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A narrativa histórica e social por trás de Godzilla e Kong

A narrativa histórica e social por trás de Godzilla e Kong

Foi preciso quase 60 anos para que o público pudesse ver mais uma vez Godzilla e Kong juntos no cinema. O primeiro filme da dupla é de 1962 e traz uma parceria inédita entre Japão e Estados Unidos. É claro que naquela época os dois monstros mal tinham um universo compartilhado, mas bastou trocarem socos para o encontro ficar marcado para sempre na memória dos fãs de cinema.

Agora em 2021, o embate da década acontecerá mais uma vez e promete ser épico. Logo, desde 2014, esse universo chamado de Monsterverse está sendo criado em uma parceria entre a Warner Bros., a Legendary Entertainment e Toho (que detém os direitos de Godzilla).

Godzilla (2014) foi o primeiro filme lançado no Monsterverse como um reinício da franquia do lagarto radioativo. Seguido por Kong: Ilha da Caveira (2017), um reinício da franquia de King Kong. Por último, foi lançado Godzilla II: Rei dos Monstros (2019) que culminou em Godzilla vs Kong (2021).

Porém, muito além do confronto de titãs é necessário entender os fatos sociais e históricos nos quais Godzilla e Kong estão inseridos. Para mais, essa nova franquia também lança um olhar para as questões sociais contemporâneas.

King Kong (1933) e o imperialismo 

O primeiro filme de King Kong estreou nos cinemas em 1933. Nessa época, buscava-se fugir do impacto da Grande Depressão, e também ocorriam as discussões científicas sobre a teoria das espécies de Darwin. Contudo, outras vertentes sobre a origem das espécies defendiam a existência de uma raça superior. Mais tarde, essas suposições acabaram eclodindo no trágico Nazismo da Alemanha, e em outras ações genocidas feitas por países europeus.

É nessa perspectiva que a história de King Kong se inicia. Na trama, um famoso diretor de cinema não consegue uma atriz para sua próxima produção. Porém, ao vagar pelas ruas ele encontra a jovem, pobre e bonita, Ann (Fay Wray), a quem imediatamente dá emprego.

Logo, a equipe viaja para o Oceano Índico e acaba parando em uma ilha desconhecida. Lá, eles encontram nativos que cultuam o gigante macaco, King Kong, oferecendo “noivas” para a fera. Após Kong se apaixonar por Ann, a equipe de filmagem consegue capturá-lo e levá-lo para ser exibido em Nova Iorque.

O resto é história e todos devem conhecer muito bem a famosa cena no Empire State. Mas, a verdade é que as representações racistas e imperialistas no longa acontecem desde o primeiro momento que a ilha de Kong aparece. Logo, o filme passa a refletir uma visão branca permeada pelo imperialismo.

Desse modo, King Kong de 1933 torna-se uma metáfora para falar do domínio do homem branco em relação aos territórios de outros povos e culturas. Consequentemente, o filme que é considerado imperialista também consegue ser neocolonialista. Já que, há a invasão de homens brancos em territórios nativos sem nenhuma consequência.

Nesse sentido, o filme traz o discurso do homem branco que faz de tudo para conhecer o mundo lá fora. Sempre com o objetivo de intervir e aculturar povos, não importando por qual meio irá fazer isso. Com o próprio personagem do filme diz: “descobrir coisas que ‘nenhum homem branco jamais viu“, colocando o mundo apenas na perspectiva da ambição do homem branco.

Além disso, o próprio Kong é uma personificação do estereótipo do homem negro selvagem que está sempre em busca da mulher branca, com um instinto muito mais sexual. Na relação de Kong e Ann é visível que existe uma dicotomia entre o mundo a ser dominado e o mundo civilizado.

Dessa forma, a concepção eurocêntrica, racista e genocida que se desenvolveu no final do século XIX e início do século XX possibilitou a subjugação dos povos africanos, ainda mais com a ideia da superioridade do homem branco. Por isso, analisar o filme de King Kong (1933) torna-se extremamente importante para elucidar a questão social e histórica do imperialismo.

