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    CRÍTICA – Brightburn: Filho das Trevas (2019, David Yarovesky)

    Já imaginou um Superman do mal “full pistola” aterrorizando a população da Terra? Então você precisa assistir Brightburn: Filho das Trevas.

    Veja também nossa crítica em vídeo:

    O filme conta a história de Tori e Kyle Breyer, interpretados por Elisabeth Banks e David Denman, respectivamente, um casal infértil que recebe uma bênção, ou melhor, uma maldição dos céus, um alienígena com superpoderes e com o intuito de dominar a humanidade.

    Brightburn já no primeiro arco nos mostra o desenvolvimento de Brandon Breyer (Jackson Dunn), um garoto que foi criado com muito amor por seus pais, inteligente e, como todo o nerd, que sofre bullying na escola e é considerado esquisito por seus colegas de classe. Entretanto, ao atingir a puberdade, Brandon descobre que veio de outro planeta e que seus pais nativos são seres super poderosos, fazendo com que o jovem mude sua personalidade doce e se torne um vilão perverso e sem escrúpulos.

    David Yarovesky acerta nas questões de direção, assim como os roteiristas que trabalham muito bem o desenvolvimento do protagonista da trama. Como em todos os filmes de terror, temos o clichê de uma mãe incrédula que ama seu filho acima de tudo e um pai que descobre aos poucos a ameaça que está por vir. Mesmo com tais clichês, Brightburn: Filho das Trevas não é um filme brega, tampouco um filme batido, pois os detalhes técnicos de direção e CGI são sensacionais. Os poderes de Brandon são muito bem explorados em tela e o gore é grotesco, nos deixando incomodados com a veracidade das cenas, algo extremamente positivo nos filmes do gênero.

    Em questões de atuação, Jackson Dunn é o grande destaque da trama, uma vez que demonstra as diversas camadas do jovem vilão. Jackson consegue nos passar as diversas facetas do personagem: no início, um menino doce e amoroso, inteligente e incompreendido e, após o surgimento dos poderes, um ser perverso e sem nenhum remorso, que mata suas vítimas por benefício próprio, com uma frieza digna de todo serial killer de um filme slasher.

    Brightburn trabalha a questão da puberdade e a descoberta dos poderes como uma questão filosófica, nos mostrando as mudanças de comportamento, o medo, confusão, raiva e criação de personalidade em paralelo à descoberta dos superpoderes de Brandon, uma sacada genial da equipe do filme.

    Como nem tudo são flores, o desenvolvimento arrastado do primeiro e segundo atos tornam o filme um pouco cansativo, pois mesmo o filme tendo apenas 01h31min, o espectador sente que as horas não passam em alguns momentos.

    A trama um pouco rasa e os diálogos rápidos e simplórios também são um ponto fraco no longa de Yarovesky, mas nada que possa atrapalhar a experiência de quem assiste o filme. As técnicas de filmagem e direção, o CGI e gore, e principalmente o uso criativo dos poderes de Brandon deixarão os fãs de quadrinhos e de filmes de terror com uma experiência relevante e satisfatória ao final da película.


    Brightburn: Filho das Trevas 
    é divertido e necessário nós dias atuais de saturação dos filmes de super-heróis e de terrores sobrenaturais e com certeza vale a pena ser visto pelos amantes dos dois gêneros.

    Confira o trailer legendado:

    Brightburn: Filho das Trevas chega aos cinemas nesta quinta. Lembre-se de voltar aqui para deixar seus comentários e também avaliar o filme!

    The Long Walk: Adaptação de livro de Stephen King encontra seu diretor

    A nova adaptação do livro de Stephen King, The Long Walk encontrou seu diretor. Publicado em 1979 sob seu pseudônimo Richard Bachman, o livro de King é ambientado em um futuro distópico em uma América sob um regime totalitário onde 100 jovens competem em uma competição anual de caminhada. Durante a competição, eles precisam manter a velocidade de caminhada de 4 milhas por hora. A falha resulta em um aviso, e após receber três avisos em menos de uma hora, você leva um tiro. É sombrio, brutal e é sem dúvidas uma das histórias de Stephen King.

    A New Line confirmou a adaptação de The Long Walk por mais de um ano, com um roteiro de James Vanderbilt (roteirista dos filmes O Espetacular Homem-Aranha, Independence Day: O Ressurgimento), que seria co-produzido por Bradley Fischer e William Sherak.

    A adaptação do estúdio de um livro de King, IT: A Coisa, foi um enorme sucesso em 2017, com o filme desbancando O Exorcista como o filme de terror +18 com maior arrecadação da bilheteria de todos os tempos. Conseqüentemente, outra adaptação de Stephen King faz muito sentido.

