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CRÍTICA – Mank (2020, David Fincher) | Feededigno

CRÍTICA – Mank (2020, David Fincher)

Adentro do universo da sétima arte, tudo é capaz de se transformar, principalmente o que está por trás dos bastidores de uma determinada obra. Este é o caso de Mank, pincelando a vida do escritor Herman J. Mankiewicz, que escreveu o roteiro de Cidadão Kane, um dos maiores clássicos da história do cinema.

“Este é um negócio onde o comprador só ganha uma lembrança do que pagou. O que ele comprou ainda pertence a quem vendeu. Essa é a verdadeira magia dos filmes, e não deixe que digam o contrário.”
Meyer, Louis B.

O lendário diretor David Fincher retorna honrando o legado de seu pai, Jack Fincher, falecido em 2003. Filmando o roteiro que o veterano jornalista havia escrito e que estava planejado para ser produzido no final da década de 90, Mank aborda o conturbado desenvolvimento daquele que viria a ser celebrado pela crítica mundial por décadas como o melhor filme de todos os tempos, o eterno Cidadão Kane, de Orson Welles.

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SINOPSE 

Contada de forma não linear, a trama acompanha o esforço de Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman) para escrever o roteiro de Cidadão Kane a mando do prodígio Orson Welles (Tom Burke), que prepara sua grande estreia em Hollywood. Lutando contra um tremendo alcoolismo, Mank vai se lembrando de períodos de sua vida que trarão inspiração para o texto, como a turbulenta eleição para governador em 1934 e sua relação com o magnata da imprensa, William Randolph Hearst (Charles Dance).

ANÁLISE 

O longa-metragem não discorre sobre os bastidores de Cidadão Kane, e a própria relação de Herman com Welles fica em segundo plano. Temos o preto e branco, característico de Cidadão Kane, com uma bela fotografia e técnicas que remetem ao filme de 1942. David Fincher homenageia a obra-prima de Orson Welles, como tentou fazê-la nos anos 90 e não conseguiu. Isso porque filmes em preto e branco sofrem certa resistência em Hollywood, mas enfoca uma figura importante que é pouco conhecida de sua história: o roteirista.

Fincher aplica de forma magistral todas as técnicas que Orson Welles não necessariamente inventou, mas apurou a ponto de se tornarem lugar comum na produção cinematográfica. Como, por exemplo, a técnica da câmera baixa e a profundidade de campo.

Elas fazem com que o espectador tente absorver tudo o que está na tela. De fato, o cineasta foi auxiliado pelo grande diretor de fotografia Greg Tolland.David Fincher conta com Eric Messerschmidt pra se utilizar disso e da luz natural de uma forma soberba.

CRÍTICA – Mank (2020, David Fincher)

Usando desse próprio preciosismo, Fincher consegue apontar como Hollywood é um mundo que constrói uma áurea bela e mágica para esconder seus segredos. É nesse momento em que a reconstituição estética e narrativa acaba dando força e andando junto com uma fortíssima crítica social sobre o que de nefasto se esconde por trás desse “mundo de sonhos” que Mank passa o filme inteiro passeando em sua jornada, tanto literalmente quanto pela sua mente.

É uma realidade onde ricos e poderosos se reúnem em jantares autocentrados para saciar suas próprias vaidades. Um mundo onde apoios políticos caminham juntos com os interesses do capitalismo selvagem, ideologias são impostas como negócio onde os personagens vivenciam um sistema que silencia, corrompe e destrói quem estiver no seu caminho.

É como se Mank e Marion Davies (Amanda Seyfried) com todos os seus defeitos e falhas fossem para David Fincher as únicas figuras que verdadeiramente transparecem verdade e sinceridade naquele mundo de mentira. São humanos e realistas acima de tudo. Não é à toa que eles se encantam um pelo outro e encantam o próprio Hearst.

A composição de Seyfried é inspiradíssima, quase como uma jovem Norma Desmond ao contrário. Ela é destaque sempre que está em cena, por mais que seja em poucos momentos. Amanda Seyfried toma o filme para si nesses pequenos momentos quase que hipnoticamente, e impressiona a sutileza com que conduz os tiques de Marion e também os menores olhares e gestos. Assim como o próprio filme mostra, ela é em seu interior muito diferente do que aparenta externamente.

Sua Marion é um reflexo cênico da Hollywood de Fincher: cintilante e bela por fora, encantadora, mas por dentro desesperadamente triste e preocupada com o que há em sua volta.

CRÍTICA – Mank (2020, David Fincher)

Mais uma vez, Gary Oldman tem aqui outra oportunidade de brilhar como um ator genial e carismático. Mas tão delinquente a ponto de ir apostando em qualquer coisa até chegar ao fundo do poço. Enquanto isso, seus pares estão muito mais cientes do poder que ele tem em mãos. Especialmente o personagem William Randolph Hearst interpretado por Charles Dance, um notório influente na política de uma época em que o nazismo e o comunismo já eram considerados uma ameaça ao modo de vida americano.

A trilha sonora é extremamente magnética. Os aclamados compositores Trent Reznor e Atticus Ross que juntos, contém um belíssimo histórico já trabalharam com David Fincher em Garota Exemplar, A Rede Social e Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres. A dupla utilizou apenas instrumentos de época para trazer o máximo de naturalismo possível, ou seja, nos transmitindo a visão dos anos 40 de forma mais autêntica possível.

Entretanto, acredito que falta ainda um certo ritmo ao longa-metragem, o que pode ser parcialmente explicado pelo fato de que o roteiro tenha sido desenvolvido nos anos 1990, texto que, por todo o contexto, deve ter sido tradado com preciosismo pelo diretor, que chegou a fazer 100 tomadas de uma mesma cena.

Um filme para poucos, em suma, mas que deve marcar presença na temporada de premiações, e quem sabe, se consolidar como um clássico certeiro daqui alguns anos.

CRÍTICA – Mank (2020, David Fincher)

VEREDITO

David Fincher realiza um psicodrama cerebral que recompensa o público cinéfilo engajado em sua mira, mas mesmo quando frio ao toque, o filme oferece um olhar complexo e perspicaz sobre as estruturas de poder americanas e o potencial de uma centelha criativa para usar como inspiração o argumento de Cidadão Kane com um olhar sobre a ‘golden age‘ de Hollywood.

Mank é um retorno formidável de Fincher para os longas-metragens, ainda que seja um filme difícil de absorver sem que o espectador faça uma boa “lição de casa” sobre o período e suas referências. Apesar de uma narrativa outrora distraída, é uma perfeita recriação de época e um estudo de personagem fascinante, carregado por um elenco impecável e uma técnica irretocável.

Nossa nota

4,5 / 5,0

Assista ao trailer:

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