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CRÍTICA – Bojeffries: A Saga (2020, Devir)

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CRÍTICA - Bojeffries: A Saga (2020, Devir)

Quem, hoje em dia, não conhece obras como Watchmen, V de Vingança ou mesmo A Liga Extraordinária? Quase ninguém, não é mesmo? O autor destas obras, Alan Moore, é conhecido por ser um dos precursores da “revolução adulta” dos quadrinhos. No entanto, apesar da fama do autor, a saga da família Bojeffries, uma de suas primeiras obras, não é tão conhecida (e foi recentemente publicada) aqui no Brasil pela Editora Devir. Moore é muito mais do que os famosos contos sombrios, e talvez um pouco de sua história ajude a compreender essas nuances.

A história de Alan Moore

Moore nasceu em Northampton, na Inglaterra, em 1953, numa família de classe operária. Teve muito apreço pela leitura desde pequeno e ainda novo teve acesso à HQs americanas como The Flash, Detective Comics e Falcão Negro. Terminando o ensino primário foi admitido na Northampton Grammar School e no final dos anos 1960 começou a publicar poesia e alguns ensaios em fanzines (publicações não-profissionais de e para um público específico), criando em seguida sua própria, chamada Embryo, a qual acabou sendo parte importante em sua projeção.

Nos anos 1970, Moore teve alguns empregos até que em 1978, já casado, desistiu da vida de escritório e resolveu buscar sustento com suas qualidades artísticas. Começou escrevendo e ilustrando seus próprios quadrinhos para algumas revistas e fanzines, conseguindo ganhar a vida publicando através de pseudônimos.

Sua carreira começou a engrenar quando ele focou em apenas escrever, tendo algumas publicações para revistas como Warrior, 2000 AD e Marvel UK, nos anos 1980. Na Warrior é dito que Alan Moore atingiu seu potencial, assumindo o trabalho de Mick Anglo revivendo Marvelman (que posteriormente teria o nome de Miracleman), tendo também sido responsável pela produção de V de Vingança.

A carreira do Mago

Desde então, o Mago, como passou a ser conhecido posteriormente, teve grandes obras publicadas, sendo algumas delas: Monstro do Pântano (a partir de 1982), A Liga Extraordinária (iniciada em 1986), Watchmen (1986), Batman: The Killing Joke (1989), Do Inferno (1989), etc.

O suspense e o tom sombrio são praticamente uma característica do autor, e alguém lendo Batman: A Piada Mortal, por exemplo, não consegue imaginar que este mesmo autor já foi responsável pela produção de um quadrinho banhado no clássico humor ácido britânico.

Bojeffries – Uma Obra Insólita

O Mago nunca escondeu o desprezo que tinha por Margareth Thatcher e tudo que envolvia o nome da ex-primeira ministra (o mandato de Thatcher foi de 1979 a 1990). Em Bojeffries – A Saga, produzida e publicada originalmente durante o período em que a referida autoridade se encontrava no poder, Moore aproveita de toda sátira e humor ácido com que carregou a obra para fazer críticas não tão veladas à monarquia, à sociedade do Reino Unido e sua gestão na época. Segundo ele mesmo, “Bojeffries foi importante, pois foi uma das coisas mais pessoais que já fiz“.

A saga começou a ser publicada na revista britânica Warrior, mais precisamente em sua 12ª edição, em Agosto de 1983. Como apresentado no livro Alan Moore, o Mago das Histórias (por Gary Spencer Millidge, publicado no Brasil com tradução de Alexandre Callari), Moore conta:

“Eu e o artista Steve Parkhouse (ilustrador da obra) tentamos captar os sentimentos das coisas realmente estúpidas da Inglaterra das quais conseguimos nos lembrar de quando éramos crianças.”

CRÍTICA - Bojeffries: A Saga (2020, Devir)

A primeira história introduz um personagem (Trevor Inchmale, um corretor de imóveis, obcecado por sua profissão, que em seu tempo livre fantasia escrever sua autobiografia) que não aparece em nenhum outro momento da série, mas é fundamental para dar ao leitor a noção do tipo de humor e situações que irá encontrar no decorrer da obra.

As ilustrações de Steve Parkhouse (toda em preto e branco, à exceção de uma história sobre as férias da família – muito criativa -, que possui tons de vermelho), aliadas à detalhada narrativa de Alan Moore são combinadas em perfeita harmonia, conseguindo retratar desde a inexpressividade até o pastelão violento.

CRÍTICA - Bojeffries: A Saga (2020, Devir)

A saga da família Bojeffries

Nesta HQ, conhecemos a história da família Bojeffries. Já de início vemos toda a irreverência da trama quando somos apresentados à uma família nada tradicional: Jobremus, um chefe de família que tenta manter a ordem em uma casa com seus dois filhos, Ginda e Reth, os tios Raoul e Festus, um bebê (que vive no porão da casa) e o Vovô Podlasp (que vive no quintal). Tudo muito normal, já que Raoul é um lobisomem, Festus, um vampiro, o Vovô, uma criatura primitiva talvez saída de um livro de Lovecraft e o bebê, um ser radioativo.

