CRÍTICA – Nobody Saves the World (2022, DrinkBox Studios)

    E começamos o ano com a energia aqui oh: lá em cima (imaginem o Renan do Choque de Cultura). Nobody Saves the World, ou em tradução literal Ninguém Salva o Mundo, é um jogo magnífico que me conquistou desde antes do lançamento e só me surpreendeu. O game foi lançado no dia 18 de janeiro deste ano para Xbox One, Xbox Series X e PC.

    Produzido pela DrinkBox Studios, um estúdio independente canadense também responsável pelo brilhante Guacamelee (2014), Nobody Saves the World é mais uma obra-prima feita usando os mesmos ingredientes. Com isto, não digo que seja uma cópia ou repetição de outro jogo, mas que este é um game recheado de desafios divertidos, momentos engraçados e muita ação.

    SINOPSE DE NOBODY SAVES THE WORLD

    Transforme-se de um ninguém sem características em lesma, fantasma, dragoa e muito mais nesta nova leitura dos RPGs de Ação, dos criadores de Guacamelee!

    Conclua missões para descobrir e trocar entre mais de 15 formas únicas e variadas. Troque e misture habilidades de formas inesperadas para desbloquear e concluir missões ainda mais desafiadoras. Explore um mundo aberto enorme (solo ou com um amigo online) em busca de masmorras mutáveis. O objetivo final: deter a Calamidade e salvar o mundo!

    ANÁLISE

    Nobody Saves the World é um jogo para você se orgulhar de ser Ninguém. Ninguém é o personagem principal aqui. E, sendo Ninguém, você pode se transformar em muitas outras coisas. A proposta de Nobody Saves de World, sendo um RPG de ação com calabouços (dungeons) gerados proceduralmente, poderia cair na mesmice. Mas não é o que acontece.

    Se o início do jogo parece raso, sem uma trama ou alguma linha lógica a ser seguida, não demora muito para percebermos a gama de histórias dentre todos os personagens. Este pano de fundo que se constitui a partir de cada nova trama vai complementando muito bem a diversão da história principal. Diversão, inclusive, é um ponto alto do jogo e ela é fomentada por vários outros aspectos do jogo.

    Nobody Saves the World é um jogo para você se orgulhar de ser Ninguém. É um RPG de ação muito divertido que está disponível para Xbox e PC.

    Breve apresentação da trama

    Você acorda em uma cabana sem saber quem você é nem onde está. Você é Ninguém. Em seguida, Ninguém descobre sobre o sequestro de Nostramagus, um poderoso (e bastante egocêntrico) mago. Sem querer, Ninguém encontra a varinha do mago e é convocado a descobrir quem o raptou. A varinha dá a ele poderes de se transformar. E é a partir desta premissa que tudo se desenrola.

    Áudio

    Toda a trilha sonora é composta pelo canadense Jim Guthrie, um incrível compositor. Guthrie ficou bastante conhecido no mundo dos jogos após suas trilhas originais, ou ainda, por sua participação fundamental na composição de jogos como Superbrothers: Sword & Sworcery e Below.

    Além da excelente trilha, que proporciona a ambientação e a energia do jogo, a sonorização dá o toque final para que nossos ouvidos nos auxiliem na imersão. O estilo medieval e fantástico, misturado com a batida agitada clássica dos 16 bits, conversa muito bem com o que os olhos percebem, compondo o combo de imersão e diversão.

    Gráfico

    Como mencionei, não existe uma introdução muito longa no jogo. Acredito então que em razão disto, aliado à qualidade artística do jogo, é que desde o início o que mais impacta são as experiências sensoriais.

    Os gráficos são muito bonitos. O jogo oferece sprites e cenários desenhados à mão num estilo cartunizado que lembra várias obras marcantes. Apesar de não ter identificado a inspiração exata do estilo de arte, é possível que muitos jogadores brasileiros (e um pouco mais velhos) identifiquem as semelhanças com a animação Fudêncio, da MTV. As semelhanças acabam não sendo só no traço, mas na sátira e no estilo grotesco.

    O jogo oferece sprites e cenários desenhados à mão num estilo cartunizado que lembra várias obras marcantes.

    Além disto, identifiquei algumas outras semelhanças, talvez um pouco para além dos gráficos, com os jogos de South Park (misturados com os Zelda clássicos). As provocações reflexivas regadas a escárnio e um humor ácido dão o tom tanto das animações quanto da trama do jogo, trazendo alguns diálogos bastante específicos. Mas isto não pesa, porque com a soma do colorido do jogo e a trilha sonora, a experiência acaba fluindo relaxada e divertidamente.