    Faz um tempo desde que a New Line atualizou os fãs de terror a respeito do status de The Long Walk, mas a Deadline agora confirmou que o estúdio contratou o diretor norueguês André Øvredal.

    Øvredal tem um forte background do gênero terror, tendo já dirigido Trollhunter (2012) e A Autópsia (2016). Ele também dirigiu o filme que será lançado em breve Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro, co-roteirizado e co-produzido pelo diretor vencedor do Oscar, Guillermo del Toro.

    A adaptação da New Line de The Long Walk é apenas uma das três adaptações do estúdio das obras de Stephen King que estão sendo desenvolvidas. Ainda esse ano, IT: Capítulo Dois – a tão esperada sequência de IT – que King já parece ter dado seu selo de aprovação. Eles agora receberam luz verde para adaptar um clássico de King sobre vampiros, A Hora do Vampiro com James Wan produzindo e o roteirista de IT, Gary Dauberman.

    As adaptações de King estão em alta em Hollywood no momento. Apenas alguns anos após o lançamento de A Torre Negra, Jogo Perigoso e o remake de Cemitério Maldito. O amor da indústria por escritores de terror mostram que Hollywood não deve parar tão cedo. Junto dos três filmes da New Line, adaptações de Doutor Sono e In the Tall Grass (um livro que King escreveu junto com seu filho Joe Hill) serão lançados esse ano. As adaptações de Os Estranhos, A Dança da Morte e LOVE: A História de Lisey também estão em desenvolvimento.

    World War Z: Game vendeu quase 2 milhões de unidades em um mês

    As vendas de World War Z tem se acumulado, e já chegaram perto de atingir a marca de 2 milhões de unidades vendidas em apenas um mês. O sucesso de lançamento da Saber Interactive, lançado em 16 de Abril e foi bem recebido pelo público, desde os jogadores, até os críticos.

    O marco das últimas vendas é a cereja no topo de um mês de boas notícias. World War Z estrelou como primeiro na lista de mais vendidos no Reino Unido quando foi lançado. E se saiu bem no PC também, apesar de ser um exclusivo da Epic Store. O jogo cooperativo em terceira pessoa se baseia muito no livro de 2006 e o filme que é adaptação, lançado em 2013.

    A narrativa gira em torno de um grupo de personagens lutando para sobreviver em um apocalipse zumbi em cidades como Nova York, Jerusalém, Tóquio e Moscou. Se inspirando no game cooperativo Left 4 Dead, que permitia que 4 jogadores trabalhassem juntos em uma zona com ondas densas de zumbis. Os mortos podem até mesmo subir um nos outros para chegar em áreas mais altas, assim como no filme.

    A publisher Focus Home Interactive revelou que World War Z já se tornou o maior título de sucesso da desenvolvedora até hoje. Para comemorar, a equipe lançou um vídeo falando das críticas do game, e o sucesso comercial. Eles também prometeram conteúdos para infectar o game no futuro, tal como um novo tipo de inimigo e uma missão adicional em Tóquio.

    Confira o vídeo abaixo:

    Uma das atualizações do game, trarão uma nova dificuldade, a dificuldade seis crânios, modos de desafio semanal e novos itens cosméticos. Um novo modo sobrevivência misterioso com ondas. Mais pra frente, jogadores ganharão a habilidade de trocar de classes durante partidas PvPvZ (em que duas equipes de jogadores são colocadas contra zumbis atacando de ambos os lados). Melhoramento de qualidade de vida que contarão com a introdução de lobbies privados e Campo de Visão.

    Games de licenciados de franquia nem sempre se saem bem, mas World War Z parece ter fugido disso, se tornando uma das surpresas mais agradáveis desse ano.

    A Saber Interactive se aperfeiçoou não só no que se refere à fazer essa IP funcionar, mas também seguiu com sucesso na ainda poderosa fórmula de Left 4 Dead. Agora que os problemas iniciais dos servidores parecem ter ficado para trás, os jogadores não devem se desapontar no que se refere à matar zumbis por muito tempo.

    Dark Crystal: Age of Resistance | Netflix divulga novidades sobre a série

    Há algum tempo que não temos nenhuma atualização a respeito da série que será um prefácio da série Dark CrystalO Cristal Encantado, mas a gigante de streaming agora anunciou que a série com sub-título: Age of Resistance, estreará no dia 30 de Agosto.

    Confira as seis novas imagens promocionais, e confira o enorme e incrível elenco de dublagem da série.

