Mergulhei tardiamente na franquia Silent Hill, talvez por não entender as dinâmicas do game quando ele foi lançado lá em 1999, época em que eu tinha apenas 6 anos. O lançamento do remake de Silent Hill 1 foi anunciado em junho de 2025, logo após a excelente recepção que o remake do segundo game da franquia teve em 2024.
No Silent Hill 2 original e no remake, James Sunderland navega pela misteriosa e enevoada cidade de Silent Hill após receber uma carta de sua esposa, Mary. James chega à cidade acreditando que sua esposa morreu há 3 anos. Desde os primeiros momentos, fica claro que existe algo de muito errado ali. Enquanto ele caminha pelas ruas da cidade que parece vazia, estranhas criaturas começam a aparecer.
Diferente do que foi feito em Yakuza Kiwami, um remake direto do game de PlayStation 2 que adicionou quase meia hora de cutscenes cinemáticas inéditas. Mas aqui, a Bloober Team optou por manter a dinâmica de Silent Hill 2 Remake quase intacta, revitalizando apenas os gráficos para as novas gerações e inserindo dois novos finais.
Feminicídio e a mente quebrada de James

Em dados consolidados pela ONU em 2024, 50 mil mulheres foram mortas em casos de feminicídio. De acordo com a organização, isso representa 60% de todos os homicídios intencionais de mulheres e meninas, o que equivale a cerca de 137 mortes por dia ao longo do ano de lançamento do game. Ao mesmo tempo em que relativiza os atos de James, a Bloober Team opta por colocá-lo no papel de vítima em um primeiro momento, para só depois revelar o que ele realmente é: o indivíduo que colhe o que plantou.
Como Silent Hill reflete o subconsciente de James, o game tenta eximir a culpa do personagem durante toda a jornada, apenas para explicar o seu destino através da lore daquele universo. Após os acontecimentos de Silent Hill 1, em que um deus demoníaco é invocado às custas de algumas vidas, a cidade, que já possuía um véu fino entre os mundos, é corrompida completamente.
Passando a refletir quase que inteiramente a mente dos indivíduos que habitam ou simplesmente passeiam pelo local, James começa a ver nas criaturas um reflexo do que ele viu e sentiu no mundo real, fora de Silent Hill. Como esse aspecto nasceu do trauma de James ao ver a saúde de sua esposa definhar aos poucos em uma cama de hospital, os monstros representam não apenas a forma como ele via Mary, mas como ele desumanizava toda aquela vivência.

Isso partia da tendência do próprio personagem de invisibilizar quase completamente a humanidade das pessoas de seu convívio, importando-se apenas consigo mesmo. As lying figures (criaturas rastejantes) representam Mary; já as enfermeiras são a objetificação das profissionais do hospital, bem como a repressão de sua própria sexualidade na época em que a esposa estava doente.
Outro ponto curioso e bem doentio são os manequins, que representam a objetificação feminina no mais alto grau, mas não param por aí: eles são os instintos carnais em seu estado mais cru possível. Como são compostos apenas por pernas e genitálias, eles parecem refletir puramente o desejo egoísta, algo reprimido em James que não requer um rosto ou uma identidade para ser validado. Isso sem falar nas outras muitas criaturas que acompanhamos ao longo da história.
Outras presenças em Silent Hill, reflexo de James

Assim que chega na cidade, James conhece Laura, uma jovem órfã que também está procurando por Mary. Porém, do ponto de vista da garota, Silent Hill é apenas uma cidade deserta, sem qualquer tipo de neblina ou sangue nas paredes. Como se trata de uma criança inocente e sem traumas mal resolvidos, a cidade não consegue extrair nada de negativo dela.
A situação é bem diferente com os outros personagens (reais ou não), como Eddie, Angela e Maria. Como são adultos que sofreram no mundo real e também foram atraídos para a cidade, a história de fundo de cada um aprofunda a relação de James com a cidade, mas também a dinâmica desses personagens com o próprio protagonista.
Maria é a torturadora e a personificação dos desejos carnais que James precisou reprimir ao longo dos anos em que Mary esteve doente. Ela é fisicamente idêntica à esposa, porém mais sedutora, provocante e totalmente dependente da proteção dele. No fim, ela se prova como o Id de James: seus desejos reprimidos, sua carência e a necessidade egoísta de ter uma versão de Mary que não estivesse doente.
A versão “distorcida” de Mary também tem papéis importantes na progressão da história. Ao mesmo tempo em que funciona como um instrumento de tortura e uma armadilha emocional, Silent Hill a usa para punir James frequentemente. Assim como no mito de Sísifo, que é condenado a empurrar uma pedra montanha acima eternamente só para vê-la rolar de volta, a cidade entrega Maria a James apenas para continuar tirando-a dele de forma violenta e repetida, forçando o personagem a reviver a perda.
Deixando de ser apenas um pano de fundo, a cidade ganha forma verdadeiramente a partir de seus NPCs. Silent Hill 2 Remake poderia muito bem nos apresentar um cenário de horror genérico, mas, graças à presença deles, o local deixa de ser apenas um ambiente perigoso para se tornar o juiz, o espelho e até mesmo o carrasco de cada um.
Diferentes finais

