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CRÍTICA – Dead Pigs (2018, Cathy Yan)

dead pigs

Inédito no circuito comercial, Dead Pigs é o primeiro longa-metragem da diretora Cathy Yan (Aves de Rapina). Premiado no Festival de Sundance em 2018, o filme rendeu elogios à cineasta antes dela assumir a direção do blockbuster da DC protagonizado por Margot Robbie em 2020.

Com uma visão ousada e bastante singular, o longa fala da luta universal por identidade na era da globalização, com diversas vozes refletindo o futuro do cinema americano – já que lida com conversas prudentes e oportunas sobre igualdade, capitalismo e conexão humana básica em um mundo cada vez mais dividido.

O trabalho de Cathy também conquistou prêmios em outros festivais americanos, como Palm Springs International Film Festival, Philadelphia Film Festival e Seattle International Film Festival

SINOPSE

Baseado em eventos reais extraordinários, Dead Pigs acompanha as histórias de cinco pessoas diferentes, enquanto lidam com uma modernização crescente de Shangai, ao mesmo tempo em que a cidade é assolada por um evento bizarro: milhares de cadáveres de porcos aparecem no rio.

ANÁLISE

Os enredos conectados do filme remetem a uma série de oposições familiares: rural e urbano, pobres e ricos. O criador de porcos Old Wang (Haoyu Yang) é perseguido por agiotas depois que seu estoque morre misteriosamente e ele perde suas economias em uma fraude de investimento. A esteticista apaixonada por pássaros Candy (Vivian Wu) trava uma batalha solitária contra empreendedores ansiosos para demolir sua casa e construir um novo complexo de apartamentos. Há também um jovem garçom (Mason Lee) que inicia um relacionamento improvável com uma herdeira rica (Meng Li) e um expatriado americano (David Rysdahl) que se envolve em fraudes que ordenham suas ações.

A diretora Cathy Yan traz um olhar satírico interessante para a colonização cultural e suas refrações mais absurdas dentro da China contemporânea como ponto de partida. A encenação é coordenada com forte toque “pop” nas luzes dos planos noturnos e constantes movimentos de câmera compostos (em geral em elipses e semicírculos) ou trackings acelerados.

Somado a isso, Yan opta por um ritmo acelerado de picotes situacionais, as vezes interligados por músicas que mantém o humor fluindo em abordagem mais comumente vista no cinema ocidental estadunidense do que no cinema chinês. Algo que torna fácil compreender o porquê de ter sido uma diretora tão rapidamente procurada para trabalhar em filme norte-americanos.

O filme tem ainda um toque de crítica a esse influxo ocidental, aqui tratado de forma cômica, que resvala no mesmo que o cineasta Jia Zhangke faz com suas obras, mas com tratamento trágico. Todavia, Yan parece mais próxima do gosto do cinema oficial chinês no modo como conduz esse olhar, mais superficial, rápido e, às vezes, próximo à melancolia.

A cumplicidade implica um acordo ao espectador utilizando códigos e elementos para que a obra se estabeleça de forma mais densa. E o que acontece quando esses códigos geram expectativas? Se resulta em um final cínico, sem surpresas, mas que de certa forma compreendemos o porquê. Afinal, todos estamos inseridos no mesmo sistema.

VEREDITO

Dead Pigs é uma  estreia para Cathy Yan. É um longa ácido, dramático e cômico na medida certa, além de trazer paisagens ordinárias e extraordinárias de Xangai, a história vai se costurando onde tudo vai sendo posto em seus devidos lugares e ao mesmo tempo expõe as marcas da desigualdade social na China. No entanto, o sentimentalismo aplicado no final engole tudo e acaba dando um olhar mais positivo do que crítico ao material, sobrepondo qualquer possibilidade de crítica mais coerente e interessante.

Nossa nota

4,0 / 5,0

Confira o trailer de Dead Pigs:

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Amante da sétima arte. Fascinada na relação entre cinema, história e filosofia. Devoradora de quadrinhos, aprecia um bom clássico e combate o crime em Gotham City nas horas vagas.