    O trio principal de personagens da série são os Gelflings, chamados Rian, Brea e Deet; que serão dublados por Taron Egerton (Kingsman), Anya Taylor-Joy (Vidro), Nathalie Emmanuel (Game of Thrones), respectivamente. E se juntarão a eles uma incrível lista de atores famosos que incluem Mark Hamill, Helena Bonham-Carter, Toby Jones, Alicia Vikander, Simon Pegg e Andy Samberg.

    Os personagens Gelflings são: Natalie Dormer, Caitriona Balfe, Helena Bonham-Carter, Harris Dickinson, Eddie Izzard, Theo James, Toby Jones, Shazad Latif, Gugu Mbatha-Raw, Mark Strong, Alicia Vikander.

    Os Skeksis e Místicos: Mark Hamill, Andy Samberg, Harvey Fierstein, Ralph Ineson, Jason Isaacs, Keegan-Michael Key, Ólafur Darri Ólafsson, Simon Pegg.

    “O mundo de Thra está morrendo. O Cristal da Verdade está no coração de Thra, a fonte de um poder imenso. Mas está danificado, corrompido pelos malignos Skeksis, e doenças se espalharam pela terra. Quando três Gelfling descobrem a terrível verdade por trás do poder de Skeksis, uma aventura se desenrola, incitando as fagulhas de uma rebelião e uma épica batalha pelo planeta tem início.”

    Confira abaixo as primeiras imagens de Dark Crystal:

    Dark Crystal: Age of Resistance | Data de estreia e imagens da série da Netflix Dark Crystal: Age of Resistance | Data de estreia e imagens da série da Netflix Dark Crystal

    CRÍTICA – Days Gone (2019, Bend Studio)

    Days Gone foi anunciado originalmente na E3 2016 no stand da PlayStation como um dos exclusivos da Sony. O game da Bend Studio foi atingido pelo hype nos primeiros meses após o lançamento de um gameplay que apresentava uma enorme horda de zumbis, e mostrava pela primeira vez um número gigantesco de adversários a serem enfrentados na tela.

    Ao enfim ser lançado em 26 de abril de 2019, quase três anos após seu anúncio, o game se mostra um pouco menos do que esperávamos.

    A HISTÓRIA

    CRÍTICA - Days Gone (2019, Bend Studio)

    Somos apresentados ao mundo de Days Gone pelos olhos de Deacon St. John, um dos sobreviventes de um apocalipse zumbi, que parece transitar tranquilamente entre as mais diversas esferas da sociedade resistente, concentrada em sua maioria em assentamentos distante dos centros das grandes cidades.

    Deacon faz parte de um mundo maior, e se prova uma ferramenta importante para a sobrevivência e manutenção dessa perseverante sociedade, que se mantém dos espólios de um mundo a beira do fim.

    A AMBIENTAÇÃO

    CRÍTICA - Days Gone (2019, Bend Studio)

    Quando apresentados ao mundo de Days Gone, em seus primeiros minutos, vemos o começo do fim pelos olhos de Deacon e ao longo da história, vemos flashes dos eventos que antecederam a catástrofe que dizimou e transformou mais da metade dos seres vivos da Terra.

    O game acerta ao nos apresentar um mundo dizimado de forma lenta, nos apresentando inicialmente à pequenos centros urbanos, ou até mesmo paradas a beira de estradas, a fim de nos ambientar e nos preparar para o que está por vir.

    Ruas desertas, casas vazias, carros abandonados no meio da rua, Frenéticos e Lagartixas — isso mesmo, um tipo específico de zumbi são chamados Lagartixas pela forma que andam. Os itens encontrados no que parece ser “sorte”, nos mostra como cada coisa no jogo foi pensado, nada estava ali por acaso. 

    Um dos elementos mais importantes do game, é a nossa moto e a forma como precisamos cuidar dela a fim de prosperar.

    Os mais mal acostumados — como esse que lhes escreve — com viagens rápidas em games de mundo aberto que facilitam e aceleram o gameplay, nos fazem provavelmente irá sentir que o tom de Days Gone é lento; diferente de games como The Witcher 3, Horizon Zero Dawn, ou até mesmo Assassin’s Creed Odyssey, em que podemos estar do outro lado do mapa que a nossa montaria rapidamente “spawna” e nos leva rapidamente para o nosso destino. 

    Se você acha que o termo “cuidar” foi usado ao pé da letra, não se engane, é necessário realizar reparos e encontrar galões de gasolina, se você pretende ir longe nesse mundo pós-apocalíptico.

