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CRÍTICA – Um Deus Em Algum Lugar (2010, Vertigo)

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CRÍTICA - Um Deus Em Algum Lugar (2010, Vertigo)

“A visão mais humana das histórias de super-herói que eu já vi.”

Quando uma HQ carrega na capa um comentário de alguém como Mike Mignola – criador de um dos personagens mais clássicos de história em quadrinho; Hellboy – é no mínimo de bom tom você parar para dar uma conferida.

Lembro que descobri essa obra, por acaso, em meados de 2015; e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a capa e o título; Um Deus Em Algum Lugar.

É um daqueles momentos raros onde você julga um livro pela capa e “dá bom”, entende?

A graphic novel escrita por John Arcudi, responsável também por The Mask Omnibus Vol. 1, Sledgehammer 44 ao lado de Mignola – e B.P.R.B. de Peter Snejbjerg, trabalha de forma impecável dando vida e forma aos personagens; que juntamento com Bjarne Hansen que com maestria, trabalha colorindo essa obra.

Um Deus Em Algum Lugar aborda um tema bastante usado: a famigerada “formula do super-herói”; porém com uma pequena e significativa diferença: humanização.

Antes de mais nada, o que você faria se o seu melhor amigo se tornasse invulnerável, pudesse voar e caísse na graça do público? Mas a pergunta que a obra tenta nos passar é: “O que o seu amigo faria com esses poderes?

É nesse ponto onde Arcudi constrói a narrativa da obra; eu poderia resumir brevemente o enredo da obra, mas não seria correto, até porque Um Deus Em Algum Lugar precisa ser analisado com bastante cautela, pois não é uma simples graphic novel.

A história nos apresenta Eric Foster, um ser humano comum como qualquer outra pessoa, que numa noite qualquer teve sua vida mudada para sempre

Logo no início, misteriosamente, Eric sobrevive a uma explosão que atinge o prédio onde vive. A explosão acontece de maneira aleatória, pois não nos deixa claro a origem dela.

Antes de me aprofundar na história de Eric Foster, preciso ressaltar que John Arcudi desenvolve a narrativa da obra pelo ponto de vista de Sam Knowle, melhor amigo de Eric, e em minha opinião ele faz isso muito bem, deixando transpassar uma boa carga emocional do amigo do personagem principal.

Arcudi não pinta Sam como um ajudante, e a medida em que o enredo se desenvolve percebemos que Sam Knowle carrega consigo uma grande responsabilidade do que dar apenas simples conselhos; ele é o narrador e a pessoa mais próxima de Eric Foster.

“Não importa quem você é, não importa o que você faz, não importa o que aconteça a você… você é só mais um personagem na história de outra pessoa.”

É dessa forma que Sam nos apresenta o ponto de vista dele, logo na primeira página, e como a história de Eric será contada aos seus olhos.

John Arcudi procura apresentar uma obra inédita, mesmo que alguns pontos já tenham sidos utilizados em uma HQ e outra. Aqui ele estabelece uma riqueza em detalhes, tanto na narrativa, quanto na qualidade da arte.

Voltando para Eric Foster. De maneira misteriosa ele sobrevive ao incidente que resulta em dezenas de mortes. E ainda consegue ajudar algumas pessoas dessa tragédia e, consequentemente, cai nas graças da opinião pública e da mídia – o que já seria mais do que suficiente para ter a sua vida mudada e deixada de pernas para o ar.

Porém o enredo começa a se desenrolar, a partir de alguns diálogos e narrativa de Sam Knowle, e logo conseguimos notar que aquele incidente mudou Eric para algo mais.