Esse preâmbulo é necessário para que o leitor esteja preparado. A produção das aventuras se deu ao longo de décadas e traz um humor bastante específico. As tiradas cômicas e satíricas são bastante ácidas, destacando em sua maioria a inconformidade do autor com as realidades da sociedade, abordando temas como racismo, feminismo e desigualdade social. Moore consegue ser profundo e irônico, contrastando a ingenuidade e a acidez, lado a lado, de uma maneira que impressiona e às vezes até choca.

Está longe de ser uma obra rasa, e apesar de relativamente curta, possui personagens muito bem apresentados que conduzem a narrativa de uma maneira muito inteligente e divertida.

Os personagens

Jobremus Bojeffries: um pai dedicado e inteligente. Um cientista que, apesar de um tanto socialmente desajeitado, tenta criar seus dois filhos da melhor forma possível em meio à situação única em que ele e sua família vivem.

Reth Bojeffries: um filho infantil e desajeitado que cresceu habituado com sua “família monstro” e possui uma imaginação bastante fértil. Não é um primor de caráter, apesar dos esforços do pai.

Ginda Bojeffries: uma filha robusta e agressiva, possível retrato do estereótipo sexista atribuído ao feminismo. Ela enfrenta alguma dificuldade para se relacionar com os homens por se perceber como infinitamente superior e entender que eles ficariam intimidados com sua presença.

Raoul Zlüdotny: o tio lobisomem que tem uma forte atração por poodles (no sentido gastronômico), trabalhador em uma empresa de moedores e afiadores. Representado sempre com um forte sotaque e traços brutos. É amável e muito gentil com todos, sendo por vezes ingênuo (o que traz algumas boas histórias à trama).

Festus Zlüdotny: o tio vampiro (vegetariano), com um idioma único, nem sempre bem humorado. De hábitos noturnos (não poderia ser diferente, não é mesmo?) que se esforça (muito) para sobreviver (contra sua vontade) na Inglaterra.

O bebê: uma das figuras mais curiosas da série. Um ser radioativo que pode gerar energia termonuclear suficiente para iluminar toda a Inglaterra e País de Gales. Isso basta.

Vovô Podlasp: uma criatura primitiva no último estágio da matéria orgânica, com poderes e características lovecraftianas claras (desde a aparência até as falas, muitas vezes grunhidos incompreensíveis).

Trevor Inchmale: um cobrador de aluguéis locais com predileções bastante específicas, que variam entre cobrar aluguéis, descobrir grandes devedores, e em seu tempo livre, escrever mentalmente sua épica (e talvez um tanto exagerada) autobiografia com os títulos mais empolgantes.

Estes aqui apresentados conduziram a história de maneira criativa e inteligente pelas várias edições, tendo: um episódio das férias mencionado recentemente, uma opereta, uma tranquila história de Natal, culminando em um reality, publicado em 2013.

Last but not least

A obra foi produzida até 1991, quando ela foi descontinuada pela revista Warrior. Porém, na edição da Devir, temos ainda acesso à última publicação, de 2013, onde Alan Moore e Steve Parkhouse quiseram dar um encerramento mais digno à sua série de típico humor britânico. Este se deu com uma história de aproximadamente 20 páginas, apresentando fechamento mais digno para a saga da Família Bojeffries.

Bojeffries – A Saga, apesar de bem produzida (tanto a edição original quanto a brasileira), não é a melhor porta de entrada para conhecer todo o legado e obra de Moore, mas com a mais absoluta certeza, é uma excelente história para conhecer melhor e mais profundamente o autor. A saga nos convida a fazer parte da família e nos envolvermos com todos os episódios inteligentemente pensados e reproduzidos, muitas vezes nos levando a reflexões importantes de maneiras diversas.

Também segundo o livro de Millidge, a abordagem fonética de Alan Moore ao reunir os vários dialetos dos personagens e sua imersão na cultura inglesa torna o título quase impenetrável para o público americano.

Esta informação valoriza ainda mais o trabalho e esforço de edição da Devir, que apesar de algumas piadas com referências bastante locais, conseguiu preservar a veia humorística do Mago, sendo bem traduzida e apresentada, nos permitindo acompanhar toda a louca história desta excêntrica família sem perder nenhum detalhe de sua genialidade.

Vale ressaltar que em 1985 a série foi indicada ao Prêmio Eagle e, em 1994, ao Prêmio Eisner de Melhor Republicação de Graphic Novel por The Complete Bojeffries Saga.

Nossa nota

 

Editora: Devir

Autores: Alan Moore e Steve Parkhouse

Páginas: 96

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