    JOGABILIDADE

    A jogabilidade de Days Gone pode te fazer estranhar a física desse mundo em seus primeiros momentos. As curvas repentinas a serem feitas, podem demorar um pouco mais, seja por falta de costume, ou até mesmo por falta de melhorias. A falta de tração nas rodas da moto podem te fazer sair em algumas curvas de forma que algumas melhorias seja necessárias conforme a progressão as permite.

    O game tem como seu core, o sistema de looting, que é de extrema importância para a progressão do jogador. Ao nos deparar com os escombros de um mundo prestes ao chegar ao fim, nos resta tentar encontrar maneiras de sobreviver, sejam elas saqueando desde itens que ficam sobre mesas, até mesmo roubando munições de porta-malas de viaturas abandonas a beira de estradas.

    Um incômodo que alguns dos jogadores relataram antes do “Day One Patch“, foi da renderização em alguns momentos do game – ou a falta dela. A falta de qualidade em alguns gráficos importantes para a lore do game, incomodaram os primeiros jogadores e foi um ponto definitivo para as notas finais do game em avaliações de grandes portais da mídia e de repórteres especializados nos primeiros dias de seu lançamento.

    É compreensível em alguns momentos a queda de framerate se dê, por se tratar de um game de mundo aberto. Os assets necessários em um game para retratar um mundo próximo do nosso, podem causar uma queda nos frames – indo abaixo dos comuns 30 FPS, que todos os games rodam hoje em dia -, causando por algumas vezes uma estranheza.

    VEREDITO

    Apesar de estarmos de certa forma saturados de games ambientados em um mundo pós-apocalíptico, Days Gone inova ao nos apresentar certas mecânicas e visões diferentes de um mundo próximo de seu fim – ao menos para os humanos.

    O cuidado necessário para a progressão na história aplicada no gameplay, causam uma boa surpresa aos fãs, nos apresentando uma nova visão à um homem que não tem muito a perder, mas que tem por intuito perseverar, e não perecer naquele universo. 

    Days Gone nos surpreende ao nos motivar aos poucos para progredir em sua história, mas peca e mostra que por seus diversos atrasos, muitas alterações foram feitas, invertendo ordem de missões, tornando um pouco confusa a progressão, e até mesmo flashbacks guiados, em que na maioria das vezes não podemos controlar o personagem central Deacon St. John, nos fazendo ser meros expectadores de tudo aquilo.

    Se você tem apenas 30 minutos do dia para uma jogatina, não vá para Days Gone. Espere até ter um tempo maior, para que uma maior imersão no game seja possível. Com tempo, se jogue de cabeça, enfrente Reapers, Frenéticos, Lagartixas e outros tipos de zumbis. Mas acima de tudo, sobreviva.


    Days Gone é um exclusivo para PlayStation 4, e foi lançado no dia 26 de Abril! O game ganhará uma DLC de graça em Junho de 2019.

    Você já passou algumas horas rodando pelo Oregon controlando Deacon St. John? Se sim, conta pra gente o que achou!


    Assista também nosso gameplay:

    CRÍTICA – Time: The Kalief Browder Story (2017, Netflix)

    Sempre gostei de documentários, não sei explicar; é um tipo de programação que entretêm, que aprecio dedicar atenção. Pode ser sobre qualquer assunto, o que eu passar o olho e despertar a curiosidade eu simplesmente paro e tento me dedicar ao máximo e tirar algum proveito do assunto específico. E esse foi o caso de Time: The Kalief Browder Story.

    Nunca me considerei uma pessoa com engajamento militante, esse tipo de tarefa não condizia com o meu caráter. Sempre passei longe das dedicações em relação a temas delicados, mas tenho total noção de que no início de 2016 tive o meu gatilho para temas raciais – uma das coisas que fomentou essa questão foi o início da minha vivência através das lentes de uma máquina fotográfica.

    Desde o princípio busquei focar na estética negra (cabelos, traços, pele) e, também, na vivência. No começo foi estranho até porque nunca quis me envolver muito nessa dinâmica, mas de fato era necessário.

    Naquela época eu sabia que apenas uma câmera não serviria. Até porque, uma coisa é certa: você não nasce negro, você se descobre com o passar do tempo – e quando eu digo “com o passar do tempo” eu me refiro às experiências negativas do cotidiano de uma pessoa negra que é: lidar com o preconceito, raiva, até mesmo o machismo, hipersexualização e medo. Isso é um fato.

