CRÍTICA – Alma de Cowboy (2021, Ricky Staub)

    Alma de Cowboy (Concrete Cowboy) é o novo filme da Netflix com estreia prevista para o dia 2 de abril. O longa é inspirado no romance Ghetto Cowboy de Greg Neri e é dirigido pelo cineasta estreante Ricky Staub, que co-escreveu o roteiro com Dan Walser.

    No elenco estão Idris Elba que também é produtor do longa, Caleb McLaughlin (Stranger Things), Jharrel Jerome (Olhos Que Condenam) e Lorraine Toussaint.

    SINOPSE

    Cole (Caleb McLaughlin), de 15 anos, é levado para viver com seu distante pai Harp (Idris Elba) no norte da Filadélfia. Lá, ele descobre a vibrante cultura de cowboys urbanos da cidade que existe há mais de 100 anos, proporcionando um refúgio seguro para o bairro, apesar da pobreza e violência.

    ANÁLISE

    É inevitável não pensar nos filmes hollywoodianos quando a palavra cowboy é pronunciada. Isso porque, o saudoso gênero western nos acostumou com histórias de bandidos e mocinhos, giros de pistolas e confrontos tensos. Porém, Alma de Cowboy traz uma história nunca antes contada pelo cinema estadunidense, mas que sempre esteve ali perto.

    Além da trama principal entre filho e pai que precisam se reconectar, o filme aborda a história real do Clube Fletcher Street na Filadélfia, Pensilvânia. Durante séculos, o hipismo urbano afro-americano sobreviveu pelos asfaltos e prédios da cidade.

    Os cavaleiros locais mantêm e cuidam dos cavalos e ensinam os jovens da vizinhança a fazerem o mesmo. Sendo o clube uma forma de manter os adolescentes longes do mundo das drogas e crimes que afligem a rua dos bairros da cidade.

    É sobre essa premissa que Alma de Cowboy constrói sua narrativa. Cole é um jovem problemático que vai morar com o pai Harp em um bairro pobre da zona norte da Filadélfia. A relação entre os dois é cheia de atritos, Cole sente que foi abandonado pelo pai. Já Harp de uma forma dura tenta passar valores para o filho.

    A trama ganha maior profundidade quando o espectador percebe a riqueza histórica, social e cultural que cerca os protagonistas. Harp é um cowboy que faz parte de um grupo de pessoas que dedica a vida a cuidar e criar cavalos. A atividade não é bem vista pelos moradores da cidade e nem pela lei que tenta tirar os animais da proteção dos cowboys.

    Dessa forma, o longa de Ricky Staub avança fazendo uma relação entre o mundo dos cowboys de asfaltos e o mundo do crime. Enquanto Cole limpa os estábulos e aprende sobre os cavalos, ele também se aproxima do antigo amigo Smush (Jharrel Jerome) que está envolvido com o tráfico de drogas. Logo, Cole precisará escolher qual vida deseja levar.

    Relações 

    Durante uma reunião dos cowboys sobre a luz de uma fogueira, Nessie (Lorraine Toussaint), uma das moradoras de Fletcher Street, fala:

    “As pessoas acreditam que domar um cavalo é acabar com a vontade do animal. A única forma de enxergar o verdadeiro espírito do animal é através de amor.” 

    O mesmo se aplica a Cole, já que o garoto não acredita ser amado pelo pai. Por isso, desenvolve uma forte amizade com Smuch, ambos se sentem abandonados pelos adultos. Contudo, o roteiro não se aprofunda nas motivações de Cole, não sabemos porque o garoto tem um comportamento explosivo a não ser o conflito com o pai. Tão pouco Harp é aprofundado porque sabemos do seu passado, mas não é dito o que foi preciso para ele mudar.

    Porém, as maravilhosas atuações de Caleb McLaughlin, Idris Elba e Jharrel Jerome trazem os alentos a um roteiro previsível. A química entre McLaughin e Jerome é sucesso para mais produções com a dupla. Já Elba aposta em maneirismos referente a cowboys para criar seu personagem.

    Nessa mesma perspectiva, a direção de Staub é segura e busca trabalhar a emoção. Por isso, o diretor utiliza tanto a câmera em mão para os momentos de ação, como a câmera lenta para os momentos mais comoventes. A direção de fotografia aposta nas cores mais quentes com um tom de fim de tarde que realça personagens, animais e o asfalto da cidade.

    O que torna o filme de Ricky Staub honesto e belo é a luz que a produção lança sobre a cultura negra e sua relação com os cavalos. Algo que vem sendo totalmente apagado da história. Dessa forma, o filme pode não apresentar um ótimo roteiro, mas é fiel à sua mensagem final: trazer à tona a existência dos cowboys negros urbanos.

    VEREDITO

    Ao final de Alma de Cowboy, os créditos revelam que muitos dos personagens apresentados no longa são reais e fazem parte do Clube Fletcher Street. Logo, é notável a força que uma narrativa tem ao contar histórias que fazem parte de uma cultura real.

    Dessa forma, Alma de Cowboy é um longa que busca honrar memórias e isso, ultrapassa qualquer falha técnica.

    Nossa nota

    4,0 / 5,0 

    Assista ao trailer:

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