CRÍTICA: ‘À Beira da Loucura’ e a homenagem à John Carpenter

    O terror tem vários mestres e um de seus mais emblemáticos diretores é John Carpenter e no dia 16 de Janeiro comemorou 76 anos de idade. John Howard Carpenter nasceu em Carthage, Nova Iorque em 1948 e se formou na Escola de Artes Cinematográficas em 1971 na Universidade do Sul da Califórnia. Se consagrou pelas décadas, principalmente nos anos 70 e 80 ao dirigir clássicos como Halloween – A Noite do Terror (Halloween – 1978), Eles Vivem (They Live – 1988), Fuga de Nova Iorque (Escape from New York – 1981), e seus mais emblemático filme O Enigma de Outro Mundo (The Thing – 1988).

    Podemos entender o fazer cinematográfico de John Carpenter de uma forma singular, onde ele explora ao extremo as dificuldades do baixo orçamento e fazendo disso de uma forma não proposital de trunfo, criando contextos e obras com pouco.

    A dinâmica narrativa direta e a dissociação de perspectivas transpassam as suas tramas, histórias que
    falam sobre personagens excluídos e estranhos da sociedade, com inserção de traços de dor e violência apenas quando tal recurso se faz extremamente necessário.

    John conhecido por inquietar, mesmo em seus filmes estruturalmente mais irregulares, o diretor é reconhecido por resgatar e revitalizar elementos clássicos de suas bases. E para além das câmeras ele roteiriza e compôs várias trilhas sonoras de suas obras, colocando um tom de suspense e melancolia dançante, sendo hoje em dia inspirações para artistas do synthwave, sem falar das cores de seus filmes, indo de uma coloração comum para um tom neon berrante evidenciando o perigo próximo. E sem mais delongas, falarei hoje de um de meus filmes favoritos do diretor, falarei de À Beira da Loucura (In the Mouth of Madness – 1994).

    SINOPSE

    O investigador John Trent (Sam Neill) é contratado para achar Sutter Cane (Jürgen Prochnow), um escritor de histórias de terror que, após terminar seu último livro, misteriosamente desapareceu. Mesmo desconfiando que isso não passa de uma jogada publicitária, aceita o trabalho. Passa a ler seus livros, procurando pistas da cidade onde Cane possa estar escondido, mas estes livros são macabros e, após sua leitura, as pessoas agem de um modo bem estranho.

    ANÁLISE

    John Carpenter

    Na literatura, uma das mentes mais influentes (e problemáticas) quando se fala em terror e horror é H.P. Lovecraft. Seu trabalho explorando o medo diante desconhecido e das sutilezas do estranhamento humano sobre aquilo que lhe amedronta, misturando conceitos do ocultismo e ficção científica vem inspirado inúmeros artistas, trazendo novas abordagens para o gênero. Um dos subgêneros mais interessantes que surgiram é o terror cósmico, que vai além dos elementos comuns do terror para nos aterrorizar com o senso de desamparo e insignificância diante de eventos de escala grandiosa, maiores até mesmo que a matéria comum, onde o estranho e o além podem vir de outros mundos.

    Michael De Luca, o roteirista de “A Beira da Loucura”, foi inspirado pelo trabalho de Lovecraft ao compor esta obra. John Carpenter, conhecido por explorar o medo alienígena em filmes como “O Enigma de Outro Mundo”, traz agora um fenômeno cósmico que remete ao terror mais tradicional. O filme abraça o horror existencial para falar sobre a relação entre a crença e a concepção da realidade.

    O filme conta a história de um investigador contratado por uma editora para descobrir o paradeiro de um famoso escritor chamado Sutter. Às vésperas do lançamento de seu último livro, Sutter desapareceu, deixando a editora onde publicava em intenso frenesi, pois eles ainda não tinham o final da história. O investigador, chamado John Trent (Sam Neil), embarca em uma jornada que vai além de sua compreensão, transformando sua percepção sobre o mundo ao seu redor.