    Foi seguindo essa linha de pensamento que acabei me deparando com um documentário específico: A 13ª Emenda. Quando terminei de assistir pela primeira vez na plataforma de streaming Netflix o documentário produzido por Ava DuVernay – diretora do filme Selma que foi indicado ao Oscar de Melhor filme em 2015 – permaneci em silêncio por alguns minutos. E sim, eu chorei, chorei muito. Chorei de tristeza. Chorei de raiva. Só sei que chorei.

    Van Jones, advogado e autor de The Green Collar e Rebuild The Dream comentou:

    “Um pequeno país com 5% da população mundial ter 25% dos prisioneiros do mundo? Um em cada quatro? Um em cada quatro seres humanos com suas mãos nas grades, algemados, estão presos aqui, na terra da liberdade.”

    #52filmsbywomen 40 – A 13ª Emenda (2016, Ava Duvernay)

     

    Nessas quase duas horas foram apresentados gráficos estatísticos, estudos, e depoimentos de sociólogos, advogados, ativistas, professores, entre outros, que demonstram a prática do racismo institucional nocivo ainda vigente nos EUA. Não só isso, muitas histórias verídicas de anos atrás até os tempos de hoje foram mostradas. Mas de longe o caso que mais me chamou atenção, e que causou uma certa revolta em mim, foi o de Kalief Browder.

    Em 2010, aos 16 anos de idade, Kalief Browder foi detido e posteriormente acusado de ter furtado uma mochila. Aguardando seu julgamento Kalief foi enviado para Rickers Island, uma das mais perigosas penitenciárias dos EUA.

    É em cima desse fato, e com o mesmo teor ácido de realidade que o documentário Time: The Kalief Browder Story caminha.

    A 13ª Emenda e Time: The Kalief Browder Story andam de mãos dadas em diversos aspectos, porém o segundo documentário usa o caso de Kalief para debater muitos erros dentro do sistema de justiça. A história de Kalief em Time: The Kalief Browder Story é bem mais aprofundada, nela temos a total noção do tamanho do sofrimento que um rapaz de 16 anos teve que passar ao entrar em um local onde supostamente era para ser “reeducado” para ser inserido novamente na sociedade, mas, ao contrário das expectativas, a prática se mostrou outra.

    Ao total o documentário conta com seis episódios, cada um deles procura focar em um determinado momento do tempo que Kalief passou em Rickers Island e como isso não só o afetou, como também sua família.

    Kalief Browder

    Jay-Z, produtor do documentário Time: The Kalief Browder Story comentou

    “Às vezes nossos profetas vêm na forma de energia jovem e subdesenvolvida que ensinará a todos nós adultos como amar melhor e ter mais compaixão. E Kalief Browder foi um profeta.”

    Em 15 de maio de 2010, a polícia local parou Kalief e um amigo, no bairro Bronx, em Nova York. Para Kalief Browder era só mais um procedimento “Stop-and-Frisk“– que é quando um agente oficial tem o direito de deter por alguns instantes uma pessoa sob alguma suspeita envolvendo um crime. O problema é que essa prática em solo americano é bastante controversa, já que na maioria dos casos são os negros, latinos e outras minorias que são autuados como suspeitos. Em outras palavras, você pode ser levado, “conforme a lei”, interrogado e posteriormente liberado, se você for um suspeito.

    Os policiais estavam respondendo a um chamado de Roberto Bautista

    “Dois homens negros pegaram a mochila do meu irmão…”

    Mesmo sob a negação de Kalief ele foi encaminhado para a delegacia onde permaneceu por algumas horas. Um dos diversos problemas havia começado no momento da abordagem, pois no instante em que ela ocorreu a vítima estava no banco de trás da viatura dos policiais, e vale ressaltar que o irmão de Roberto Bautista não tinha certeza se era Kalief Browder, apenas que eram negros os dois homens que o assaltaram.

    O outro problema é que o roubo dos pertences – 700,00 dólares, um cartão de crédito e um iPod – do irmão de Roberto havia sido duas semanas antes, por volta das duas horas da madrugada, horário que Kalief alegava estar em casa.

    Dezessete horas após ser encaminhado para a delegacia Kalief Browder foi interrogado por um policial e um promotor. No dia seguinte Kalief foi indiciado por roubo. Por estar em liberdade condicional o rapaz não foi liberado e a fiança determinada em US $ 3.000,00 dólares. A família de Kalief levou dias para conseguir US $ 900,00 dólares. Por conta da condicional a fiança acabou por ser negada e Kalief Browder teve que aguardar o julgamento preso em Rickers Island.

    A natureza predatória do sistema é apresentada logo no primeiro episódio, ali podemos ver como encarceramento em massa lucra ao mesmo tempo em que criminaliza um indivíduo. E não foi diferente com Kalief, ele tinha duas opções: fiança (para a qual não possuía dinheiro), ou se declarar culpado de um crime que ele sabia que não havia cometido.

