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CRÍTICA | Druk – Mais Uma Rodada (2020, Thomas Vinterberg)

CRÍTICA | Druk - Mais Uma Rodada (2020, Thomas Vinterberg)

Influenciado por movimentos anteriores, como o Neorrealismo e a Nouvelle Vague, o coletivo Dogma 95 surgiu com o objetivo de “purificar” o fazer cinematográfico. Enquanto os italianos e franceses buscavam uma maior liberdade criativa, os dinamarqueses acreditavam que a única forma de devolver ao cinema sua autenticidade era impor regras rígidas de produção, abrindo mão de recursos caros ou de efeitos especiais, assim como de truques técnicos de câmera ou pós-produção. Os diretores deveriam se concentrar na história e na performance dos atores, e neste caso, Druk – Mais Uma Rodada, faz parte da seleção de filmes dogmáticos assinado por Thomas Vinterberg.

SINOPSE

No filme, quatro professores de colégio estão entediados e, por isso, são entediantes. Como resultado, suas burocráticas aulas não conseguem estimular seus alunos. Quando o protagonista Martin (Mads Mikkelsen) é criticado por pais e alunos durante uma reunião, ele desabafa com os amigos. Então, o grupo resolve testar neles mesmos a teoria de um especialista que afirma que as pessoas vivem melhor mantendo 0,05% de álcool no corpo.

Assim, os professores começam com uma dose pequena e percebem um ótimo resultado. Porém, logo se empolgam e aumentam as quantidades. Como consequência, além de apresentarem um comportamento social prejudicial, um deles se torna dependente do álcool.

ANÁLISE

Algo interessante é que a inspiração do filme é real. A ideia que o longa passa foi desenvolvida pelo psiquiatra norueguês Finn Skarderud, famoso em seu país de origem e após ter conhecimento dessa “pesquisa”, Vinterberg começou a desenhar o filme que mesmo de forma sútil e leve, nos faz pensar no nosso “eu” e como lidamos com as frustrações e o modo como decidimos nos livrar delas; e para muita gente é o álcool que possibilita essa tomada de atitude.

Esse é o ponto que encaminha à crítica do filme. O ato de beber, posto de forma romantizada, acaba se tornando compulsivo de modo que os homens, levados pelo vício, cultivem a ideia de que são “legais” apenas quando estão sob efeito do álcool, e que a bebida é o melhor refúgio em períodos difíceis e/ou norteados pelo estresse rotineiro.

Há também a problemática presente nas cenas que seguem com os professores bebendo em pleno ambiente escolar – com o caso de um dos alunos ter sido induzido a ficar bêbado antes da realização da prova final, a mesma que lhe abriria portas para Universidade.

Se tratando da parte técnica, a fotografia de Druk incorpora o estilo geralmente adotado nas produções europeias. Quanto às atuações, o destaque vai para Mikkelsen que assume o papel principal. Notório por Hannibal, o ator recentemente foi escalado para interpretar o vilão Gellert Grindelwald na franquia Animais Fantásticos.

Na pele de Martin, Mikkelsen entrega uma atuação que, como é de se esperar, faz jus à qualidade vista em outros projetos do dinamarquês. Ela envolve quem está assistindo e é capaz de fazer com que o espectador esqueça que se trata de um personagem totalmente fictício.

A iluminação aplicada é primorosa e irretocável, combinando contraluzes com cenas bem expostas, que subitamente se transformam em sombras e trevas à medida que os amigos deixam de consumir experimentalmente álcool e começam a por ele ser consumidos. O único incômodo vem do excessivo controle do match painting, o equilíbrio das cores da paleta hoje em dia tão inescrupulosamente controlado pelos fotógrafos que, mesmo que agradáveis aos olhos, tira a verossimilhança das cenas quando se torna muito evidente.

Thomas Vinterberg é um dos diretores mais importantes da Dinamarca da atualidade e ficou bem conhecido em 1998 com o dano-sueco Festa de Família. Esse foi o primeiro filme desse movimento e por isso é tão marcante. Além disso, essa obra que lhe rendeu o Prêmio do Júri, no Festival de Cannes, e agora garantindo duas indicações ao Oscar nas categorias Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Diretor.

Pra quem quer conhecer mais sobre Vinterberg, sua filmografia inclui alguns dos mais aclamados filmes dos últimos anos, como A Caça (que Mads Mikkelsen também é protagonista) indicado ao Oscar em 2014, além de Longe Deste Mundo Insensato e A Comunidade.

VEREDITO

Druk é um filme sensível, com a dose certa de tragicomédia e que trata o álcool como parte da existência humana, ilustrando sua utilização (e abuso) dentro dos mais distintos cenários psicossociais e nas diferentes faixas etárias.

Gostei particularmente por não ser moralista e óbvio, mostrando o papel do álcool na sociedade, seja negativamente ou positivamente.

As atuações são ótimas, convincentes e não há um personagem antipático no filme, todos possuem sua importância narrativa e lidam com o álcool diferentemente.

O filme ainda tem alguma dificuldade em potencializar e desenvolver seus dramas como poderia e, por vezes, quando faz isso acaba recorrendo a caminhos fáceis (parte do ato final mostra bem isso).

Contudo, apesar dos pesares, o longa consegue com seu protagonista mostrar uma jornada interessante e crível de crise da meia-idade, reflexão interna e aceitação do seu presente estado.

Nossa nota

4,5 / 5,0

Assista ao trailer legendado:

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Amante da sétima arte. Fascinada na relação entre cinema, história e filosofia. Devoradora de quadrinhos, aprecia um bom clássico e combate o crime em Gotham City nas horas vagas.