Existe uma dinâmica racial na obra de Arcudi; Eric e Hugh – irmão de Eric – são brancos, e Sam e Alma – esposa de Hugh – são negros. Essa dinâmica vai desde o momento onde Eric e Sam se conheceram na faculdade, onde os dois irmãos impediram uma briga onde Sam estava levando a pior. A partir daí a relação de Sam e Eric é formada, e onde existia um laço entre Eric e Hugh agora existe também entre Sam e Eric – algo que John Arcudi nos apresenta em alguns momentos como flashbacks ou até mesmo em alguns balões de diálogo.

A história possui quatro capítulos, aproximadamente duzentas páginas, 48 páginas cada capitulo, e logo no segundo capitulo começamos a acompanhar as mudanças que Eric Foster começa a demonstrar. Ainda nas primeiras páginas tomamos conhecimento que Eric é cristão, algo que faz parte de seu caráter e que tem a ver com a história, mesmo que questões religiosas sejam abordadas de uma maneira levemente polida e coerente; mas é a partir dessa linha que Arcudi tenta explorar Eric. Um bom exemplo disso é Eric acreditar piamente que suas habilidades vieram a partir da mão de Deus, opinião que Sam não compartilha.

Com o avançar da história nosso protagonista vai se desligando aos poucos das pessoas ao seu redor, preferindo em alguns momentos o isolamento – tema que já foi apresentado em Watchmen, através do personagem Dr. Manhatthan, que após seu acidente passa a ter uma compreensão diferente da vida humana.

Se no primeiro capítulo John Arcudi nos apresenta Eric tornando-se algo mais, no segundo capitulo o tempo parece fluir de forma mais corrida, um exemplo disso sãos as mudanças no personagem; desde aspectos físicos que vão de uma barba cumprida e cabelo bagunçado até um temperamento incompreensivo e controverso.

Já nessa altura podemos notar o distanciamento que ele passa a enfrentar em relação as outras pessoas, e esse distanciamento vai desde sua postura até seu código moral, e é nesse ponto onde Arcudi consegue elevar a obra a outro nível. [selecione o texto caso queira ler o spoiler]: Um exemplo disso é logo no inicio do segundo capitulo quando Eric acaba dando assistência a policiais que enfrentam bandidos com armamento pesado; e de maneira fria, o personagem acaba matando algum dos bandidos e deixando o local sem demonstrar nenhum remorso.

O que me agradou na história foi o cuidado na desconstrução do indivíduo como “super-herói”. Estamos acostumados a ver histórias em quadrinho onde o super-herói possui uniforme, cuidado com os outros seres e autocuidado consigo, mas em Um Deus Em Algum Lugar as coisas funcionam de maneira oposta.

Outro ponto interessante foi ver que por mais que Eric tentasse fazer as coisas certas sempre existia um certo limite, e esse ponto é mostrado quando sua própria família tenta se aproximar dele, após o incidente, ou ir até seu encontro – essa é uma das situações onde Hugh parece se incomodar mais, pois não consegue entender como Sam consegue ter mais acesso/intimidade e contato a Eric do que seu próprio, e único, irmão.

A obra tem seus momentos mais leves e descontraídos, mas na maior parte é repleta de violência – indo de socos e chutes até desmembramentos e tripas sendo expostas, mas John Arcudi consegue fazer um bom trabalho de maneira que nos deixa deslumbrados a cada página.

Se em um momento Eric Foster era visto como uma espécie de Messias do Novo Mundo em outro ele é pintado como o mais puro vilão e é nesse ponto que achei a obra excepcional, pois Arcudi explora um possível cenário do que aconteceria se existisse algum ser humano com as capacidades de Eric e é onde eu retomo a conduta moral do personagem principal. Aos olhos de Eric ele achava realmente que fosse algo mais que um mero ser humano, pois suas habilidades falavam por si só, sem mencionar a força que a mídia e o governo tiveram em cima disso.

Arcudi nos faz questionar as atitudes de Eric no decorrer da história, pois até a metade do segundo capitulo nosso protagonista é o herói pintado pela sociedade, mas a questão não é essa, as questão são:

“Ele queria ser o herói?”

