CRÍTICA – Clara Sola (2021, Nathalie Álvarez Mesén)

    Parte da Directors’ Fortnight no Festival de Cannes 2021, Clara Sola é um filme Sueco/Costarriquenho dirigido e roteirizado por Nathalie Álvarez Mesén. O longa estreou no festival no dia 8 de julho e é o debut de Nathalie como diretora.

    SINOPSE

    Clara (Wendy Chinchilla Araya), uma mulher de 40 anos, acredita ter uma ligação especial com Deus. Como “curandeira”, sustenta uma família e uma aldeia carente de esperança, enquanto encontra consolo na sua relação com o mundo natural.

    Depois de anos sendo controlada pelos cuidados repreensivos de sua mãe, os desejos sexuais de Clara são estimulados por sua atração pelo novo namorado de sua sobrinha. Essa força recém-despertada leva Clara para um território inexplorado, permitindo-lhe cruzar fronteiras, tanto físicas quanto místicas. Fortalecida por sua autodescoberta, Clara gradualmente se liberta de seu papel de “santa” e começa a se curar.

    ANÁLISE

    Explorando com sensibilidade os sentimentos humanos e a conexão com a espiritualidade, Clara Sola é um filme construído em torno de diversas descobertas. No longa acompanhamos a história de Clara, uma mulher que nunca teve controle sobre a própria vida. Sua mãe é conservadora, manda e desmanda o tempo todo, decidindo, inclusive, se ela pode ver televisão ou ter determinado tratamento médico.

    Todo esse controle possui uma fonte: o fato de Clara ser milagrosa. Distribuindo bênçãos entre a população de seu vilarejo na Costa Rica, ela é uma fonte inesgotável de esperança para todos à sua volta. Entretanto, sua eterna doação e privação de liberdade a mantém sufocada e solitária.

    A visão que temos de Clara é que sua família a trata como uma pessoa incapacitada. Devido à sua conexão com a natureza e com os animais, ela passa a maior parte do tempo em sintonia com esses seres, não conseguindo realmente se conectar com os humanos que a cercam. A situação muda quando sua sobrinha arranja um namorado, e os desejos sexuais de Clara começam a despertar.

    O longa de Nathalie mostra a transição da personagem principal para uma fase de maturidade e descobrimento do próprio corpo depois dos 40 anos. Ao mesmo tempo que entendemos essa dualidade entre a mulher humana e a sua representação como virgem santa, o roteiro retrata o pensamento machista e patriarcal enraizado no modo de pensar das mulheres que vivem com Clara.

    CRÍTICA - Clara Sola (Nathalie Álvarez Mesén, 2021)

    É impressionante que Wendy Araya esteja em seu debut como atriz. A premiada dançarina costarriquenha está excepcional como Clara, dando vida a uma personagem sensível, mas forte e empoderada. Sua atuação é composta basicamente por suas expressões faciais e corporais, sendo um papel extremamente desafiador.

    Suas cenas com Daniel Castañeda Rincón, que interpreta Santiago, passam uma constante sensação de curiosidade e desejo, instigando o espectador a entender o que pode acontecer durante a conexão de duas pessoas tão diferentes.

    As locações de Clara Sola são simples, se passando basicamente no sítio da família principal e com poucas cenas fora daquele espaço. Entretanto, a produção não é monótona, tampouco cansativa, sabendo extrair acontecimentos interessantes e significativos da rotina de Clara e de sua família, pavimentando as decisões tomadas pela personagem principal ao longo da trama.

    CRÍTICA - Clara Sola (Nathalie Álvarez Mesén, 2021)

    O fator mais interessante do longa, que se distingue de outros filmes coming of age, é a espiritualidade. O fato de Clara ser abençoada com um dom e ajudar muitas pessoas, mas ter sua autonomia negada, é algo doloroso e injusto. Nathalie consegue explorar a situação com grande habilidade, dirigindo belíssimas cenas de Clara em sintonia com seu corpo e com a natureza.

    VEREDITO

    Clara Sola é um belíssimo filme. Sensível, intrigante e complexo, o longa de Nathalie Álvarez Mesén traz um ótimo estudo de personagem, explorando o gênero do realismo mágico em contraste com a realidade patriarcal e misógina em que vivemos.

    Nossa nota

    4,0/5,0

    Saiba mais sobre a diretora

    Nathalie Álvarez Mesén é uma roteirista e diretora costarriquenha-sueca. Ela começou sua carreira no teatro na Costa Rica antes de cursar licenciatura em Mime Acting na Universidade de Artes de Estocolmo na Suécia. Nathalie possui também Pós-Graduação em Cinema na Universidade de Columbia em Nova York.

    Aluna da Berlinale Talents, TIFF Filmmaker Lab e NYFF Artist Academy, Nathalie teve seus curtas exibidos em festivais de cinema em todo o mundo. Seu curta FILIP ganhou o prêmio de Melhor Filme com menos de 15 minutos no Palm Springs Shortfest de 2016. Já o curta ASUNDER foi exibido em 2016 no Telluride Film Festival. Ela também participou da roteirização de Entre Tú y Milagros, vencedor do Prêmio Orizzonti de Melhor Curta no Festival de Cinema de Veneza 2020.

    Atualmente, Nathalie está desenvolvendo seu segundo longa-metragem chamado “The Wolf Will Tear Your Immaculate Hands”.

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