Em dezembro, recebemos da Rockstar Games a chave do remaster de Red Dead Redemption, que chegou aos consoles e PCs da atual geração após muitos anos de espera e antecipação por parte dos fãs. Jogamos o game no PC, com gráficos revitalizados, suporte nativo a 4K, 60 fps e tradução oficial para o português do Brasil. Na atual geração, essa talvez seja a principal forma de conhecer o jogo, que agora se tornou mais acessível e funciona bem como um novo mergulho no mundo da franquia – isso se você ainda não a conhece.
O game tem, para mim, um retrogosto diferente dos títulos daquela safra de 2010, como God of War 3, Assassin’s Creed: Brotherhood e outros. Em 2012, redescobri o prazer do videogame após quatro ou cinco anos sem jogar, e não parei até hoje.
Com o meu Xbox 360, mergulhei em mais aventuras e entrei em mais mundos do que julgava ser possível. À época, com quase 20 anos, lembrei-me do prazer que era jogar depois de um longo dia de trabalho, e Red Dead me acompanhou por muitas e muitas horas.
Retornar ao game pouco mais de 14 anos depois me causou um maravilhamento singular. Voltar à cidade de Armadillo, em um primeiro momento, despertou sensações diversas, como quem visita um bairro em que já viveu no passado ou por onde passou vezes suficientes para decorar cada uma de suas ruas.

Retornei a Red Dead Redemption como quem reencontra um amigo que não via há muito tempo, apenas para me surpreender com as novidades que ainda encontraria ali. Lá nos idos de 2012, o game já me impressionava pela forma como optava por contar sua história. Sempre fui alguém que se divertia com ações desenfreadas, mas, em Red Dead Redemption, eu gostava de ver o tempo passar.
Ao retornar ao game após finalizar seu sucessor, Red Dead Redemption 2 (que, na verdade, é um antecessor, ambientado 12 anos antes do primeiro título da franquia), somos mergulhados em dinâmicas e acontecimentos que ainda ecoam após o fim da gangue de Dutch van der Linde, quando precisamos lidar com seus asseclas – antigos parceiros de gangue.
Reencontrar John Marston após o trabalho narrativo brilhante da Rockstar em Red Dead Redemption 2 confere ao primeiro game ainda mais profundidade. Os jogadores mais antigos sabem que, assim como no segundo título da franquia, nem tudo acaba como a gente quer. De modo que nenhum personagem desenvolvido pela Rockstar começa sua história e a termina da mesma forma.

Na expectativa pelo próximo lançamento badalado da Rockstar, GTA VI, muitos acreditam que o próximo projeto da desenvolvedora será um terceiro game da franquia Red Dead. Talvez essa seja uma das coisas que eu mais desejo (talvez até mais do que o próprio GTA VI).
A falta de experiência e bagagem à época fez com que eu entendesse Red Dead Redemption de maneira completamente diferente. Ainda assim, testemunhar seus acontecimentos ao longo de mais de 30 ou 40 horas continua a maravilhar jogadores, mesmo 16 anos após seu lançamento original.
Dan Houser, Christian Cantamessa, Michael Unsworth e Rupert Humphries talvez sejam alguns dos roteiristas a quem mais devo horas de contemplação. Eles foram responsáveis por algumas das maiores canetadas da indústria, como “As pessoas não esquecem. Nada é perdoado”, do primeiro game, e a brilhante “Eu te dei tudo o que eu tinha”, quando Arthur confronta Dutch no segundo título.

A narrativa de Red Dead Redemption poderia nos afetar de maneira mais superficial se fosse um longa-metragem ou uma história em quadrinhos. Testemunhar como esse mundo é capaz de nos transformar por meio de histórias tão peculiares e distantes da nossa realidade comprova o poder do videogame enquanto mídia.
O princípio ativo dos videogames nos coloca na função de controlar cada personagem em sua jornada, retirando de nós a passividade que assistir a um filme propõe. Controlar John Marston, Arthur Morgan e Jack Marston nos dá a sensação de domínio, a sensação de que a história a ser escrita depende de nós, mesmo que ela tenha sido previamente construída por uma equipe brilhante.
Diferente deste texto, que saiu pouco mais de um mês após o relançamento do game, levei quase sete anos para tomar coragem e escrever sobre Red Dead Redemption 2 por achar que nada que eu escrevesse fizesse jus à experiência. Isso diz muito sobre o peso que essas histórias carregam.

Apesar de toda a brutalidade exigida pela época em que ambas as narrativas se passam, encontramos em John Marston e Arthur Morgan forças que parecem tentar romper um ciclo de destruição. Enquanto Marston deseja se colocar entre o perigo e sua família, Morgan tenta impedir que a loucura de Dutch leve à ruína aqueles que ele um dia chamou de família.
O arco de crescimento de John em Red Dead Redemption o torna muito diferente de quando o encontramos no segundo game da franquia. Como personagem já bem construído no título posterior, cabe a nós entender, no primeiro jogo, como ele se tornou quem era. Daí vem a desconstrução de Marston e a compreensão do papel que Arthur Morgan teve em sua vida.
Alguns acontecimentos de Red Dead Redemption revelam claramente como a Rockstar pensa ao desenvolver suas histórias. Em um primeiro momento, as cicatrizes de John servem para apresentá-lo como um personagem duro e vivido. Já na continuação, ambientada anos antes, entendemos como ele ganhou essas marcas. E não apenas isso: vemos também sua relação com Abigail, sua esposa, e com seu filho, Jack.

Rico em tudo aquilo a que se propõe, Red Dead Redemption nos lança novamente ao Velho Oeste como uma ode aos filmes do gênero. Ao mesmo tempo em que vai na contramão de sua própria categoria, o game constrói personagens complexos e deposita, nas costas de figuras marginalizadas, o poder de mudar a história. Personagens femininas fortes surgem em meio a uma narrativa que cresce de forma constante e segura.
Red Dead Redemption merece ser jogado por todos aqueles que se apaixonaram por sua continuação, mas que ainda não tiveram a oportunidade de conhecê-lo. Chegando aos consoles e PCs mais recentes, o game se firma como uma brilhante homenagem ao cinema western e uma verdadeira aula de narrativa, sem sequer entrar no mérito das dinâmicas e mecânicas que sustentam sua experiência.
Confira o trailer do game:

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