Início FILMES Crítica TBT #108 | Medianeras (2011, Gustavo Taretto)

TBT #108 | Medianeras (2011, Gustavo Taretto)

Medianeras

Lançado em 2011, o longa argentino Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual (ou simplesmente Medianeras, no original), dirigido por Gustavo Taretto, aborda a história de dois personagens que vivem na populosa Buenos Aires. Esta quase uma personagem, recheada de prédios construídos das mais variadas formas e estilos, assim como os humanos que neles habitam, totalmente alheios àqueles que estão ao seu lado.

SINOPSE

Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, que conta a história de Martin (Javier Drolas), Mariana (Pilar López de Ayala) e seus desencontros. Eles vivem na mesma cidade, na mesma quadra, em apartamentos um de frente para o outro mas nunca conseguem se encontrar. Só conseguem se relacionar via internet. Se conhecem online, mas na vida offline se cruzam sem saber da existência um do outro. Como se encontrar no mundo “real” em uma cidade de 3 milhões de habitantes? Nas palavras de seu diretor:

“Medianeras é o resultado de várias ideias, que em algum momento – que eu nem sei dizer qual – começaram a se unir. A maioria delas é o resultado de minhas observações e da minha curiosidade sobre Buenos Aires e seus habitantes que muitas vezes vivem suas vidas mais na internet do que fora dela.”

UN OTOÑO CORTO

Já de início, o filme atribui aos arquitetos e engenheiros civis a culpa pelos maiores males da sociedade atual: as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais de TV a cabo, a falta de comunicação, a agonia, a depressão, a obesidade, os torcicolos, etc. E mergulhando a fundo nesta relação de causa e efeito, o diretor Gustavo Taretto se aproveitou das medianeras como título e metáfora de sua obra.

Medianeras são as paredes laterais dos grandes prédios (que normalmente não possuem janelas – nem vida) e geralmente são utilizadas para grandes painéis comerciais (outdoors).

UN INVIERNO LARGO

Medianeras

O filme, por abordar os recém mencionados problemas, pode conter alguns gatilhos e trazer uma atmosfera bem densa em sua primeira metade. Explorando a normalização do distanciamento, das vidas online e dos trabalhos remotos (soa comum nos dias de hoje?), o longa é cirúrgico. Explicita ou implicitamente, o longa escancara os problemas e alguns dos remédios que a sociedade utiliza para amenizar as dores que são quase sempre escondidas.

PRIMAVERA AL FIN

Medianeras

Mas, como não só de tragédias é feita a vida, o ponto de virada se dá justamente através das medianeras. Logo elas, símbolos do distanciamento e ausência de relacionamento vivos, possuem também a representação da inconformidade do ser humano com regras que o sufocam e oprimem. E desta forma, janelas (geralmente irregulares) são abertas, vegetação cresce em meio à rachaduras, a intempérie pinta quadros nos vastos paredões da floresta urbana.

Além de toda a carga explicita do longa, todo o trabalho de arte e a forma como a edição conta a história de maneira silenciosa são louváveis. As paletas de cores, a trilha sonora e a escolha das cenas contam tão bem a história que este se torna mais um fator de imersão. Todas as conexões e proximidades entre Mariana e Martin são trabalhadas minuciosamente e prendem a atenção até o fim.

VEREDITO

Sendo sincero, Medianeras não é um filme leve. Mas é um filme importante. Não só por destacar os problemas da nossa sociedade doente (o que já conseguimos fazer sozinhos), mas por dar esperança; por abrir frestas ou janelas em meio aos paredões de medo e incertezas.

As reflexões são importantes, e ainda mais neste momento de distanciamento, por nos fazerem olhar para o lado e perceber que existem tantos outros como nós.

Não estamos sozinhos.

Nossa nota

4,0 / 5,0 

Confira o trailer do filme:

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Vindo do interior do interior do RS, fã de Cornwell, Zelda e do Fernandão, (péssimo) piadista, dá pitaco sobre quase tudo. Amante da cerveja, gosta de estudar diferentes culturas, leciona FIFA nas horas vagas e tem um cachorro chamado Salomão.