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TBT #50 | Moonlight: Sob a Luz do Luar (2017, Barry Jenkins)

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TBT #50 | Moonlight: Sob A Luz Do Luar (2017, Barry Jenkins)

“Em algum momento você tem que decidir quem quer ser. Não pode deixar que ninguém decida por você.”

(Juan)

Moonlight: Sob a Luz do Luar me marcou por inúmeros motivos, e tem uma palavra com a qual posso resumir todos eles: identificação. Acredito que qualquer pessoa LGBTQI+ ao assistir a esse filme irá se identificar com o personagem principal em algum momento, principalmente se essa pessoa precisou – ou precisa -, reprimir, ou teve a sua orientação sexual reprimida – não demonstrando fragilidade ou sensibilidade – como se fosse algo errado e que necessitava ser escondida para não ser alvo de homofobia, dentro ou fora de casa.

O longa tem um roteiro dividido em três atos e acompanhamos a jornada de autodescoberta, preconceitos e desejo de encontrar seu lugar no mundo de Chiron (interpretado pelos atores Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes em momentos distintos), um menino negro, pobre e homossexual que vive na periferia de Miami. Ao longo dos 110 minutos de duração do filme, é contada a história do personagem em três fases diferentes da vida dele (infância, adolescência e vida adulta) e como sua relação com a mãe, uma dependente química interpretada impecavelmente por Naomie Harris (007 – Operação Skyfall) e com o traficante Juan, vivido pelo incrível Mahershala Ali (Green Book: O Guia), influenciam no adulto que ele virá a se tornar.



BARRY JENKINS E A SUA JORNADA ATÉ ESTA OBRA-PRIMA

Barry Jankins cresceu em Liberty City, Miami, teve uma infância bem complicada por causa da sua raça e classe social, e através do esporte conseguiu mudar a sua vida. Barry jogava futebol americano, o que lhe rendeu uma bolsa na Florida State University. Inicialmente ele queria ser professor, depois escritor e só mais tarde decidiu fazer cinema, mas só depois de cinco anos após se formar conseguiu realizar seu primeiro longa-metragem Medicine For Melancholy, de 2008 e escrito por ele mesmo. O filme foi produzido com pouco dinheiro e com equipe reduzida, no entanto, passou em vários festivais.

Oito anos depois, tendo como base a peça In Moonlight Black Boys Look Blue de Tarell Alvin McCraney, Jankins fez a sua obra-prima Moonlight: Sob a Luz do Luar, e com esse trabalho conseguiu algo que era considerado impossível: ter um filme escrito, dirigido e atuado por negros reconhecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, levando, inclusive, a estatueta da categoria principal.



ROTEIRO, DIREÇÃO E FOTOGRAFIA

Barry Jenkins assina o roteiro ao lado de Tarell Alvin McCraney. O texto não permite reduzir o Moonlight a um longa apenas de questões raciais ou LGBT, ele une vários dramas humanos para criar uma história simples, mas tematicamente complexa e que prova como o talento é a peça fundamental para criar uma obra capaz de encantar, emocionar e fazer refletir. O longa não cai no óbvio em momento algum, optando sempre por tomar caminhos inesperados ao longo da projeção. A última sequência mostra isso, ao invés de revelações bombásticas ou algo do tipo, a conclusão nos apresenta uma cena de delicadeza e sensibilidade quase inigualáveis onde a vida afetiva de dois homens está em jogo.

Jenkins conduz o filme com maestria, movimentando a câmera com muita leveza e sabendo a hora de deixa-la parada para intensificar momentos. O diretor sabe criar cenas marcantes e simbólicas. Por falar em simbolismos, gostaria de destacar aqui a cena em que o Juan – que nos presenteia com uma quebra do estereótipo do traficante que estamos acostumados a ver e o personagem no qual o protagonista encontra uma figura paterna – ensina Chiron a nadar. Essa parte do longa nos permite associar o processo do garoto aprender a dar as primeiras braçadas no mar com ele aprendendo a superar seus medos, e em ambas a situações a presença de alguém em que se possa confiar é extremamente importante.

O diretor de fotografia James Laxton (Se A Rua Beale Falasse), faz um excelente uso das cores. Para exemplificar isso podemos analisar a cena em que Paula, mãe de Chiron, é vista banhada em vermelho ao sair do quarto onde provavelmente estava com um cliente (ela se prostitui para bancar seu vício em drogas).



AS CONQUISTAS DE MOONLIGHT

Moonlight: Sob a Luz do Luar ganhou o Oscar de Melhor Filme.

Após duas edições do Oscar criticadas pela falta de diversidade entre os indicados, Moonlight: Sob a Luz do Luar foi o grande vencedor na categoria principal da noite da premiação em 2017, desbancando o favorito La La Land de Damien Chazelle. O filme foi indicado em oito categorias e venceu em três: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali.

Barry Jenkins foi o quarto diretor negro a concorrer na categoria de Melhor Direção – os outros foram John Singleton, por Os donos da Rua (1991); Lee Daniels, por Preciosa: Uma História de Esperança (2010); e Steve McQueen, por 12 Anos de Escravidão (2014). Um feito inédito alcançado pelo longa foi a indicação da primeira mulher negra para disputar a estatueta de Melhor Montagem, a Joi McMillon infelizmente não venceu, mas com certeza fez história.



“NÓS SOMOS AQUELE GAROTO”

A jornada de Chiron que vemos no filme é baseada na vida do diretor e do criador da peça que deu origem ao roteiro – ambos cresceram em bairros periféricos de Miami e também tiveram mães viciadas em drogas -, exatamente por conta disso a história é contada com tanta propriedade. Por terem compartilhado a mesma vivência a qual o protagonista está inserido no longa, Barry e Tarell fizeram com que fosse possível imprimir veracidade ao tratamento dos fatos.

Após a cerimônia do Oscar 2017, Barry Jankins divulgou o discurso que tinha preparado e não leu por causa da confusão na hora de anunciar o filme vencedor da noite. No texto, o diretor fala sobre a relação dele com o personagem e sobre sonhos.  Leia-o na íntegra abaixo:

“Tarell [Alvin McCraney] e eu somos Chiron. Nós somos aquele garoto. E, quando você assiste Moonlight, você não supõe que um garoto que cresceu como e onde crescemos iria crescer e criar uma obra de arte que ganha Oscar. Eu falei muito disso, e eu tive de admitir é que introjetei aquelas limitações em mim mesmo, eu neguei aquele sonho a mim mesmo. Não você, não qualquer outra pessoa – eu. E então, a todas as pessoas que, assistindo a isso, se enxergarem em nós, deixem que isso seja um símbolo, uma reflexão que leve vocês a amar a si próprio. Porque fazer isso pode ser a diferença  entre sonhar e, de alguma forma, graças à Academia, realizar sonhos que vocês nunca se permitiram ter. Amor.”

Nossa nota

Confira o trailer legendado abaixo:

Moonlight: Sob a Luz do Luar está disponível no catálogo da Netflix. E aí, o que achou da recomendação desta semana? Conta para a gente aqui nos comentários e lembre-se de deixar sua avaliação!

Nota do publico
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