixo, testemunhamos aqui o véu que existe sobre seus olhos se dissipar lentamente.

    Conforme a progressão do game, ou pelo menos até onde eu parei (no início do capítulo 4), Gabriel não é mais o mesmo do início da história. E isso não vem apenas daqueles que ele precisa absorver pelo “bem maior”.

    Funcionando como algo muito além de um jogo de terror ou um simples FPS, Crisol me manteve imerso em sua gameplay por horas seguidas. Enquanto seus gêneros se misturam, o jogo se revela, por fim, uma obra com narrativa profunda e elementos que ultrapassam o que se vê num primeiro momento. Ouso dizer que este pode ser não apenas o primeiro capítulo de Crisol, mas o marco inicial de muitos sucessos que ainda virão para a Vermila Studios.

    Nossa nota

    Confira o trailer do game:

    Acompanhe as lives do Feededigno no Youtube.

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