A grande pauta do mundo da tecnologia atualmente é como a escassez contínua de memória RAM (apelidada de “RAMageddon” ou “RAMpocalipse”) causou aumentos massivos nos custos de hardware. Até agora, a explicação oficial era que essa falta de componentes havia sido impulsionada pela construção desenfreada de data centers para Inteligência Artificial.
No entanto, uma nova ação judicial coletiva promete mudar essa narrativa. O processo (Garciaguirre et al. v. Samsung Electronics Co., Ltd., et al.) acusa as fabricantes Samsung, SK Hynix e Micron de explorarem as condições do mercado para inflacionar os preços artificialmente.
O domínio do mercado e o aumento de 700%
A memória DRAM é essencial para praticamente qualquer dispositivo computacional moderno. O grande problema é que a Samsung, a SK Hynix e a Micron respondem por mais de 90% da receita global de DRAM.
A ação coletiva, movida por 14 indivíduos e três empresas, acusa as três companhias de conspirarem para fixar os preços e a oferta de memórias DDR3 e DDR4. Segundo o documento, as empresas se envolveram em condutas que “não fariam sentido econômico sem um conluio” e que elevaram o preço da DRAM convencional em aproximadamente 700% em um período de quatro anos.
A lógica por trás do esquema funcionaria da seguinte forma:
- Apesar da demanda altíssima por DRAM, as três empresas reduziram a produção desse componente.
- O foco foi desviado para a Memória de Alta Largura de Banda (HBM), que é usada em data centers de IA, mas que geralmente é menos lucrativa.
- A diminuição proposital na produção da DRAM causou uma escassez artificial.
- Essa escassez permitiu a remarcação absurda dos preços para os compradores de DRAM, encarecendo todos os eletrônicos.
Um histórico criminal reincidente
Se a acusação de formação de cartel parece absurda, o histórico dessas companhias prova o contrário. O processo aponta que, entre 1998 e 2002, essas exatas mesmas três empresas participaram de uma conspiração criminosa para fixar os preços de DRAM vendida para grandes empresas americanas de computadores.
Naquela época, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos processou o caso com consequências pesadas:
- A Samsung se declarou culpada e pagou uma multa de US$ 300 milhões, com vários executivos indo para a prisão.
- A Hynix (antecessora da SK Hynix) se declarou culpada e pagou US$ 185 milhões.
- A Micron evitou multas porque denunciou a conspiração e cooperou com as autoridades.
Além disso, o trio também foi investigado pelo governo chinês durante um pico de preços de RAM entre 2016 e 2018. Agora, o novo processo exige que o tribunal conceda uma liminar permanente para forçar as empresas a encerrarem a restrição coordenada de fornecimento, além de buscar indenizações para os consumidores afetados.
O impacto direto no bolso dos Gamers
Os fabricantes de consoles de videogame estão sentindo a pressão dos preços exorbitantes da RAM e repassando a conta para os jogadores.
A Steam Machine da Valve acabou custando centenas de dólares a mais do que o ponto de entrada pretendido originalmente. Simultaneamente, Sony, Microsoft e Nintendo precisaram aumentar os preços de seus consoles no varejo.
Hoje, custa cerca de US$ 300 a mais comprar um Xbox Series X em comparação ao seu preço de lançamento, enquanto um PS5 base agora custa US$ 150 a mais do que no dia um. Quando somamos o custo nas alturas do hardware aos jogos AAA (como Grand Theft Auto 6) sendo vendidos na faixa de US$ 80 a US$ 100, fica claro que vivemos tempos difíceis para os consumidores de games.

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