    John Carpenter

    John é inicialmente apresentado como um homem centrado e seguro de si, alguém tão bom em seu trabalho que tinha total liberdade sobre sua própria realidade. Entretanto, à medida que ele se envolve na investigação, ele vai se tornando cada vez mais imerso em sua própria loucura. Sutter Kane, o escritor desaparecido era um fenômeno literário, e talvez o roteiro quisesse colocar em Kane um ar de Stephen King, aliás os dois têm as iniciais com as mesmas letras.

    Ao decorrer da narrativa, pessoas que viviam fora da realidade, imersas em suas narrativas de fantasia, e apresentavam traços de paranoia e agressividade começaram a ser afetadas tanto pelo desaparecimento do escritor quanto por seus livros. O sumiço de Kane às vésperas do lançamento de seu novo livro era algo alarmante.

    John começa a analisar os livros anteriores de Kane em busca de pistas e logo percebe que as capas dos livros contêm linhas que, quando unidas, indicam uma localização desconhecida. Ele acredita que esta seja a pista para encontrar Kane e parte para esse lugar junto com a editora de Kane, Linda Styles.

    A viagem de John o leva a uma cidade fictícia onde aconteciam as histórias de Kane. A princípio, John acredita que tudo não passa de uma encenação, uma armação para promover o livro e levar os fãs a gastarem dinheiro naquela cidade habitada por atores vestidos como as criaturas de Kane. Porém, logo ele percebe que a realidade vai além da encenação.

    À medida que a trama se desenvolve, o protagonista percebe que a realidade está se desfazendo. Ele descobre que todos os grandes pesadelos descritos por Kane são reais e que ele está prestes a trazer ao mundo o final do seu novo livro, uma obra poderosa capaz de impactar a realidade.

    VEREDITO

    A forma de guiar a trama que Carpenter escolhe para narrar a película é perspicaz, se utilizando de uma confusão narrativa brusca, onde muitos espectadores podem achar um filme quebrado, na realidade nos demonstra um pouco da visão e insanidade do protagonista, tentando mostrar o quão louco ele está.

    Os efeitos visuais utilizando efeitos práticos são extremamente criativos, criando cenários e monstros que rompem a realidade, mas não é um dos melhores trabalhos da equipe da Industrial Light & magic, deixando as criaturas com uma estética muito elástica, só que direção é ágil em conseguir mascarar esses problemas, e sendo sincero, isso deixa o visual dos seres próximos do vale da estranheza.

    “A Beira da Loucura” é um filme atmosférico que utiliza elementos visuais para transmitir o terror cósmico. Desde a sinistra viagem pela estrada até as criaturas bizarras que aparecem ao longo do filme, nota-se a atenção aos detalhes e ao simbolismo. A trilha sonora, composta por John Carpenter, Jim Lang e David Davis da banda The Kings, complementa perfeitamente a atmosfera do filme.

    O filme é uma grande homenagem ao estilo de horror de Lovecraft, tanto que seu título original, “In the Mouth of Madness”, remete diretamente a uma das histórias mais populares do autor, “Nas Montanhas da Loucura”. A obra de Carpenter retrata o fim do mundo diante de forças que colocam a humanidade em uma posição de insignificância. É uma história que explora o terror, colocando seus personagens em situações de isolamento e desamparo.

    “A Beira da Loucura” é uma viagem alucinante para quem aprecia o bom e velho terror cósmico. O filme aborda a relação entre a crença e a concepção da realidade, levando o espectador a questionar sua própria percepção do mundo. No final, somos confrontados com a ideia de que talvez não estejamos no controle de nossas ações, mas sim inseridos em uma narrativa maior definida por algo inimaginável.

    Nossa nota

    4,3 / 5,0

    Confira o trailer do longa:

    À Beira da Loucura pode ser assistido no Prime Video e no Apple TV+.

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