Por meio dos 8 finais diferentes, Silent Hill 2 Remake tenta explicitar que suas escolhas têm consequências. Mas isso não se limita às ações in-game: o que aconteceu antes de começarmos a controlar James pode mudar, consciente ou inconscientemente, qual desfecho teremos.
Seja com o final bom ou ruim, algo aqui fica claro: pode ser necessário escolher entre abraçar uma ilusão, sucumbir à culpa do crime que cometeu ou simplesmente aceitar a consequência de seus atos e realizar o último pedido de Mary, que é que James viva sua própria vida. O “final feliz” do protagonista é este último.
A verdade é que James não merecia ter um “final feliz”. Depois de tudo o que passou e viveu, ainda que possua sentimentos completamente humanos, suas atitudes ao longo de toda a história abrem brecha para que passemos a relativizar elementos como o feminicídio, a objetificação do corpo feminino e muito mais. O final Leave apresenta uma paz de espírito que o personagem não merecia. Até mesmo em finais “ruins” como Stillness, Bliss, Maria e In Water, o problema de James não é resolvido, pois ele continua tendo matado sua esposa quando ela mais precisava dele.
Gameplay e ambientação

A gameplay de Silent Hill 2 se assemelha ao original, com gráficos revitalizados. Sendo dinâmica, nosso progresso se baseia em obter itens a fim de sobreviver, derrotar inimigos e fazer muito backtracking antes de avançar. Ao passo em que a jornada de James vai se aprofundando, puzzles surgem e vão ficando cada vez mais difíceis de solucionar.
A ambientação de Silent Hill 2 Remake é o que se espera da franquia. Opressor, agoniante e imersivo, jogar no Playstation 5 oferece uma imersão singular, graças ao que o DualSense propõe. Seja pelo feedback háptico ou pelo microfone do controle, o game aqui ganha uma nova profundidade, algo mais pessoal e até invasivo. Como se a realidade da tela fugisse para a nossa.
Abandono e unilateralidade

O que se acredita ter acontecido com Mary pode ocorrer com qualquer um: ser acometido por uma doença séria e terminal. A presença de quem está na sua vida pode ser o fator determinante para uma possível cura ou não. Deixando de lado qualquer eufemismo, doenças terminais podem não ter cura, mas estar ao lado da pessoa que você ama em todos os passos daquela jornada mostra quem você realmente é.
Em relações heteroafetivas, é comum que, quando doentes, os homens sejam cuidados por suas respectivas esposas e companheiras; já quando o inverso acontece, em sua grande maioria, estas são abandonadas.
Silent Hill 2 Remake mostra que essa última opção pode ser ainda pior. E, no caso de James, de fato foi: ele assassinou quem mais precisava dele. Tendo sido omissa em tentar atualizar a história para os dias atuais, a Bloober Team falhou em montar uma narrativa que se destacasse e diferisse da versão original do game, optando apenas por se “manter fiel” à obra.
Conclusão

Sendo infeliz ao manter escolhas narrativas já obsoletas (ainda que tematicamente atuais), o game opta por oferecer a um homem que mata sua própria esposa uma possível redenção. Talvez esse hot take seja menos humanista do que o desejado ou do que fosse ideal, mas relativizar a morte de uma mulher em sofrimento em virtude do bem-estar de um homem não deveria ser minimamente tolerável.
Apesar de a história me causar asco do início ao fim, mergulhei em Silent Hill 2 Remake com um estranhamento peculiar. E, enquanto o novelo narrativo se desenrolava, eu conseguia entender mais claramente o que me causava esse distanciamento: atacar e agredir em grande parte corpos femininos indiscriminadamente.
Isso me fez entender mais da história antes mesmo da grande revelação chegar.
Com o brilhante Silent Hill f, a Konami acertou em cheio. Apresentando uma história tradicionalmente japonesa e traduzindo-a para a realidade do jogo, o título trouxe ligeiras mudanças na lore que são extremamente positivas, mas que foram deixadas de lado quase que inteiramente pela Konami no remake lançado apenas um ano antes.
Seja por relativizar o que foi construído até aqui ou por considerar o game original um marco para a indústria, a verdade é que Silent Hill deveria e merecia ser muito mais do que nos foi entregue no remake do segundo jogo da franquia.
Confira o trailer do game:

Acompanhe as lives do Feededigno no Youtube.
Estamos na Youtube transmitindo gameplays semanais de jogos para os principais consoles e PC. Por lá, você confere conteúdos sobre lançamentos, jogos populares e games clássicos todas as semanas.

