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    Deuses Americanos: Uma análise sobre a demissão de Orlando Jones, o Mr. Nancy

    Na metade de Dezembro de 2019, a notícia de que Orlando Jones, responsável por dar vida a Mr. Nancy na série Deuses Americanos – transmitida pela emissora STARZ – havia sido demitido pegou muitos fãs, incluindo eu, de surpresa.

    Diante de uma situação desse tipo é sempre importante manter-se imparcial até que todos os motivos sejam apontados, pois quando se trata do “tribunal de internet” qualquer deslize resulta em um linchamento virtual. Porém a imparcialidade que busquei manter “morreu na praia” quando o real motivo por trás da demissão foi que a raiva do personagem que Orlando interpretava “manda uma mensagem errada para negros do Estados Unidos” – palavras da equipe responsável por dirigir a série.

    Para entender melhor isso vamos voltar para a primeira temporada de Deuses Americanos, lá em meados de abril de 2017.

    Para quem não está familiarizado, a série é baseada em um romance publicado em 2001, pelo autor Neil GaimanSandman, Marvel 1602, Coraline, Lugar Nenhum. O romance é uma mistura perfeita entre drama e fantasia com uma pegada mitológica, porém um pouco mais moderna. Em resumo, a premissa da obra é que deuses e criaturas mitológicas existem porque humanos acreditam neles. Porém, a medida em que os anos se passam as crenças de seus adoradores diminuem, por conta disso novos deuses começam a surgir e diante disso uma guerra está preses a acontecer.

    Mr. Ibis, deus egípcio Thoth – Deus do conhecimento, da sabedoria e da escrita, da música e da mágica. Mr. JaquelAnúbis, Deus dos mortos e responsável por guiar a alma dos mortos no submundo. BilquisRainha de Sabá Deusa que representa o amor. Czernobog, Deus da morte da mitologia eslava. Irmãs Zorya representam a Estrela da Manhã e Estrela da Noite – na cultura eslava são duas irmãs, já na série existem três, a última representa a Estrela da Meia-Noite. Jinn que não é um Deus e sim um Ifrit do Oriente Médio. Mad Sweeney que é um Leprechaun. Mr Wednsday que nada mais é do que o próprio Odin. E por último e responsável por essa publicação: Mr. Nancy, ou Anansi, um Deus do folclore africano que representa o espirito do conhecimento de todas as histórias. Esses, entre outros deuses, fazem parte do elenco de Deuses Americanos. Mas qual é a importância de Mr. Nancy para a narrativa da série?

    Bom, para começar, Mr. Nancy é trazido para América, como é visto no segundo episódio da primeira temporada, através de um adorador que é posto na condição de escravo, sem entender o motivo pelo qual foi posto no interior de um porão de um navio o então escravo pede ajuda para Anansi. Aqui vale ressaltar que a interpretação de Orlando na pele do Deus é simplesmente de tirar o fôlego, pois não existe sutileza alguma em suas palavras pesadas quando ele se refere a história dos negros nos Estados Unidos.

    ALERTA DE SPOILER

    “‘Era uma vez um homem que se fodeu’. Gostaram dessa história? Porque essa é a história dos negros nos EUA.”

    Simples assim. O típico dedo na ferida. E ele continua.

    “Merda. Vocês ainda nem sabem que são negros. Acham que são só pessoas. Deixe-me ser o primeiro a contar-lhes que todos vocês são negros. No momento que esses holandeses puseram o pé aqui e decidiram que eles eram brancos, e vocês eram os negros, e essa é a forma gentil que eles chamam vocês… Deixe-me ilustrar o que espera por vocês na costa. Vocês chegam nos EUA, terra das oportunidades, leite e mel, e adivinhem? Vocês todos serão escravizados. Serão separados, vendidos e trabalharão até morrer. Os sortudos folgarão no domingo para dormir, foder e fazer mais escravos. Tudo isso, pelo quê? Por algodão? Anil? Por uma camisa púrpura? A única boa notícia é que o tabaco que seus netos cultivarão de graça vai dar muito câncer nesses desgraçados. E eu ainda nem comecei. Cem anos depois, vocês ainda estarão fodidos. Cem anos depois disto. Fodidos. Cem anos depois de serem libertos, ainda estão sendo fodidos nos empregos e sendo baleados pela polícia. Entendem o que estou dizendo?”

    “(…)Este cara entende. Eu gosto dele. Ele está ficando com raiva. Raiva é boa. Raiva… Faz coisas acontecerem. Vocês derramam lágrimas por Anansi, e aqui ele está dizendo a vocês que estão olhando diretamente para 300 anos de subjugação, merdas racistas e doenças cardíacas. Ele está dizendo a vocês que não há nenhuma razão para que vocês não subirem agora e cortarem as gargantas de cada um desses escrotos e atear fogo neste navio!”

