Akira Kurosawa: O impacto de Os Sete Samurais no cinema

    O cinema oriental é uma referência rica para diversos gêneros e dentre tantos cineastas da terra do sol nascente, Akira Kurosawa (março de 1910 – setembro de 1998) se destaca por ser uma influência para as gerações posteriores da sua cultura assim como influenciou todo um gênero que marcou época no cinema ocidental. O diretor que possui muitas características marcantes como o estilo em preto e branco – que posteriormente passou as cores -, tinha predileção por adaptar contos ocidentais como os do autor Fyodor Dostoevsky que inspirou o filme Hakuchi (1951) ou Shakespeare para o filme Ran (1985).

    Dentre as 35 obras do genial cineasta como Stray Dog (1949), Rashomon (1950), Ikiru (1952), Red Beard (1965), Dersu Uzala (1975), Dreams (1990) e tantos outros trabalhos, gostaria de destacar o primeiro filme sobre samurais desenvolvido no período pós guerra: Os Sete Samurais (1954) que renovou o gênero e estabeleceu uma nova forma de trabalhar a figura heroica do samurai.

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    O longa metragem tem uma grande importância pela retomada do gênero chanbara que teve a sua origem em outro gênero chamado jidaigeki, filme de época caracterizado por qualquer período do início da história até o século XIX. As produções chanbara haviam sido censuradas durante a Segunda Guerra Mundial por ser consideradas um conteúdo mais depressivo, porém retorna na década de 50 com a produção de Akira Kurosawa que marcou uma nova era do gênero com a mistura da linguagem que combina um filme de época adaptado no século XVI com um conto envolvendo um sabre.

    SINOPSE DE OS SETE SAMURAIS

    Kambei Shimada (Takashi Shimura) é um velho samurai contratado para defender uma vila dos constantes ataques realizados por bandidos e reunindo outros seis guerreiros, os treina para se tornarem uma força a resistir a um próximo ataque eminente. O grupo de Kambei é formado por Katayama Gorobei (Yoshio Inaba), Shichiroji (Daisuke Kato), Heihachi Hayashida (Minoru Chaki,) Kyūzō (Seiji Miyaguchi) e Kikuchiyo (Toshiro Mifune) cujo ator ainda participou de diversas produções do cineasta ao longo de sua carreira.

    MUITO MAIS QUE SAMURAIS

    Apesar de ser uma sinopse aparentemente descompromissada com a profundidade, o filme possui camadas a respeito de contextos sociais, valores característicos da cultura japonesa neste período e se torna uma jornada de aprendizado tanto para os habitantes do vilarejo como para o grupo de samurais, que possuem suas próprias jornadas, anseios e expectativas individuais; como Kikuchiyo, o mais jovem do grupo, que tinha origens em comum com os habitantes do vilarejo.

    Estes subtextos tornam a narrativa de Os Sete Samurais muito mais rica no aspecto cinematográfico por ter a sua construção como um filme de época, mas ainda ter a intensidade de uma jornada heroica da figura histórica do samurai que possui um código de conduta característico e marcante.

    Com 3h27min, é interessante como Akira Kurosawa aproveita o contexto de época para explorar de forma ampla as artes marciais, como as cenas dos samurais ensinando os habitantes da aldeia a utilizarem armas como o arco e flecha; e utilizar a linguagem cinematográfica para que possamos ter a experiência da forma como se praticava tais artes neste recorte histórico, além do estilo em preto e branco que tornam as cenas mais glamorosas.

    Impossível não elogiar a genialidade do diretor como cineasta ao recriar momentos incríveis para o cinema como podem ser vistos em Os Sete Samurais.

    RECONHECIMENTO

    George Lucas (esquerda), Akira Kurosawa e Steven Spielberg (direita) na entrega do prêmio honorário da Academia.

    O sucesso do longa cruzou o oceano, rendendo em indicações ao Oscar nas categorias de Melhor Direção de Arte em Preto e Branco e também Melhor Figurino; no BAFTA indicações para Melhor Filme Internacional e Melhor Ator Estrangeiro para Takashi Shimura e Toshiro Mifune que trabalhou com o diretor em diversas outras produções posteriormente e premiado merecidamente com o Leão de Prata no Festival de Veneza na categoria de Melhor Direção.

    O legado de Os Sete Samurais segue o fluxo oposto do trabalho de seu diretor, que gostava de adaptar obras ocidentais para a sua cultura, recebendo a sua própria versão hollywoodiana intitulada de Sete Homens e um Destino (1960) para o gênero western, que também marcou época, contou com nomes como Charles Bronson, Steve McQueen, James Coburn e foi dirigido por John Sturges e décadas mais tarde, em 2016, recebe uma nova adaptação agora pelas mãos de Antoine Fuqua com um elenco de nomes tão famosos quanto os interpretes da versão anterior: Denzel Washington, Chris Pratt, Vincent D’OnofrioPeter Sarsgaard, Lee Byung Hun, Ethan Hawke e Matt Boomer.

    Em 1990, Akira Kurosawa recebeu o prêmio honorário da Academia por realizações cinematográficas que inspiraram, encantaram, enriqueceram e divertiram o público mundial e influenciaram cineastas em todo o mundo.

    O prêmio foi entregue a Kurosawa no 62º Oscar por George Lucas e Steven Spielberg, ambos trabalharam com Kurosawa na última década e que foram, sem dúvida, fundamentais para que a Academia homenageasse o diretor japonês com seu prêmio.

    Mas não foi apenas na tela grande que Akira Kurusawa foi homenageado com uma adaptação ou referência, mas também nos jogos como Ghost of Tsushima que permite ao jogador utilizar uma configuração gráfica denominada de “Modo Akira Kurosawa” utilizando a estética preto e branco marcante do diretor ao longo de suas cinco décadas de trabalhos que marcaram a história do cinema.

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