“De maneira inexplicável ele ganhou habilidades, mas ele precisava realmente fazer o bem com elas?”

“Ele precisaria ser um super-herói?”

Nessa obra a interpretação é bastante unilateral, até porque não existe ali algo como “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades“, ao invés disso, ele vai de herói a vilão em pouquíssimo tempo. De um humano com superpoderes que salvou algumas pessoas de escombros a um indivíduo que o governo dos EUA declarou guerra.

Se você espera entender Eric quando ler Um Deus Em Algum Lugar pode esquecer, existem momentos na história onde a compreensão simplesmente fica fora da curva. Selecione o texpo a seguir para ler o spoiler: Um exemplo disso é Eric deixar Hugh tetraplégico e abusar de Alma – e essas duas cenas são de longe as mais pesadas da obra. A outra parte é até mesmo questionada por Sam, onde Eric está preso e após fugir, facilmente, mata praticamente todos os guardas da penitenciária, sem antes arremessar um tanque de guerra contra um edifício e destruir um helicóptero. No final de tudo isso Sam pergunta para si em meio a sangue e carnificina; se ele queria fugir porque simplesmente não saiu voando?.

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Novamente o código moral é posto em xeque. A partir dali outras atitudes de Eric beiram ao absurdo, nos deixando frustrado, mas ao mesmo tempo querendo tirar algum nexo daquilo, como se em algum momento fosse nos mostrar um real significado para as suas ações.

Eu mesmo, quando li pela primeira vez, fiquei sem entender, digo, como alguém que se acha “abençoado” consegue matar tantas pessoas a sangue frio? Não faz sentido pra mim e tão pouco para Sam.

Aos olhos de Sam passamos a odiar Eric, mas nem mesmo Sam consegue odiá-lo por completo. Em diversos momentos ele apenas quer entender seu amigo, quer saber a razão pelo qual todas as atrocidades foram cometidas, mas quanto mais ele tenta entender mais percebe não conseguir.

Há momentos bem interessantes, e levemente perturbadores, um deles é onde o próprio Eric relata ter tido um sonho onde ele mesmo era Deus só que de um universo menor.

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É por desafiar qualquer senso comum ou lógica que a obra de John Arcudi funciona bem. Arcudi soube trabalhar de maneira  sensacional e consegue nos deixar com as pontas soltas de maneira temperada, e isso é bastante interessante da forma que a história é desenvolvida, pois normalmente temos as motivações sendo devidamente explicadas e aqui não funciona dessa forma, pois em momento algum entramos na cabeça de Eric Foster, tudo que temos apenas é o ponto de vista de Sam Knowle, nada mais.

A total ambivalência de Sam e sentida a medida que nos aproximamos do final da graphic novel, e a necessidade dele em tentar entrar na cabeça de seu amigo fica cada vez mais nítida, porém até o próprio Eric explica que jamais entenderia o que ele está passando ou suas reais motivações que o levou até aquele momento, mas que estava tudo bem. Não era preciso entender.

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E é dessa maneira que John Arcudi nos explica e ao mesmo tempo nos deixa curiosos em relação a Eric Foster.

CRÍTICA - Um Deus Em Algum Lugar (2010, Vertigo)

Título: Um Deus Em Algum Lugar
Autores: John Arcudi e Peter Snejbjer
Editora: Vertigo
Ano de Publicação: 2010
Páginas: 194

Nossa nota


Um Deus Em Algum Lugar
é uma obra que vale muito a pena ser lida e relida, principalmente se você curte essa pegada de “humanização” e desconstrução do super-herói. Arcudi consegue nos mostrar um cenário onde o bem e o mal caminham em uma via de mão dupla, onde essa linha tênue tende ficar cada vez mais estreita.

E você? O que faria se tivesse tais habilidades? Deixe seus comentários e se já leu essa incrível graphic novel deixe também sua avaliação.

Nota do público
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