TBT #225 | Ran (1985, Akira Kurosawa)

    Akira Kurosawa é um gênio cinematográfico de sua época, tanto em preto e branco quanto no cinema colorido. Seu trabalho como cineasta se tornou uma referência para as épocas seguintes no cinema e, no TBT desta semana, vamos indicar Ran (1985).

    O longa tem sua inspiração na tragédia teatral Rei Lear de William Shakespeare, umas das obras mais famosas do dramaturgo. Entretanto Kurosawa adapta a história para os seus elementos culturais, assim se tornando um clássico do cinema.

    Estrelado por Tatsuia Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu e Mieko Harada; Ran também contou com a participação de Serge Siberman, o único nome ocidental em todo o projeto. A distribuição foi feita pela Toho no Japão e Acteurs Auteurs Associés, responsável pela produção de outros filmes como O Nome da Rosa (1986).

    O roteiro é assinado por Hideo Oguni, Masato Ide além do próprio Kurosawa, também responsável pela edição representando seu comprometido com o projeto. Seu figurino fica por conta de Emi Wada, que posteriormente trabalharia com o diretor em Sonhos (1990) e seu ultimo trabalho foi o Clã das Adagas Voadoras (2005).

    SINOPSE

    Japão, século XVI. Hidetora Ichimonji (Tatsuya Nakadai), o poderoso chefe do clã dos Ichimonjis, decide dividir seus bens entre os três filhos: Taro Takatora (Akira Terao), Jiro Masatora (Jinpachi Nezu) e Saburu Naotora (Daisuke Ryu). Com o primeiro fica a chefia do feudo, as terras e a cavalaria. Os outros dois ficam com alguns castelos, terras e o dever de ajudar e obedecer Taro. Saburu, prevendo as desgraças que viriam, se mostra contrário à decisão paterna. Expulso do feudo e acaba sendo acolhido por Nobuhiro Fujimaki (Hitoshi Ueki), de quem se torna genro. Hidetora vai ao seu antigo castelo, que agora é de Taro, e não é bem recebido. O mesmo acontece ao visitar Jiro e, isolado em seu ex-império, Hidetora se aproxima da insanidade.

    Storyboards como obras de arte

    George Lucas, Akira Kurosawa e Steven Spielberg.

    O processo criativo de Ran tem algumas peculiaridades, como o diretor ter pintado os storyboards ao longo de dez anos. De acordo com Akira Kurosawa, Hidetora, o lorde do filme, era o próprio Kurosawa e alguns estudiosos de sua obra concordam com esta afirmação.

    Ran é o último filme da Terceira Era de Kurosawa como diretor e foi o período mais turbulento de sua carreira. Sendo a época que o cineasta lida com a crítica por ser considerado antiquado, não conseguindo novos projetos por um período de cinco anos.

    As gravações ocorreram durante dois anos e usou locações como o Monte Fuji e o vulcão de Aso, o maior vulcão ativo no Japão.

    A produção foi indicada ao Oscar em 1986 nas categorias Melhor Direção, Direção de Arte, bem como Fotografia e Figurino; sendo vencedor nesta última. Além de receber dois prêmios no BAFTA de 1987 como Melhor Filme e Maquiagem.

    A melhor interpretação de uma tragédia Shakesperiana

    Sua trama é sobre Hidetora Ichimonji, um senhor feudal do século XVI que, em sua velhice, divide seus domínios entre seus filhos Taro, Jiro e Saburu. Durante a divisão, o primogênito (Taro) seria o líder enquanto seus irmãos seriam seus apoiadores mantendo o poder, como a parábola das três flechas de Motonari Mori.

    Saburo refuta a ideia de seu pai lembrando como realizou suas conquistas, sendo banido apesar dos avisos de seu servo fiel. A partir deste momento Hidetora vivencia a destruição de sua família e legado levando-o a loucura.

    Ran é um filme que pode ser explicada exatamente pelo seu título, cuja a tradução é desordem ou caos. Apesar de ter a inspiração na peça Shakesperiana, seu roteiro tem sua própria identidade, além da interpretação para a cultura de seu idealizador.

    Apesar de estruturalmente o filme utilizar os mesmos arquétipos de personagens de sua obra inspiradora, o longa tem a sua própria perspectiva de uma tragédia. Talvez o termo popularizado “visão do diretor” seria a melhor forma de descrever, a grosso modo, a produção.

    A tragédia sob o olhar do lendário Kurosawa

    Akira Kurosawa: O impacto de Os Sete Samurais no cinema

    Akira Kurosawa traz a visão desta tragédia para a sua cultura, utilizando os contextos de seu país para dar o tom de originalidade que torna Ran excepcional. Principalmente na figura de Hidetora, assim direcionando sua visão da história para o aspecto da vingança e consequência.

    O lorde feudal é um homem orgulhoso, arrogante e cruel, repetindo a visão de mundo de sua vida em sua velhice. Assim, em sua cega convicção não aceita a discordância de seu filho a ponto de bani-lo.

    Neste aspecto o roteiro se torna mais livre para construir sua figura central, a marcante personalidade cruel de Hidetora. Sendo assim, simbolizada em seus atos como ordenar a remoção da visão de Tsurumaru (Mansai Nomura).

    Além do lorde, outros personagens ganham mais complexidade como Kyoami (Peter). Desta forma os personagens ganham motivações mais amplas para a contenda que se inicia entre os dois filhos de Hidetora para com ele.

    Um fim épico para a Terceira Era do cineasta

    Em relação a direção, apenas elogiar o cineasta seria algo simplório diante do grande trabalho realizado. Ran é a resposta de Kurosawa para as críticas que recebeu, não abrindo mão de sua identidade como diretor e se renovando com uma grande narrativa.

    Cada cena do filme reproduz uma carga dramática excelente, com a graciosidade de um filme de época oriental e sua expressão cultural. Não considero que este filme seja apenas uma releitura de uma obra, mas uma verdadeira expressão artística.

    A nível de atuação, vale destacar Tatsuia Nakadai, que posteriormente seria reverenciado com um dos atores mais renomados do Japão. Seu trabalho em Ran se utiliza da sua experiência no teatro, resultando em  um trabalho dramático que remete ao estilo de teatro Noh.

    A conclusão do filme se assemelha com a obra a qual se inspira, afinal como toda tragédia um desfecho positivo é improvável. Mas, diferente de Rei Lear, Ran não se prende em sua história a consequência de um sofrimento não merecido, mas a vingança que se cultiva perante a crueldade.

    Nossa nota

    5,0 / 5,0

    Assista ao trailer:

    Conheça outras obras do diretor:

    Akira Kurosawa: O impacto de Os Sete Samurais no cinema

    TBT #159 | Rashomon (1950, Akira Kurosawa)

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