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CRÍTICA – Era Uma Vez em… Hollywood (2019, Quentin Tarantino)

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CRÍTICA - Era Uma Vez em... Hollywood (2019, Quentin Tarantino)

Quentin Tarantino é um diretor renomado, talvez um dos maiores das últimas gerações. Filmes como Pulp Fiction, Kill Bill, Bastardos Inglórios, Cães de Aluguel e Django Livre são memoráveis para todo cinéfilo de carteirinha. Era uma Vez em… Hollywood tenta ser do mesmo time que todos os outros citados, entretanto, o longa se perde ao longo de suas duas horas e quarenta e cinco minutos, não sendo tão sólido quanto seus antecessores.

Vamos falar dos pontos positivos: as atuações são espetaculares! Leonardo DiCaprio e Brad Pitt beiram a perfeição em seus papéis. DiCaprio é Rick Dalton, um ator em decadência que teme ficar no anonimato num universo perverso que é o do ramo do cinema – algo tratado com eficácia por Tarantino. A forma sutil de trabalhar um aspecto determinante para galãs em filmes de ação – como o de envelhecer e ficar datado – é um acerto e Leonardo DiCaprio encarna muito bem isso no personagem, nos dando momentos de emoção e nos garantindo boas risadas.

Brad Pitt é o dublê de Dalton, Cliff Booth, um homem simples e reservado, mas com um histórico bizarro: Cliff se safou da polícia após, até onde se sabe, matar sua própria esposa. O boato precede seu nome, tornando-o uma lenda macabra entre os profissionais de Hollywood. O personagem é uma espécie de faz-tudo, tanto para Rick, quanto para o próprio filme, cumprindo a função de amarrar os diversos arcos da narrativa.

Era uma vez em… Hollywood conta com três linhas narrativas: a de Dalton, a de Booth e a de Sharon Tate, vivida por Margot Robbie. Esta última linha narrativa, infelizmente, foi uma grande decepção, não por culpa da talentosa atriz, e sim, por um roteiro que explora a história de Tate de uma forma muito rasa e desinteressante. Robbie, a atriz indicada ao Oscar por Eu, Tonya, tem pouquíssimas falas e funciona mais como uma pequena homenagem ao legado de Sharon Tate do que, de fato, como uma personagem relevante.

O enfoque de Era Uma Vez Em… Hollywood está nos dois personagens principais e é em torno deles que toda a narrativa está construída. Os demais atores e atrizes praticamente são figurantes de luxo, incluindo nomes pesados da indústria como Al Pacino, Dakota Fanning, Kurt Russel e Timothy Olyphant. Quentin Tarantino sempre teve boas escolhas de elenco, e aqui não é diferente: mesmo que em pontas, seus personagens funcionam, com exceção de Margot Robbie. Brad Pitt é o grande destaque do longa, uma vez que seu personagem é o mais intrigante, não sabemos o que esperar dele.

O mais “Tarantino” do filme está nos 30 minutos finais da produção, onde encontramos suas principais características: diálogos rápidos e engraçados, cheios de palavrões e ação desenfreada com boas atuações. Quentin Tarantino faz de Era Uma Vez Em… Hollywood uma grande homenagem ao cinema antigo, retratando o quanto ama e é aficionado por Hollywood, além de tornar a produção um grande apanhado de referências e cenas de seus outros 8 filmes – quase como uma autorreferência.

Agora falemos dos pontos negativos: sexismo exagerado, uma trama confusa e takes desnecessários em partes dos corpos das atrizes.



Por se tratarem de três linhas narrativas diferentes – sendo a de Sharon Tate uma que apenas contorna a trama principal – o espectador pode sair confuso da sala de projeção, por vezes não compreendendo onde o roteiro quer chegar, uma vez que são três atos misturados e que, em muitas cenas, não possuem continuidade entre si. A falta de linearidade talvez seja o grande vilão de Era Uma Vez Em… Hollywood, deixando o longa sem pontos que possam nortear o espectador comum.

O filme muitas vezes empaca e faz com que a história não flua, algo que não justifica sua longa duração. Cenas com longos diálogos que visam mostrar mais da atuação de Leonardo Dicaprio se tornam difíceis de entender quando se coloca todos os arcos do filme em perspectiva. A vontade do diretor e roteirista em colocar tantas referências dentro das 2 horas e 45 minutos de duração acaba criando momentos arrastados e que parecem não ter fim.

Um arco inteiro de Cliff, por exemplo, depende do fator Charles Manson, mas Manson aparece apenas uma vez em alguns segundos de tela. Não há em nenhum momento uma preocupação em amarrar a cena no Rancho Spahn – outra referência que serve como uma homenagem ao cinema Western – com a narrativa de Rick, servindo apenas para uma “validação” da ação desenfreada do final do filme.

Tarantino ultrapassou todas os limites possíveis das cenas de pés, coxas e outras partes femininas nessa produção. A forma como Quentin Tarantino trata suas personagens femininas sempre foi um afronte e isso não é uma novidade, mas com o passar do tempo parece que o diretor perdeu mesmo o pouco talento que tinha para representar mulheres em tela.

Com as mudanças constantes na nossa sociedade e conscientização sobre as violências sofrida pelas mulheres todos os dias, é frustrante ver como o diretor ainda trata personagens femininas com desdém e crueldade desmedida. O castigo para as mulheres pelas mãos dos fortes homens principais é sempre mais pesado e violento, garantindo ao público nas salas de cinemas boas risadas sem nenhuma reflexão.

Assista ao trailer legendado:

Era Uma Vez em… Hollywood é um filme com a fórmula que o Academia adora indicar ao Oscar, que entretém, mas não empolga. O filme não é ruim, mas muito aquém do que o renomado diretor poderia entregar, servindo mais como uma homenagem do que um filme que marque sua geração.

Nossa nota

Participamos da pré-estreia exclusiva de Era Uma Vez Em… Hollywood no Praia de Belas Shopping, em Porto Alegre. A ação foi feita pelo GNC Cinemas em parceria com a Espaço Z e Martha Becker Comunicação – que nos convidou para curtir a sessão de cinema antes do filme estrear oficialmente. Agradecemos o convite e curtimos muito a noite Tarantinesca!

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