Início FILMES Crítica TBT #28 | O Sétimo Selo (1957, Ingmar Bergman)

TBT #28 | O Sétimo Selo (1957, Ingmar Bergman)

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A década de 1950 testemunhou o renascimento do cinema nórdico, que esteve na vanguarda das realizações cinematográficas durante a era dos filmes mudos. No início dos anos 20, os melhores diretores alcançaram uma delicadeza e um naturalismo quase sem igual, mas com a chegada do som e com a predominância de Hollywood, os poucos povoados países nórdicos ficaram linguisticamente e culturalmente isolados.

No final dos 40, a Suécia estava novamente produzindo filmes criativos. O historiador do cinema Peter Cowie afirmou:

“Provavelmente nenhum outro país com uma população semelhante alcançou o sucesso artístico da Suécia no cinema.”

Uma característica fundamental para esse sucesso foi a beleza fotogênica das paisagens rurais e urbanas acompanhadas do contraste entre os costumes luteranos austeros e a evolução da sociedade, no século XX, para uma democracia social secular.

Esses temas foram expressos, na década de 1950, nas obras de Ingmar Bergman. O diretor passou por fases românticas e melancólicas, até chegar as suas outras características mostrando um lado mais alegórico e existencial em O Sétimo Selo.

A obra inovadora de Bergman toma forma de uma peça com moralidade medieval. A trama retrata sobre um cavaleiro Antonius Block (Max Von Sydow) que retorna das Cruzadas e encontra sua terra natal devastada pela peste negra. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, quando a Morte (Bengt Ekerot) surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Mas o cavaleiro propõe à Morte um jogo de xadrez que vale a própria vida. A Morte concorda, e o jogo se desenvolve em várias fases durante o longa.

JOGANDO PELA EXISTÊNCIA

TBT #28 | O Sétimo Selo (1957, Ingmar Bergman)

A imagem do cavaleiro jogando xadrez com a Morte na praia se tornou uma das mais icônicas e parodiadas na história do cinema. É uma vinheta rigidamente monocromática, a ausência de cor simboliza a ausência de Deus. O mundo no filme de Ingmar Bergman perdeu a vida e a vitalidade: a água que lambe a areia é cinzenta e o céu está coberto de nuvens escuras; a face da Criação abandonada por Deus é pedregosa. Para muitos artistas e cineastas seguidores do diretor, O Sétimo Selo é um dos primeiros pontos de referência quando se trata de discutir e explorar o tema morte.

O roteiro de Bergman comunica suas amplas ideias na mais simples e certeira das imagens com leves toques de humor mórbido, refletindo através de sua temática apocalíptica e referências bíblicas toda a angústia de uma geração horrorizada com o holocausto, apavorada com a existência da bomba atômica, e praticamente certa da eminência de uma guerra nuclear.

CENA MEMORÁVEL

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A Morte de rosto branco e manto preto de Bengt Ekerot (que se tornou um símbolo do cinema) ouvindo as confissões do cavaleiro que está desesperado para expressar sua angústia:

“Como iremos acreditar nos que acreditam quando não acreditamos em nós mesmos?.”

Ao abordar a perda de fé e o questionamento existencial do cavaleiro medieval, ele não está fazendo uma crítica à Idade Média, mas sim à sociedade contemporânea, que nos apresenta diálogos inspiradores e atuações igualmente surpreendentes.

O cartaz sueco original mostra a Morte esperando, impassível, com os personagens da trama representando um tabuleiro de jogo xadrez, peça essencial do longa.

As questões técnicas como edição e fotografia são notáveis e aplicados de acordo com o contexto histórico medieval da trama, o cenário é construído de tal modo que você consegue sentir o clima de puro pessimismo e caos da época. O simbolismo é algo presente até nos mínimos detalhes do filme.

O Sétimo Selo demonstra domínio total da arte cinematográfica unindo um estilo de autoria que lhe é próprio: locações externas, fotografia controlada com camadas de profundidade, temas de grande escalada psicológica e montagem inquietante.

O filme é a parábola da prática humana em se relacionar com a morte na tentativa de abrandar sua inquietude. O cenário é a Europa da Idade Média, contudo a problemática envolve uma filosofia atemporal: o temor e a forma pela qual lidamos com o desconhecido. Sendo a morte a face mais evidente nesta relação é através dela, em diálogos diretos, que o protagonista vai em busca por respostas a respeito da existência e, naturalmente, de Deus.

Para Ingmar Bergman, delinear o destino de todos de forma poética é propor a subjetividade como a melhor estratégia, deixando para a dúvida a melhor resposta do significado do Ser. Um película que ecoa com perfeição o preocupante silêncio sobre a sua criação, e certamente por isso é uma das obras sensoriais mais relevantes do Século XX.

Nossa nota

Assista ao trailer legendado de O Sétimo Selo:

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