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CRÍTICA – Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime (1ª temporada, 2021, Netflix)

Série documental da Netflix aborda o assassinato do executivo da Yoki Marcos Matsunaga cometido pela esposa, Elize Matsunaga, em 2012

Um dos assassinatos mais chocantes na história do Brasil e com grande cobertura midiática acaba de ser pauta de um seriado documental original da Netflix. Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime traz diversas visões e nuances a respeito do assassinato de Marcos Matsunaga, milionário executivo da Yoki.

Elize Matsunaga assassinou o marido e confessou o crime em 2012. Ela está presa desde então. Em 2016, Elize foi condenada a 19 anos, 11 meses e um dia de prisão, após ir a júri popular.

As circunstâncias do assassinato – um tiro na cabeça e esquartejamento para ocultar o cadáver – e a proeminência da vítima na sociedade brasileira fazem do Caso Matsunaga um dos mais marcantes no país. Tudo isso o mantém alvo de comentários, repercussões e reviravoltas jurídicas até hoje, mesmo quase cinco anos após a sentença.

SINOPSE

Em um crime que chocou o Brasil, Elize Matsunaga mata e esquarteja o marido. Agora, ela dá sua primeira entrevista nesta série documental que explora o caso.

ANÁLISE DE ELIZE MATSUNAGA: ERA UMA VEZ UM CRIME

Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime é uma série documental que causa incômodo.

A produção, dirigida pela premiada Eliza Capai, constrói a narrativa com fontes relevantes em todas as etapas do crime, do processo judicial e da cobertura da imprensa. Também dá espaço para amigos e familiares de Elize e Marcos comentarem situações que, em geral, não fizeram parte dos autos do processo.

Dividido em quatro episódios com média de 50 minutos cada, o documentário é montado utilizando também recursos audiovisuais variados para complementar a história. Há diversas imagens da cobertura midiática ao longo dos anos, bem como registros de acervo do casal Matsunaga e da vida pessoal de Elize.

A produção da Boutique Filmes distribuída globalmente pela Netflix realiza bem o difícil trabalho de montar uma narrativa que constantemente vai e volta na linha do tempo. A tarefa tinha tudo para confundir o espectador, mas em Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime é executada sem prejudicar o entendimento da cronologia dos fatos.

Isso é possível graças às perguntas certeiras feitas para a maioria dos entrevistados. A divisão em quatro episódios também é responsável pelo êxito da montagem, pois cada capítulo traz um fato marcante que se encerra em si mesmo, pavimentando outra ocorrência importante que é detalhada ao longo do episódio seguinte.

Série documental da Netflix aborda o assassinato do executivo da Yoki Marcos Matsunaga cometido pela esposa, Elize Matsunaga, em 2012
Imagem do arquivo pessoal de Elize e Marcos Matsunaga

Se fosse um documentário corrido, possivelmente perderia informações importantes, como uma forma de fazer com que a produção durasse no máximo três horas. Esse é outro mérito do formato de distribuição da Netflix, que recentemente realizou um bom trabalho com a minissérie documental de true crime Os Filhos de Sam.

Outro aspecto positivo são as imagens produzidas para ilustrar situações. Há espaço para filmagens com um olhar artístico para abordar alguns tópicos.

Destaco o uso de vídeos de arquivo mesclados a cenas de uma roda gigante com luzes vermelhas, cujo movimento remete ao fluxo sanguíneo, para complementar o relato de Elize a respeito das dificuldades de gravidez enfrentadas por ela e Marcos.

Por que “era uma vez um crime”?

Minha impressão inicial é de que o título do documentário era algo clichê e sem um esforço criativo. No entanto, a narrativa funciona e justifica a escolha do nome.

Sem dar spoilers, a verdade é que Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime é uma produção que usa o Caso Matsunaga como ponto de partida para abordar diversos tópicos que causam incômodo.

A série documental retrata temas como:

  • Abusos psicológico e sexual
  • Responsabilidade da imprensa em coberturas policiais
  • Interesses das forças policiais e do Poder Judiciário muitas vezes não relacionados à resolução dos casos
  • O uso de fatos não relacionados ao caso para contar “a melhor história” para que o júri popular decida baseado em emoções, e não em provas
  • A realidade do sistema carcerário no Brasil

Não há uso de locução por parte da equipe do documentário. Toda a narrativa acontece a partir de um ping pong entre pessoas dos dois lados da história e adjacências – caso de jornalistas que participaram ativamente da cobertura ao longo dos anos.

Essa construção ancorada praticamente a partir de entrevistas e imagens de acervo é importante, pois a diretora conseguiu captar relatos e opiniões de um lado da história que contrastam entre si. Um exemplo disso é a análise feita pela família de Marcos e seu advogado em contraste com o sentimento nutrido pelo promotor e pelo delegado a respeito da sentença.

Dessa forma, o que está em tela é responsabilidade de quem está falando, e não da produção do documentário.

Série documental da Netflix aborda o assassinato do executivo da Yoki Marcos Matsunaga cometido pela esposa, Elize Matsunaga, em 2012

E por que, então, era uma vez um crime?

Porque esse bate-cabeça do sistema brasileiro, e o relato de Elize Matsunaga sobre outras presidiárias com quem conviveu, deixam claro que essa é só mais uma barbárie no Brasil. Há outros tantos crimes, até mais cruéis que o Caso Matsunaga, que não ganham notoriedade. E o motivo, cíclico, está em tela.

VEREDITO

Não há como ser indiferente ao que Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime exibe em seus quatro episódios. A série documental da Netflix coloca a audiência em situação similar à vivida pelo júri popular que sentenciou Elize como culpada.

O incômodo causado pelo documentário é positivo, pois é um convite à reflexão, mas certamente os motivos que o causarão não serão os mesmos para cada pessoa que assistir à produção.

Afinal, mesmo com o Caso Matsunaga concluído, há situações que deixam dúvidas até hoje, além da vida de Elize e Marcos ser recheada de excentricidades que tornam o crime ainda mais marcante.

Cabe destacar que a série documental não é irresponsável, pois exibe relatos de várias pessoas que continuamente reforçam que nada justifica o crime bárbaro cometido por Elize.

Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime é, portanto, uma série documental que merece ser assistida, especialmente se você gosta de consumir conteúdos relacionados a crimes reais, ou se tem interesse em assuntos relacionados a Direito, Jornalismo e investigações policiais.

Assista ao trailer de Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime:

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Jornalista pós-graduado em Jornalismo Digital, fã de Mr. Robot, Pokémon e com uma menção honrosa a 24 Horas, o seriado que me fez entrar no mundo de séries e filmes.