    Como qualquer ser humano, Kalief tinha direito a um advogado, o problema é que sua família não podia pagar. Por conta disso Brendan O’Meara foi nomeado como seu Defensor Público.

    Kalief Browder sempre manteve sua posição em relação a sua inocência, e embora um promotor público assistente tenha informado que o caso fosse “relativamente simples” isso não impediu que um erro da Procuradoria do Distrito do Bronx adiasse o julgamento dele.

    Rickers Island é considerado por muitos uma das piores prisões dos EUA por ter uma “cultura profunda de violência e maus tratos” e foi nesse ambiente que Kalief passou seu confinamento.

    Em julho de 2010, quase oitenta dias após ser preso, o processo de Kalief teve início sob a acusação de roubo. Ele alegou inocência. Houveram diversos momentos onde a promotoria lhe ofereceu acordos para que assim ele assumisse a culpa e cumprisse a pena, mas Kalief Browder não aceitou. Ele queria um julgamento correto, ele queria provar a sua inocência. Mas o problema é que por mais que o caso parecesse “simples demais”, Kalief teve que passar por um inferno físico e psicológico.

    Em outubro de 2010, Kalief Browder se envolveu em uma briga com um membro de uma gangue dentro da prisão, no final daquele dia Kalief o acertou com um soco, como resposta a isso ele foi atacado por 15 membros dessa gangue. Constantemente Kalief passou por diversos maus tratos lá dentro, tanto de detentos como dos guardas.

    Kalief falou sobre sua experiência em entrevista ao The New Yorker:

    “Eu perdi a minha infância, perdi a minha felicidade. No fundo, eu estou uma bagunça porque eu sinto que tenho 40 anos. Eu sinto que sou um velho crescido. Estou mentalmente com cicatrizes agora. É como eu me sinto. Porque certas coisas mudaram sobre mim e elas podem não voltar.”

    Não teve que apenas sobreviver lá dentro, teve que lidar com o fato da justiça o tratar com total negligência. Por mais simples que fosse, o caso de Kalief foi prolongado mês após mês. Era desumano, pois ele precisava sobreviver ao inferno que era Rickers Island e sobreviver à ansiedade e à dúvida sobre seu caso ser levado a sério em algum momento.

    Kalief Browder

    Time: The Kalief Browder Story nos mostra também o impacto psicológico do confinamento sofrido por Kalief. Ao todo, dos três anos que ele passou em Rickers Island, dois foram na solitária. As Nações Unidas definem qualquer período superior a 15 dias seguidos em confinamento solitário como “tortura”.

    Quando Kalief Browder tinha 17 anos, sua primeira permanência cumprida em confinamento solitário durou mais de 300 dias. Nesse período Kalief ficou quase três semanas sem tomar banho, passava fome, pois não achava certo ter que comer restos de alimento de outros detentos, mas se ousasse reclamar era motivo de surra por parte dos guardas da prisão.

    A falta de evidência física (pertences da vítima) e o constante reagendamento da data do julgamento – chegando a um ponto onde as razões eram simplesmente os promotores pedirem mais tempo “por não se sentirem preparados para o julgamento” ou por estarem ocupados com outro caso ou até mesmo de férias – só serviram para deixar o caso mais absurdo, e a medida que o tempo avançava Kalief permanecia em Rickers Island, sobrevivendo, passando fome e sendo vítima de maus tratos.

    Em 2010 e 2012 Kalief Browder tentou suicídio, com um lençol amarrado a uma lâmpada. De acordo com seus relatos, em uma das tentativas, ele alega que foi incentivado a tentar tirar sua vida por um dos guardas e não só isso, após sua tentativa os guardas invadiram a sua cela, o jogaram na cama e o espancaram repetidamente.

    Kalief em entrevista ao The New Yorker falou sobre esse episódio:

    “Os guardas estavam me dizendo: ‘Vá em frente e pule, você está pronto, certo, vá em frente e pule’. E então eu estava com medo de saltar. Eu nunca tentei suicídio antes, e eu estava com medo de pular. Eles disseram: ‘Se você não pular, nós iremos aí de qualquer maneira, então você pode ir em frente e pular, vá em frente e pule. Você quer cometer suicídio, então vá em frente.’ No fim eles entraram.”

    Por que você não pulou?

    “Porque eu estava com medo naquele momento.”

    Do que você estava com medo?

    “De morrer.”

