Início FILMES Crítica TBT #134 | A Mosca (1986, David Cronenberg)

TBT #134 | A Mosca (1986, David Cronenberg)

TBT #134 | A Mosca (1986, David Cronenberg)

A indústria do horror começou com produções magistrais a partir década de 1970 e sobre tantos filmes incríveis que pavimentaram o caminho, coube à década de oitenta construir as mentes brilhantes e inovadoras de artistas de maquiagem e efeitos. Até porque, estamos falando da época em que os efeitos práticos inovadores e alucinantes que inauguraram a Idade de Ouro pré-CGI do Cinema – o que significava um glorioso excesso de criaturas em horror. E é assim que o filme A Mosca, também faz parte desses projetos incríveis, uma produção que merece sempre ser homenageada.

SINOPSE 

Seth Brundie (Jeff Goldblum) é um cientista excêntrico que trabalha numa nova invenção, uma máquina de teletransporte – a TelePod. Ao seu lado, tem Verônica (Geena Davis), uma jornalista que acompanha seus projetos acreditando ser essa a história do ano. Ao experimentar seu novo invento, Seth não percebe que uma mosca entrou na cabine do teletransporte. O imprevisto faz com que os padrões moleculares do homem e do inseto se misturem e, pouco a pouco, o cientista vai sofrendo terríveis transformações.

ANÁLISE 

O cinema de David Cronenberg, é como uma autópsia ou uma dissecação: versa, invariavelmente, sobre o que há por debaixo dessa “humana” pele que vestimos. É um cinema que escalpela, para revelar, de modo explícito, da carne crua do animal que somos. A visão que o diretor possui deste animal é a seguinte: trata-se de uma besta-fera, latejando dentro da cada um de nós, sedenta de sangue, faminta por carne, ávida por sexo. Além disso, em todos os filmes do Cronenberg, seus personagens estão escondendo algo de si que, ao longo da trama, passarão por uma transformação ou metamorfose na qual eles deixarão de ser o que aparentavam para se tornar ou revelar o que – ou quem – realmente são.

A transformação de um humano em um inseto a cada minuto do filme é com certeza bastante angustiante. Como toda obra cinematográfica, esperamos que algum milagre possa acontecer e que Seth possa voltar a ser humano, mas a cada minuto que passa, sua salvação parece estar cada vez mais distante e isso faz com que o telespectador seja jogado em uma verdadeira roleta russa de emoções.

Seth é um personagem que representa um excesso de humanização: um cientista brilhante, extremamente culto e inteligente, autodidata, mas com determinadas habilidades sociais, ligadas ao instinto básico da sexualidade, pouco desenvolvidas. Sua dificuldade em, por meio do flerte, seduzir Verônica, o leva a expor o seu segredo para atraí-la ao seu apartamento. Verônica, é uma jornalista que, na trama elaborada por David Cronenberg, cumpre o papel de descobrir os mistérios que Seth guarda.

Agora, talvez o maior destaque para o filme, é o seu trabalho extremamente impecável de maquiagem. Durante todo o processo de metamorfose, podemos ver nitidamente. O resultado foi um design de criatura e efeitos de maquiagem que imprimiram um realismo impressionante ao conto trágico de Cronenberg. O processo preencheu em uma transformação macabra da divisão da pele à medida que partes de insetos emergem, operadas via plataformas por vários membros da equipe ao mesmo tempo.

O estágio final foi um impressionante boneco de haste manipulado com sistemas hidráulicos, motores e cabos que levavam oito operadores por baixo da criatura. O resultado disso? Chris Walas e Stephan DuPuis (supervisores de maquiagem) ganharam um Oscar de Melhor Maquiagem em 1987 e o mais importante: foram primordiais para transformar o filme como um clássico do gênero.

A trama tem cheiro, forma e gosto de um verdadeiro banquete de cinema trash, isto é fato. Mas, o que muitas vezes passa despercebido pelo espectador, é o brilhantismo de toda a composição narrativa e da densidade e profundidade psicológica que podem ser encontradas nesta e em grande parte das obras do diretor.

O que mais impressiona em A Mosca é a inteligência com que David Cronenberg trabalha a construção não apenas dos acontecimentos, mas da conotação humanista das personagens envolvidas nessa trama aparentemente inverossímil e inegavelmente fora da realidade – o que nos permite enxergar a mutação da personagem de Goldblum de forma metafórica, a exemplo da transformação do caixeiro viajante em barata no clássico literário A Metamorfose, de Franz Kafka (somada à intervenção do homem no andamento do mundo moderno, algo que ainda não possuía exacerbância na época em que vivera o escritor checo).

VEREDITO

O que David Cronenberg realiza em A Mosca é uma deturpação dos relacionamentos modernos e da ambição humana através da animalização do indivíduo e da expressão corporal grotesca para expor a desumanidade interna.

A trilha do Howard Shore é maravilhosa, a maquiagem é estupenda e a direção de Cronenberg garante que toda a atmosfera e agilidade do roteiro se mantenham firmes até um fim, num filme direto, bizarro e rico.

As atuações estão ótimas, mas Jeff Goldblum é um verdadeiro fenômeno ao saber transmitir os trejeitos, as obsessões e a perda de humanidade processual que acontece em seu personagem. O terceiro ato é particularmente magnífico, e certamente A Mosca é um daqueles filmes de terror que são obrigatoriedade para fãs do gênero.

Nossa nota

4,5 / 5,0

Assista ao trailer:

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Amante da sétima arte. Fascinada na relação entre cinema, história e filosofia. Devoradora de quadrinhos, aprecia um bom clássico e combate o crime em Gotham City nas horas vagas.