    Confesso que já vi esse episódio diversas vezes, pois embora não morando nos EUA eu sou negro e é impossível não se arrepiar com a ferocidade das palavras de Mr. Nancy e suas realidades.

    Outro momento mais impactante ainda ocorre no quarto episódio da segunda temporada, onde Mr. Ibis, Bilquis e Mr. Nancy conversam em uma sala, onde no centro dela há um corpo já sem vida de uma senhora negra. Nesse momento eles debatem o quanto é importante eles se prevenirem contra a guerra que se aproxima, resultada por um sentimento de retaliação por Odin que presenciou a morte de Zorya Vechernyanya, sua amiga, e protegida de Czernobog;

    “Eu não sou um Deus… no sentido de que consigo tolerar exploração, opressão e repressão. Meus adoradores sabem… que liberdade não é gratuita. Eles sabem que a arma mais potente de controle do opressor, é a mente do oprimido. Sabem que a escravidão não é uma condição. Escravidão é uma seita. Tráfico humano é uma seita. A escravidão ganhou uma cara nova como direita alternativa. E assim, mais um se vai. A cada trinta segundos, mais uma garota negra, morena, amarela, parda, mestiça refugiada com a melanina na pele é levada embora. A cada… trinta… segundos. E para piorar, esses deslumbrantes donos de plantação ‘construíram canais’ para levar as crianças da escola para a prisão, mais rápido que uma bala. E os sortudos vão da escola para a NFL (A National Football League é a liga esportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos), onde não podem nem protestar. Foram programados desde o nascimento com uma alienação pobre, água contaminada, violência armada, brutalidade policial e trauma após trauma, após trauma. TEPT (transtorno de estresse pós-traumático)? Nada de tratamento. Desaparecido? Nada de alerta. Sozinhos. Vulneráveis. Raptados. Mais uma se vai.”

    E ele continua:

    “Minha rainha – se referindo a Bilquis. O mundo presume que os brancos são naturalmente bons. Então quando algo ruim acontece é uma boa pessoa que fez algo ruim. Presumem que os negros… são naturalmente ruins. Então quando algo bom acontece é apenas questão de tempo até que a verdadeira natureza desse animal o domine. Quanto tempo podemos esperar? Você – se referindo a Mr. Ibis – acompanha os dias numerando os anos para os escribas que registram a história humana. Vê algum progresso? (…)

    (…) Eu contei um, dois, três deuses africanos nessa sala! E dois deles querem se conter?! E deixar o trabalho duro continuar enquanto vocês vivem suas vidas boas! A guerra está aqui. Uma senhora branca morreu. Wednesday irá vingar Zorya Vechernyanya, mas se fosse uma senhora negra… como essa doce alma… o martelo de Czernobog… não bateria.”

    Voltando para a demissão de Orlando Jones. Por mais que a série conte com um elenco sensacional, ela peca no quesito de linearidade, pois sua narrativa em diversos momentos se torna confusa, mas há momentos em que você esquece desse detalhe e foca nas atuações e psicodelia. Ian Mcshane – da franquia John Wick – está no elenco e interpreta Mr. Wednesday/Odin muito bem.

    Um dos detalhes que tem um pouco a ver com o fato da demissão de Orlando é que o mesmo diz que a narrativa da história deveria ser contada pela perspectiva de Shadown Moon, o protagonista negro da série, seguindo o livro de Neil Gaiman. Outro detalhe importante é que Orlando Jones não só interpretava na série, mas também escrevia, colaborando assim na construção do roteiro de alguns episódios – pedido esse feito tanto pelo criador da obra quanto o produtor Jessie Alexander – porém, essa tarefa não seria remunerada, como manda a Lei de Associação dos Roteiristas, da qual Orlando é membro.

    Em entrevista ao Geeks Worldwide, Orlando comenta:

    Eles tinham que me pagar. Mas disseram não. Eu disse; ‘Isso é meio racista. Vocês pagam os caras brancos e eles escrevem de casa.’. A associação requer isso. É por isso que foi tão estúpido da parte deles ficarem tão bravos comigo sobre isso.

    Eu sei que o pessoal da Fremantle – produtora da série – não se importa com os personagens negros da série. Eles mesmos disseram isso para mim. Disseram que os diretores devem se concentrar na trama do Mr. Wednesday. É por isso que ele ganha destaque na 2ª temporada. A história deveria ser contada da perspectiva do Shadow Moon, e não do Mr. Wednesday. Eles disseram que rostos negros não vendem na Europa.”

    Em contra partida, a Fremantle negou as acusações de Orlando:

    As histórias que estamos planejando para a próxima temporada evoluíram continuamente para acompanhar a complexa mitologia do material de origem. Jones não fará mais parte da série porque Mr. Nancy, entre outros personagens, não aparecem na parte do livro que estamos focando na 3ª temporada. Não há nenhuma motivação oculta em nossa decisão.”