    Jogabilidade

    O tom de sátira provoca uma influência precisa no jogo. O jogo tem como foco a exploração de calabouços (é um dungeon-crawler) e o desbloqueio e uso das várias transformações que o game oferece. Cada nova forma exige que a forma anterior na árvore de transformações atinja um determinado nível para ser desbloqueada.

    Falando em subir de nível, estes são divididos em dois tipos. Nível do personagem e nível de forma. O nível de personagem é o que influencia diretamente os atributos gerais do seu personagem, como vida, força e afins. Já o nível de forma é o que cadencia a descoberta de novas habilidades e novos espaços de habilidade.

    As habilidades

    As habilidades do jogo são divididas em 3 tipos: habilidade de assinatura, habilidade ativa e as passivas. No nível mais básico de cada forma, as habilidades que ele possui são a habilidade de assinatura e a primeira passiva. A de assinatura é a primeira aprendida capaz de infligir dano, e é exclusiva de cada forma.

    As habilidades ativas são todas as habilidades aprendidas após o aumento de nível de cada forma. As habilidades podem ter efeitos de veneno, atordoamento, corte e lentidão. Existem também algumas habilidades passivas que podem atribuir aos seus ataques alguns efeitos também. No geral, os três tipos de habilidades são bem variados e oferecem uma complexidade interessante ao jogo.

    As habilidades em Nobody Saves the World são divididas em 3 tipos: habilidade de assinatura, habilidade ativa e as passivas.

    Após avançar na exploração, podemos encontrar um NPC que permite que todas as habilidades, exceto habilidades de assinatura, sejam compartilhadas e usadas por qualquer forma. Desta forma, podemos ter um ovo que deixe um rastro de lesma e cuspa bolas de fogo. O poder que Ninguém obtém é incomparável.

    VEREDITO

    Desde o início da experiência, é inegável a capacidade de surpreender que Nobody Saves the World possui. O incentivo à exploração e a dificuldade de acessar certos locais no início por não ter a habilidade instigam a vontade de aumentar de nível e descobrir novas soluções.

    A descoberta de cada nova forma e seu set de habilidades é muito divertido e agrega muito ao longo do jogo, servindo tanto a jogadores casuais quanto aos mais hardcore. A dificuldade do game se dá apenas conforme a vontade de cada jogador de se provar. Nada é impossível. Ninguém tem todas as habilidades necessárias. Basta montar o conjunto certo de habilidades e forma para ter sucesso.

    Entender a proposta é fundamental para curtir

    Por não ter uma linearidade, o jogo pode por vezes se tornar vazio, genérico ou repetitivo. Talvez soe contraditório, mas todas as impressões dependem de como cada um encara o jogo. Entender que a base do jogo são as formas e as habilidades é o primeiro passo. Existem desafios que nem o mais PRO dos jogadores conseguirá passar se não tiver determinada habilidade.

    São mais de 15 formas únicas e variadas em Nobody Saves the World

    Isso pode frustrar por não indicar especificamente o motivo da falha. No entanto, entendendo que o jogo não é focado na dificuldade, se assemelhando mais a um quebra-cabeças do que a um desafio de habilidade, se deduz que ou não temos a habilidade necessária, ou não temos nível. Baseado nisto, algumas missões se tornam bastante inusitadas e engraçadas. Cada forma possui missões específicas, permitindo que sua exploração tenha mais uma motivação.

    Mais um acerto da DrinkBox Studios

    Ainda que jogadores identifiquem alguns problemas, eu só consegui me divertir jogando Nobody Saves the World. Não houve um momento em que eu não estivesse rindo ou buscando avançar para conseguir resolver uma missão secundária ou atravessar um local inacessível pelas formas liberadas.

    Honestamente, este é um jogo com um grande potencial de replay, por sua diversão ou pelas possibilidades. A ideia de poder jogar ele com muita dedicação ou apenas pela diversão também fomenta isto. O valor do jogo para PC está acessível e adequado, estando também disponível através do Xbox Game Pass.

    Ou seja, é um jogo divertido, indie, acessível e que não vai te decepcionar. Eu comentava nas minhas primeiras impressões na live da Twitch que ele concorreria a Jogo do Ano. Talvez tenha sido um pouco exagerado ou precipitado da minha parte. Mas não se surpreendam, porque ele realmente me agradou muito e certamente estará no meu Top 10 do ano.

    Nossa nota

    4,5 / 5,0

    Confira o trailer de Nobody Saves The World:

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