CRÍTICA – Pieces of a Woman (2021, Kornél Mundruczó)

    Pieces of a Woman é o primeiro filme de língua inglesa do diretor húngaro Kornél Mundruczó e o roteiro foi escrito por sua esposa, Kata Wéber. O casal já havia trabalhado juntos em Deus Branco (2014), vencedor da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes, e Lua de Júpiter (2017).

    No elenco estão Vanessa Kirby (The Crown), Shia LaBeouf, Ellen Burstyn (Alice Não Mora Mais Aqui) e Sarah Snook (Succession).  Pieces of a Woman teve sua première em setembro do ano passado, no Festival de Cinema de Veneza, onde Kirby levou o prêmio de Melhor Atriz.

    SIONPSE

    Pieces of a Woman é a jornada emocional de uma mãe que acaba de perder seu bebê. Diante dessa perda, ela terá que lidar com as consequências que seu luto tem nas relações com o marido e a mãe, lutando para que seu mundo não desabe por completo.

    ANÁLISE

    Alguns filmes nascem bem antes da sua concepção na tela. Muitas vezes, o que é entregue é resultado de um processo doloroso, mas transformador. De certa forma, Pieces of a Woman que entrou na Netflix na última quinta-feira (7) carrega essa atmosfera.

    Sem ser clichê ou dosar demais nas atuações, o filme consegue ser extremamente intimista e intenso ao retratar um grande luto. Não à toa, a história contada no longa vem de um trauma real. A roteirista Kata Wéber e o diretor Kornél Mundruczó passaram pela experiência de aborto espontâneo descrita como “bastante complicada”.

    Logo, é nos detalhes do roteiro de Wéber e na direção segura de Mundroczó que o filme ganha força. Sendo assim, em um primeiro momento vemos Sean (Shia LaBeouf) trabalhar na construção de uma ponte em Boston; ele chega a comentar que sua filha será uma das primeiras pessoas a passarem pelo local quando estiver pronta.

    Consequentemente, o filme caminha para sua cena mais tensa e arrasadora. São praticamente 24 minutos de um plano sequência, onde Martha (Vanessa Kirby) está tentando ter um parto normal em casa. A parteira de Martha não consegue chegar a tempo e manda outra em seu lugar, o casal aceita Eva (Molly Parker) para fazer o parto. Da cozinha para a sala, da sala para a banheira, da banheira para o quarto, o espectador acompanha a cena com apreensão.

    A cada momento uma emoção diferente toma conta: medo, esperança e tristeza. Logo, o que era uma ocasião de alegria vai se transformar aos poucos em uma situação dolorosa. A bebe nasce, mas morre por problemas respiratórios. Nunca antes uma cena sobre parto foi tão corajosa e intimista, Kornél Mundroczó captura com maestria a angústia, o alívio e por último, o desespero presente no ambiente.

    Atuações potentes

    O plano sequência serve como um prelúdio para Pieces of a Woman. Ao longo do filme, a ponte de Sean é constantemente usada como sinônimo de passagem de tempo, mas também como analogia para a criação e o término de laços. Logo, a ponte em construção com pedaços faltando no meio é uma narrativa bem vinda para denotar a falta de algo. Alguma coisa naquela família se rompeu e precisa ser reconstruída aos poucos.

    Shia LaBeouf.

    Porém, não é o casamento de Sean e Martha que precisa ser reconstruído. O casal se afasta e cada um com sua própria dor procura meios de superar o trauma. Sendo assim, Sean se revela mais afoito e até mesmo violento. A atuação de LaBeouf é nervosa e ressentida, fazendo com que Sean se sinta cada vez mais diminuído.

    Em certos momentos é até fácil esquecer as recentes acusações de comportamento abusivo do ator. A cantora britânica FKA Twigs, ex-namorada de Shia LaBeouf, abriu um processo contra o ator por agressão e assédio sexual. Mas, em uma das cenas mais desconfortável do longa, Sean tenta ter relações sexuais com Martha que não parece muito receptiva. Finalmente, quando ela sede a pressão, ele sai sem vontade, furioso.

    Toda sua raiva reprimida por ela e sua família o leva a atirar uma bola de yoga no rosto de Martha. Ela calmamente esvazia a bola com um cigarro, sendo também autodestrutiva e enfurecida, mas nunca violenta como ele. Logo, Sean passa a ter um caso com a prima de Martha, Suzanne (Sarah Snook) que está representando a família no tribunal.

    Vanessa Kirby.

    Contudo, nem todo drama em torno de Sean é tão potente quanto os momentos de Martha. A performance de Vanessa Kirby em Pieces of a Woman é memorável e mostra toda sua jornada emocional indo entre o sofrimento, a solidão e o vazio. Martha é uma mulher que sofre em silêncio, assim como tantas outras e agindo até mesmo de forma fria, não quer ser incomodada em sua dor.

    Ellen Burstyn.

    Mas, sua mãe não a respeita. Elizabeth (Ellen Burstyn) insiste com Martha que ela precisa entrar na justiça contra a parteira. Martha sente que a mãe tem vergonha por ela ter “falhado” em ter um bebê. Por sua vez, Burstyn faz um incrível e poderoso monólogo com a câmera estática em seu rosto; suas palavras ressoam em nossos ouvidos e entram na nossa alma.

    Mas, ao final, o caminho que Martha precisa percorrer é somente dela. O filme faz algumas metáforas, tanto como a ponte que ao final é construída, os laços dela com sua família e principalmente consigo mesmo são reencontrados. Assim como Martha é preciso encontrar força e acima de tudo, coragem no luto.

    VEREDITO

    Vanessa Kirby é uma forte concorrente ao Oscar de Melhor Atriz em 2021. Sua atuação silenciosa denota um imenso poder que as mulheres têm quando sofrem esse tipo de trauma. Além disso, o roteiro e direção combinam para um filme longo, mas emergente.

    Nossa nota

    4,0 / 5,0

    Assista ao trailer legendado de Pieces of a Woman:

    O longa já está disponível no catálogo da Netflix.

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