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CRÍTICA – 3% (4ª temporada, 2020, Netflix)

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CRÍTICA - 3% (4ª temporada, 2020, Netflix)

A quarta e última temporada da série brasileira 3% estreou na Netflix dia 14/08. A criação é de Pedro Aguilera e traz no elenco principal os atores Bianca Comparato, Vaneza Oliveira, Rodolfo Valente e Rafael Lozano.

SINOPSE

CRÍTICA - 3% (4ª temporada, 2020, Netflix)Na luta final por recursos e uma chance de acabar com o Processo de vez, Joana (Vaneza Oliveira), Rafael (Rodolfo Valente), Marco (Rafael Lozano), Elisa (Thaís Lago) e Natália (Amanda Magalhães) partem para o Mar Alto para uma falsa missão diplomática. Enquanto isso, na Concha, Michelle (Bianca Comparato) traça um jeito do plano funcionar e no Mar Alto, seu irmão André (Bruno Fagundes) deseja iniciar o Processo mais violento do Continente. 

ANÁLISE

CRÍTICA - 3% (4ª temporada, 2020, Netflix)Em 2016 a Netflix lançou a primeira série original brasileira e não demorou muito para 3% ser um sucesso em outros países. A produção chegou a ficar em primeiro lugar como a série de língua não inglesa mais assistida nos Estados Unidos.

De 2016 para 2020 o mundo inteiro mudou, porém, temas recorrentes em 3% como desigualdade social e mérito continuam sendo problemas atuais. Logo, em quatro temporadas, a série surpreende por falar de um futuro pós-apocalíptico que retrata uma atual realidade brasileira.

Nesse sentido, mesmo depois de quase cinco anos, 3% pode até ser subestimada pela maioria das pessoas. Afinal, é extremamente difícil sair das sombras das novelas brasileiras sem ser taxada de caricata ou ruim.

Contudo, 3% entende seu papel no entretenimento nacional: o de não ser mais uma produção com apenas representações sem discutir, de fato, o necessário. Ao longo de quatro temporadas é refletido o Brasil de forma nua e crua, mostrando que enquanto alguns têm de demais, outros têm de menos. 

Dessa forma, surge no Continente o retrato do Brasil miserável, sem perspectiva de futuro naquele ambiente. Já no Mar Alto está a chance de qualquer um mudar de vida. É nesse local que as pessoas pregam a “meritocracia”.

Não importa de onde você vem ou quem você é, se passar no Processo é porque “você é o criador do seu próprio mérito” e melhor que os outros. É o típico discurso elitista disseminado pelos ricos, onde quem tem tudo acha que é só questão de força de vontade. 

Em 3% o conceito de mérito além de estampar o Mar Alto, a elite, também tem grande reflexo no Continente. Visto que, como as pessoas foram levadas a acreditar que o Processo é a única solução para uma vida melhor e também para autorrealização, quem não passa acaba por se contentar com uma vida miserável. 

E como julgar essas pessoas? Quanto mais refletimos como a hierarquização de 3% funciona, mais a frase de Paulo Freire faz sentido:

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”

No Continente não existe uma consciência crítica do mal estar a sociedade que o Mar Alto causa. É como se estivesse tudo bem em ser oprimido, porque quem sabe um dia talvez possa virar opressor.

Por isso, os personagens centrais de 3% são tão interessantes, pois eles acabam por abranger o debate e dar mais força a trama de um mundo que já é discutível por si só.

Nessa medida, acompanhamos no começo Michele e Rafael que são infiltrados da Causa, uma organização contra o Mar Alto; Joana que é uma fugitiva e só deseja passar no Processo para escapar; Fernando que foi criado para acreditar na bondade do Mar Alto e Marco que acredita ser da elite, pois seus familiares sempre passam.

“O passado é uma roupa que não nos serve mais.”

Assim como esses cinco personagens iniciam com convicções e acreditam em seus próprios ideias, assistimos ao longo das temporadas tomadas de decisões que impulsionam e desafiam essas personas.

Dessa forma, 3% consegue desenvolver seus personagens sem perder a essência deles. Ou seja, seus principais ideais ainda estão ali, mas vemos pessoas que reconhecem e tentam aprender com seus erros.   

Da mesma maneira, a quarta temporada também busca ser palpável. Ao olhar para trás e ver toda sua trajetória, a produção entende onde pecou e cria um final sem grandes rodeios, mas de uma sensibilidade incrível. A temporada inteira acontece em sete capítulos, misturando flashbacks de semanas ou anos antes para dar profundidade e contexto a trama atual.

CRÍTICA - 3% (4ª temporada, 2020, Netflix)

Logo, ao mostrar alguns personagens crianças, ou em momentos importantes de suas vidas, é reforçado na trama a ligação de quatro anos que nós tivemos com eles.

Passamos a acreditar neles, a nos importarmos e querermos que eles ganhem. Afinal, por ser uma série que reflete a realidade brasileira, até nós parecemos um pouco com esses personagens: seja nas ambições, nos desafios ou nas lutas, cada brasileiro tem um pouco dos 3%.

Para além da narrativa, a série mais uma vez incrementa sua ambientação. O figurino único de 3% consegue transmitir qual tipo de lugar é o Continente, o Mar Alto e a Concha. Com isso, a produção dá vida a um mundo pós-apocalíptico. A direção se alinha a montagem de forma a provocar a curiosidade e o interesse, o que é um ótimo caminho para um final de série.

Sendo assim, 3% fica eternizado não só como a primeira produção brasileira da Netflix, mas como a série que buscou e ousou debater um Brasil ignorado e invisibilizado. Não de forma a apontar culpados ou vítimas, 3% se propôs a falar de sociedades corrompidas, de tudo ou nada, de hipocrisia e de liberdade. 

VEREDITO

CRÍTICA - 3% (4ª temporada, 2020, Netflix)A quarta e última temporada de 3% da Netflix consegue ser dinâmica sem perder a sua narrativa. A série põe o fim necessário a cada personagem, de forma a elevar alguns e redimir outros. E mesmo com algumas manobras um tanto discutíveis para resolver conflitos, vemos uma série que não teve medo de ousar. 

Nossa nota

Assista ao trailer:

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