    Kalief Browder

    Em 29 de maio de 2013, por falta de testemunhas, provas e até mesmo pela promotoria do Bronx não conseguir encontrar o paradeiro de Bautista, Kalief foi solto, mas o dano já havia sido feito.

    O confinamento na solitária é uma circunstância extrema para um adulto conseguir enfrentar. Kalief Browder tinha 16 anos quando entrou em Rickers Island, onde permaneceu por 3 anos. Um garoto cuja mente ainda estava se desenvolvendo. Com 16 anos de idade ele passou 23 horas por dia sozinho, em uma cela vazia, sem absolutamente nada para fazer ou com quem conversar. A reclusão solitária prolongada ocasiona alterações na química do cérebro, podendo até retardar certas funções neurológicas, aumentando as chances de que a vítima venha a desenvolver doenças mentais graves – como depressão, irritabilidade, paranoia, alucinações, ansiedade, entre outros.

    Venida Browder, mãe de Kalief, relata em um dos episódios que mal pôde acreditar quando seu filho voltou para casa. Parecia um sonho, após três longos anos tentando provar a inocência do filho ele simplesmente, sem aviso algum, aparece em sua porta. Venida estava feliz, mas sabia que embora Kalief estivesse vivo, agora as marcas do que ele passou dentro da prisão dificilmente desapareceriam. E de fato não desapareceram.

    Kalief Browder

    Seu comportamento era outro agora, de um rapaz alegre, interativo e brincalhão, Kalief Browder passou a ser mais introvertido, confuso e paranoico. Seus traumas foram brevemente reprimidos por conta de medicamentos, mas a dor ainda estava lá.

    Logo após sair da prisão, Kalief e seu irmão Akeem encontram um representante legal – Paul V. Plestia – e entraram com uma ação judicial contra o Departamento de Polícia da Cidade de Nova York, o Procurador do Distrito do Bronx e o Departamento de Correções.

    Paul V. Prestia em entrevista ao The New Yorker falou:

    “Quando você passa três anos preso, com todos os detalhes horríveis que ele sofreu, é inacreditável que isso tenha acontecido com um adolescente em Nova York. Ele não foi torturado em uma prisão em outro país. Foi bem aqui!”

    Era questão de tempo para que a história de Kalief tivesse o conhecimento do público. Não demorou muito para que o seu caso tivesse a devida atenção da mídia. Em outubro de 2014, Jennifer Gonnerman, da revista norte-americana The New Yorker, entrevistou Kalief. Em entrevista ao jornal, ele relata todos os momentos em que teve que sobreviver dentro da prisão. A revista conseguiu obter vídeos da segurança de Rickers Island que comprovaram os abusos sofridos por Kalief, em um deles os guardas da prisão o agredindo após a tentativa de suicídio e, em outro, um grupo de detentos o espancando.

    As cicatrizes deixadas pelo tempo em que passou na cadeia ainda estavam abertas. O fato de não estar mais atrás das grades não tornou sua vida fácil. Kalief desenvolveu paranoia após ser solto de Rickers Island.

    Kalief Browder costumava frequentar a Faculdade Comunitária do Bronx, mas por causa dos problemas mentais que começaram a surgir enquanto esteve preso, ele parou de frequentar as aulas. Ele passou uma boa parte dos anos seguintes entrando e saindo de instituições psiquiátricas.

    Kalief precisava expor todo horror que viveu em Rickers Island: como teve que sobreviver lá dentro, a pressão, a agonia e a ansiedade relacionada ao desejo de liberdade. Ele queria falar sobre isso desde que isso trouxesse alguma mudança em sua vida. Sua vontade era confrontar o sistema, não foi por orgulho que ele passou três anos em um inferno, sua felicidade foi tomada, seus direitos negligenciados. Em momento algum lhe foi concedido um pedido de desculpas, nem do governo, nem dos procuradores e muito menos de Rickers Island. Ninguém.

    No dia que foi solto, Kalief Browder teve o mínimo de detalhe sobre o motivo de ser solto. Ele apenas foi liberado sem mais nem menos, somente com um bilhete do metrô. Era revoltante saber que depois de três anos tentando ter um julgamento justo e defendendo seus princípios, um ser humano que foi trancafiado, torturado e injustiçado sai do lugar que o manteve preso sem nenhuma explicação.

    O vazamento de vídeos que mostravam os maus tratos sofridos foram a público. Isso serviu para que medidas fossem tomadas para que outro caso semelhante ao não acontecesse novamente.

