Lanternas é o mais recente projeto desenvolvido no DCU, liderado por James Gunn e Peter Safran, dando continuidade às produções deste universo.
Damon Lindelof, conhecido pela premiada série Watchmen, desenvolve a série. Aaron Pierre, Kyle Chandler, Kelly Macdonald e Poorna Jagannathan estrelam a produção, que conta com a participação especial de Nathan Fillion e Laura Linney.
O enredo da série acompanha Hal Jordan (Chandler) treinando o recruta John Stewart (Pierre) enquanto desvendam um mistério em uma cidade do interior de Nebraska.
Acredito que esse seriado tem o potencial de, no futuro, figurar entre as melhores produções deste universo. Ouso dizer que, qualitativamente, ele pode alcançar o status de grandes produções como Watchmen.
Um trabalho técnico de alta qualidade
As atuações do elenco como um todo são excelentes, e Aaron Pierre e Kyle Chandler entregam uma excelente química em tela, explorando a tensão e, posteriormente, a conexão entre seus personagens.
Direção, fotografia, efeitos, montagem e, principalmente, o roteiro constroem de forma sólida um ambiente narrativo que não perde ritmo porque alterna entre o desenvolvimento da história e o desenvolvimento individual dos personagens.
Obviamente, criou-se a ideia de que Lanternas é um True Detective com anéis, como se o seriado criado por Nick Pizzolatto, por si só, fosse o primeiro produto do seu gênero e não houvesse uma história de décadas de outras produções antes. Entretanto, a série vai além de uma mera investigação, tendo protagonistas com um passado difícil.
Lanternas entrega uma reflexão sobre o que significa ser o portador do anel, suas tarefas e o peso emocional em torno disso. Um dos pontos que torna o seriado empolgante é discutir isso de uma forma muito mais profunda do que meramente ser um escolhido.
É um seriado sobre personagens complexos, com metáforas e, o mais importante, temas sociais, saúde mental, trauma geracional. Além disso, a própria dinâmica do heroísmo que compõem o universo Lanterna.

Se John Stewart não pode falar sobre racismo, então quem fala?
Queria poder estar falando unicamente sobre o quanto os episódios 3, 5 e 7, como sua construção técnica, são ótimos, buscando compreender o que é medo utilizando um personagem tão querido como John Stewart. Infelizmente e inevitavelmente, temos que regredir uns passos atrás e pensar sobre em que ponto dessa história imensa do que é consumir quadrinhos falar de racismo se tornou um problema ou “não fiel” ao personagem.
Dennis O’Neil e Neal Adams criaram o melhor construtor da tropa em 1971, na edição #87 do segundo volume de Lanterna Verde — e isso sabemos muito bem. Porém, o que parece ter sido removido dessa memória coletiva é que o personagem sempre debateu a pauta antirracista em sua história, como em sua estreia na década de 70, na edição #185, In the Blackest Day, na fase escrita por Geoffrey Thorne em 2021 e até mesmo de uma forma mais estrutural, como Green Lantern: War Journal.
Portanto, não existe uma descaracterização do que é Lanternas quando se coloca o espectador a refletir que existe uma diferença em questionar o medo de uma pessoa branca em comparação a uma pessoa negra. Pelo contrário, os quadrinhos são uma arte que aborda esses temas, alcançando um público maior, e isso ser adaptado em outra mídia é parte de sua essência.

Patrulheiros espaciais: mas e a Terra não faz parte do universo?
Outra ideia que devemos superar é a de que “histórias de Lanternas só se passam fora da Terra”, uma crença que priva o personagem de um ambiente ideal para boas aventuras.. O arco de histórias Arqueiro Verde/Lanterna Verde entre 1970 e 1972 é justamente da dupla andando pelo seu país e, quem diria, lidando com questões sociais. Mas não foi apenas Hal Jordan que se aventurou no seu próprio planeta, como Kyle Rayner, Simon Baz, Jéssica Cruz e o próprio John Stewart.
A série não foge disso. Inclusive, um ponto interessante do roteiro é Lanternas seguir o conceito da leva de histórias dos anos 70.
Também é de se elogiar como a série tem a coragem de ter uma conclusão que não gira em torno de uma grande briga com luzes, aquele eterno “a seguir” e um monte de easter eggs inúteis. Inclusive, toda referência durante os oito episódios foi pertinente à trama.

Eu aceito o meu medo para que o bem vença
Durante as semanas de exibição de Lanternas, contribuí brevemente com o quadrinista e pesquisador Manoel Taylor e a pesquisadora de literatura e cultura pop Milena Enevoada. Minha parte foi comentar sobre aspectos psicológicos, emocionais (leia aqui), e o seriado transborda neste tipo de material.
A conclusão da jornada individual de John Stewart no seriado é emocionante porque remete ao conceito de sombra de Jung, a parte oculta e rejeitada de sua psique. Quando ele aceita o medo que rejeitou durante toda a sua vida, o integra à sua consciência, aceitando ser o Lanterna Verde independente da Terra.
Stewart não se torna um mero “free lancer”, fazendo de sua jornada heroica um rompimento não apenas com os seus medos, como também com os Guardiões, que representam um sistema que exige obediência sem questionamento. Isso não é apenas uma liberdade criativa, mas uma referência à nona arte, como o mesmo feito de Hal Jordan em Lanterna Verde: Renascimento, Além disso, é sempre muito divertido ver um personagem negro romper com o sistema.
Lanternas é um seriado que não é apenas uma peça de um universo em construção como o DCU. Mas um lembrete de que o modelo infantil de lutas e poderes não deve aprisionar as adaptações de quadrinhos. Pelo contrário, este recurso deve sempre ser uma metáfora para alcançar uma reflexão muito mais madura de temas muito relevantes.
Confira o Trailer de Lanternas:
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