Godzilla (1954) e o trauma coletivo  

A história de Godzilla chegou aos cinemas em 1954. Porém, os acontecimentos que levaram ao filme do lagarto radioativo ocorreram alguns anos antes e ficaram para sempre marcados no imaginário japonês.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos declararam guerra contra os japoneses. Logo, o Japão passou a acumular derrotas chegando ao status de país falido, já demonstrando que a derrota era iminente. Contudo, por negar a se render, os EUA decidem atacar cruelmente o país japonês no final da guerra, utilizando bombas atômicas que foram lançadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki em 1945.

Dessa forma, o filme Godzilla acaba sendo uma das primeiras obras japonesas a trazer o gênero Kaiju (que significa besta incomum). Ao mesmo tempo que traz esse gênero, também trabalha a ficção científica em cima dos temores tanto da bomba atômica quanto de uma possível nova guerra.

Na história, Godzilla surge com 50 metros de altura em virtude de testes nucleares. A monstruosa criatura cria um rastro de destruição no seu caminho até Tóquio, que corre o risco de ser totalmente destruída se o monstro não for detido. Cabe às autoridades conter o pânico da população e tentar deter ou, em última instância, matar o que ameaça a cidade.

Sendo assim, a franquia de filmes desenvolvida em torno do Godzilla, mostra que o Japão não esqueceu tão rápido as consequências causadas pela arma nuclear depois de nove anos. Esse trauma coletivo acabou por roubar a inocência de uma sociedade, e o medo só concretizou a aflição de sentir que a qualquer momento todo aquele terror das bombas poderia voltar novamente. Por isso, os primeiros filmes do Godzilla traziam o discurso anti nuclear, já que é assim que o próprio Godzilla surge, por meio de uma explosão atômica.

Godzilla e sua jornada histórica, acaba sendo um grande meio de autoconhecimento para a cultura japonesa e um modo de entender um pouco do passado complexo do país. Ao longo das épocas, a construção e a representação de Godzilla foram mudando, assim como o Japão que também mudou. A parte não fictícia do lagarto gigante nos mostra o peso de sua narrativa, de sua história, e principalmente, de sua luta.

Kong vs Godzilla (2021) e as narrativas contemporâneas 

O próximo filme do universo compartilhado será Godzilla vs Kong. Após três filmes mostrando a coexistência entre humanos e monstros chega o momento de entender o passado de Godzilla e Kong.  Dessa forma, as narrativas dos filmes se adaptam as pautas contemporâneas que cercam o mundo.

Por isso, em Godzilla de 54 o discurso anti nuclear apresentando em maior escala foi deixado de lado. Visto que, o Japão se tornou um dos países que mais utiliza energia nuclear atualmente, não cabia mais falar de Godzilla como uma consequência dos conflitos nucleares no Japão.

Portanto, a representação de Godzilla no mundo foi se adaptando às novas questões mundiais e assim, chegou ao discurso ambientalista. Os novos filmes de 2014 e 2019 tratam Godzilla como um ser pré-histórico que tem como objetivo a proteção do mundo, não a destruição.

Essa visão, está muito atrelada aos recentes conflitos ambientais que o planeta vem travando e retrata a realidade de um planeta que aos poucos está morrendo. Por isso, dos dois longas de Godzilla, os titãs fazem a fauna e a flora renascerem por onde passam.

Já no atual Kong, vemos os nativos vivendo em paz com os animais e com a natureza. Os invasores em Kong: Ilha da Caveira percebem que o lugar do animal é na ilha e que há um limite para a guerra. Por isso, ao contrário do filme de 33, eles deixam Kong em seu domínio, criando uma versão do filme mais consciente em relação aos atos de “colonizador” do homem branco.

Em suma, o Monsterverse traz o discurso de homem versus natureza. Os filmes abordam uma questão que permeia a humanidade por eras. A arrogância humana faz com que acreditemos que somos os seres superiores desse planeta.

Contudo, estamos aqui a pouquíssimo tempo e isso nos mostra que somos apenas os visitantes em um lugar que existiu antes da humanidade e vai continuar existindo depois.

*Esse texto é uma adaptação do podcast Histórie-se #03 – King Kong e Godzilla: a ressignificação de dois ícones.

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Jornalista em formação e apaixonada pela sétima arte. Representatividade e movimentos sociais através do cinema é fundamental. Apreciadora de livros, animes e joguinhos de ps4 nas horas vagas. The final girl.