    Não era sobre ter fama, ele queria justiça. Não era uma tarefa fácil, nunca foi. Lidar com o sistema exigia fibra, mas após ter permanecido preso por três anos Kalief teria essa fibra? Digo, um rapaz, agora com 21 anos, teria determinação para seguir em frente após tudo que ele passou? Como ia conseguir lidar com a pressão de uma vida normal sabendo que Rickers Island ainda estava dentro dele?

    Com toda essa atenção que estava recebendo, seguir em frente não era tão fácil. Um outro fato que não agregou em nada, apenas serviu para complicar as coisas ainda mais, foi o interesse do pai, Everett Browder, no valor da indenização do processo que Kalief estava movendo. Ele e seu pai nunca se deram bem, Everett abandonou Venida quando ele era mais novo e é dito no documentário que Everett possuía a quantia certa para a fiança de Kalief, ele apenas não acreditou que seu filho fosse inocente.

    Fora da cadeia Kalief Browder precisou lutar pela sua vida em dois momentos; um deles foi quando um morador de seu bairro disse algo que ele não gostou e ambos entraram em luta corporal. Kalief levou um tiro à queima roupa no abdômen, mas sobreviveu. Em outro conflito o rapaz teve a lateral do rosto cortada por uma faca por alguém que queria dinheiro emprestado. Com toda atenção que a mídia estava dando ao caso de Kalief muitos começaram a achar que ele já havia recebido alguma quantia do valor referente ao processo que estava sendo movido. 

    Era surreal, Kalief teve que lutar por sua vida enquanto esteve preso, e agora, depois de conseguir sua liberdade, precisava lutar fora de Rickers Island. É justo alguém passar por isso? Após sair da prisão ele buscou ter uma vida normal, mas o trauma gerado pelo tempo perdido não desapareceria, e quanto mais ele lutava mais ficava cansado. Kalief era uma pessoa normal antes de ser preso, mas quando ele saiu não havia mais como recuperar o que foi perdido lá dentro. Era um fato: o sistema havia falhado com ele. O mundo falhou.

    Kalief Browder tentou suicídio outras vezes após sair da prisão, mas foi em 6 de junho de 2015, em que ele conseguiu de fato tirar a própria vida, em sua casa, no Bronx.

    Venida Browder encontrou seu corpo.

    “O que Rickes Island fez com o seu filho? Destruíram ele. Destruíram ele mentalmente. Ele passou três anos no inferno. Três anos. Parece que você está no inferno agora.”

    Venida em entrevista à ABC NEWS:

    “Eu vou estar no inferno até o momento em que eu morrer, pois encontrei meu filho enforcado. Não foi uma pessoa, foi o sistema inteiro que matou meu filho.”

    Venida Browder tinha problemas cardíacos, seu coração funcionava apenas 25%. Após tudo o que aconteceu a Kalief, ela deixou-se abater. Ela queria justiça também, mas infelizmente veio a falecer em outubro de 2016.

    Após a morte de Venida o processo teve que ser interrompido, pois seria necessário ser aberto um inventário e designado um novo responsável legal para assumir o caso.

    Paul V. Prestia:

    “Na minha opinião, Venida literalmente morreu por conta de seu coração partido, porque a tensão desta cruzada, juntamente com a tensão dos processos pendentes contra a cidade e a dor da morte de seu filho, Kalief, foram demais para ela suportar.”

    Muitas pessoas, sob pressão de um promotor acabam aceitando o acordo onde sua pena é reduzida quando você admite o crime. Mas aceitar um acordo não era uma opção.

    Kalief Browder disse:

    “Se eu tivesse me declarado culpado minha história não seria ouvida. Ninguém daria ouvidos para mim. Eu seria só mais um criminoso.”

    Após a morte de Kalief e Venida, Akeem Browder, irmão de Kalief, disse a empresa norte-americana de mídia, BuzzFeed:

    “Voltamos aos tribunais em 21 de março de 2017. O juiz provavelmente fará o que eles estão fazendo; prolongar. É o jogo que eles costumam jogar.”

    Foi difícil para mim escrever sobre esse tema, até porque ainda me encontro bastante sentido em relação ao que Kalief Browder teve que passar. Recomendo o documentário, pois a história Kalief jamais pode ser esquecida. O sistema errou, e foi preciso uma família ser totalmente destruída para que alguma ação pudesse ter sido tomada.

    Não é fácil escrever sobre Kalief, talvez nunca seja. É difícil acreditar que um rapaz de dezesseis anos precisou passar mais de mil dias em uma das piores prisões em solo americano, ser submetido a maus tratos, confinamento (que violam seus direitos civis), e não só isso, ter que lidar com a falsa esperança de que receberia algum julgamento justo – sequer ocorreu um julgamento.

    Assista ao trailer:

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