Início FILMES Crítica CRÍTICA | Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer:...

CRÍTICA | Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (2019, Bárbara Paz)

CRÍTICA - Babenco: Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (2019, Bárbara Paz)

Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, já foi selecionado para mais de 20 festivais e conquistou quatro prêmios, incluindo o Leão de Ouro no 76º Festival de Veneza e o prêmio de Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema de Mumbai, na Índia. E agora, será o indicado pelo Brasil na corrida para Oscar 2021 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Eu já vivi minha morte, agora só falta fazer um filme sobre ela” – disse o cineasta Hector Babenco à Bárbara Paz, ao perceber que não lhe restava muito tempo de vida. Após a descoberta do câncer, ela aceitou a missão e realizou o último desejo do companheiro: ser protagonista de sua própria morte.

Babenco faleceu em 2016 após uma parada cardíaca. E sozinha, Bárbara seguiu sua jornada, descobrindo aos poucos o filme que tinha em suas mãos, experimentando cada imagem, buscando parceiros e colaboradores que entendessem a verdadeira essência do projeto.

SINOPSE

Um dia, depois de acudir Hector Babenco num hospital em Paris, ela começa a filmá-lo. Ele aos poucos permite que ela, apenas ela, o filme. Em paralelo, Bárbara Paz inicia com ele uma série de conversas gravadas sobre todos os temas possíveis da vida do homem e do cineasta. E assim, somos introduzidos a este precioso documentário-ensaio repleto de afeto, simplicidade e parceria entre o casal.

Nesta imersão amorosa na vida do cineasta, ele se desnuda, consciente, em situações íntimas e dolorosas. Revela medos e ansiedades, mas também memórias, reflexões e fabulações, num confronto entre vigor intelectual e fragilidade física que marcou sua vida.

ANÁLISE

CRÍTICA - Babenco: Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (2019, Bárbara Paz)

Hector Babenco se apaixonou pela arte de contar histórias e em sua carreira foram ao todo 10 filmes e todos têm sua importância. O Rei da Noite (1975), Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977),  Pixote, a Lei do Mais Franco (1980), O Beijo da Mulher Aranha (1984), Ironweed (1987), Brincando Nos Campos do Senhor (1990), Coração iluminado (1998), O Passado (2007) e seu último filme, Meu Amigo Hindu (2016).

Intercalando por cenas de arquivo pessoal do próprio Babenco, é notório o quão Bárbara interpretou este projeto como uma carta de amor póstuma. Totalmente em preto e branco, o clima noir é representado por um motivo simplório: o plano de fundo deste documentário, era na época pela qual ele estava em tratamento de seu diagnóstico de câncer.

Bárbara tenta captar utilizando obras dele e imagens caóticas, em uma fotografia sentimentalista, um contraponto a sua finitude da vida, com momentos de calmaria, com Babenco, em sua fragilidade, tendo suas  reflexões espontâneas, com uma bela mistura de loucura e caos com realismo e esperança, já que ele sabe que a única maneira de superar sua explosão interior é seguir em frente da melhor forma possível com toda a sua bagagem de conhecimento e ternura.

A montagem do documentário é extremamente  significativa em recolocar todas as cenas em ordem e transformar a cinematografia de Babenco quase em um universo compartilhado. Todos os seus filmes dialogam entre si dentro da premissa do longa e, dessa maneira, é possível notar as características marcantes de cada um deles. Essa oportunidade de homenagear um conjunto de obras transporta o espectador para um limbo, como se entrássemos no purgatório particular de Hector Babenco e ali fossemos convidados à assistir suas lembranças.

Tanto a trilha sonora atmosférica quanto o preto e branco auxiliam nessa jornada de recordações, que utiliza bastante metalinguagem para ressaltar o valor de cada filme dirigido por Babenco. O excepcional ator Willem Dafoe (O Farol), além de produtor, faz parte da trama por ter estrelado o último filme de Hector Babenco, Meu Amigo Hindu, uma espécie de autobiografia realizada durante o período que esteve doente antes de falecer.

Nesse documentário é também revelado o fazer cinema na mente de um homem que viveu isso sua vida toda, e fez a gente sonhar com suas construções. Muito mais do que uma homenagem, Bárbara faz um estudo da mente deste lendário cineasta, revelando pequenos gestos que mostram sua grandiosidade.

VEREDITO

Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou é o resultado do trabalho intenso e apaixonante que registra o nascimento de uma diretora obstinada e multitalentosa que é Bárbara Paz.

Em apenas 1h15min de projeção, ela pincela a imagem do homem consciente do seu destino e temeroso em realizar os seus últimos anseios.

O documentário segue todos os elogios possíveis para ganhar uma indicação na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2021, pois muito mais que uma homenagem ao diretor, o filme também é uma ode ao fazer cinema, a sua arte e sua importância a todos.

Nossa nota

5,0 / 5,0

Confira o trailer:

Curte nosso trabalho? Que tal nos ajudar a mantê-lo?

Ser um site independente no Brasil não é fácil. Nossa equipe que trabalha – de forma colaborativa e com muito amor – para trazer conteúdos para você todos os dias, será imensamente grata pela sua colaboração. Conheça mais da nossa campanha no Apoia.se e nos ajude com sua contribuição.

Artigo anteriorCRÍTICA | AmarElo – É Tudo Pra Ontem (Fred Ouro Preto, 2020)
Próximo artigoCRÍTICA – The Wilds: Vidas Selvagens (1ª temporada, 2020, Amazon Prime Video)
Amante da sétima arte. Fascinada na relação entre cinema, história e filosofia. Devoradora de quadrinhos, aprecia um bom clássico e combate o crime em Gotham City nas horas vagas.