    Vale ressaltar que até o momento Orlando Jones não foi notificado pela produtora Fremantle de sua liberação do seu contrato – contrato esse assinado para três temporadas para a série – impedindo-o de assinar como membro regular de para outras séries/produções.

    Relembre os incidentes mais importantes desde 1965, via G1:

    11-17 de Agosto 1965

    Watts – Los Angeles. A detenção por policiais brancos do jovem negro Marquette Frye, durante uma operação na estrada provoca uma revolta no gueto de Watts, em Los Angeles. Durante seis dias, esse bairro da periferia se transforma em uma zona de guerra, onde os guardas nacionais realizam patrulhas em jipes, armados com metralhadoras. É declarado toque de recolher. O saldo é dramático: 34 mortos, muitos feridos, 4.000 detidos e danos estimados em mais de US $ 40 milhões.

    12-17 de Julho 1967

    Newark – Nova Jersey. Uma briga entre dois policiais brancos e um taxista negro desencadeia uma revolta no gueto de Newark. A violência dura cinco dias com um registro de 26 mortos e 1.500 feridos.

    23-28 de Julho 1967

    Detroit – Michigan. Distúrbios eclodem em Detroit após uma intervenção policial na rua 12, de maioria negra. Guardas nacionais e militares são mobilizados. Os confrontos deixam 43 mortos e mais de 2.000 feridos. Os distúrbios se estendem para vários estados, entre eles Illinois, Carolina do Norte, Tennessee e Maryland. Ao longo de 1967, 83 pessoas morrem em episódios de violência racial em 128 cidades.

    4-11 de Abril 1968

    Após o assassinato do pastor Martin Luther King em Memphis (Tennessee) em 4 de Abril, a violência se espalha por 125 cidades dos Estados Unidos, deixando pelo menos 46 mortos e 2.600 feridos. Em Washington – onde dois terços da população é negra – são registrados incêndios intencionais e saques. Um dia depois, as desordens se estendem para o centro da cidade e chegam a 500 metros da Casa Branca. O presidente Lyndon B. Johnson recorre à 82ª Divisão Aerotransportada do Exército para controlar a situação.

    17-20 de Maio 1980

    Liberty City – Miami. Três dias de revolta deixam 18 mortos e mais de 400 feridos no bairro negro de Liberty City, em Miami (Flórida). A violência eclodiu após a absolvição em Tampa de quatro policiais brancos acusados de espancar até a morte um motociclista negro que havia furado um sinal vermelho.

    30 de Abril/1º de Maio 1992

    Los Angeles. A absolvição de quatro policiais brancos que no dia 3 de Março de 1992 haviam matado um motorista negro, Rodney King, incendeia a cidade de Los Angeles. A violência se propaga para São Francisco, Las Vegas, Atlanta e Nova Iorque, deixando 59 mortos e 2.328 feridos.

    9 de Abril 2001

    Cincinnati – Ohio. Um policial branco mata um jovem negro de 19 anos, Timothy Thomas, durante uma perseguição em Cincinnati. Seguem-se quatro dias de violência durante os quais 70 pessoas ficam feridas. Timothy, que não estava armado, foi o décimo quinto negro abatido pela polícia desde 1995.

    9-19 Agosto 2014

    Ferguson – Missouri. A morte do jovem negro Michael Brown, de 18 anos, baleado por um policial provoca dez dias de violência em meio à população negra e às forças de segurança, que utilizam fuzis e veículos blindados. No dia 24 de Novembro, ocorrem novos distúrbios em Ferguson após o anúncio do abandono das acusações contra o policial.

    Então não, a mensagem de Mr. Nancy não passa uma ideia errada, mas sim a dura realidade dos negros nos EUA, na terra da liberdade. Achar que a ferocidade do personagem não é pertinente – principalmente se olharmos a história dos negros nos EUA – é agir de extrema má fé. É basicamente tentar lucrar em cima de um fato existente e virar a cara para as consequências que aquilo causou.

    Aqui no Brasil não é muito diferente, em tempos de seletividade penal – onde 0,6 gramas de maconha e uma garrafa de Pinho Sol gera 11 anos e 3 meses de condenação, enquanto uma agressão de um famoso a sua companheira, gravida, gera 18 dias de regime semiaberto – nada mais me surpreende, principalmente quando o agressor determina o quando o agredido tem lugar de voz.

    Estou vivendo o suficiente para ver que no mundo de hoje, quando se sofre qualquer tipo de preconceito, a parte que oprimi determina até onde é conveniente ser exposta.

    Seguimos.



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    Werewolf by Night: Marvel anuncia HQ em parceria com integrante do Black Eyed Peas

    A Marvel está lançando uma nova minissérie de Werewolf by Night em 2020. A série oferece uma nova visão do conceito do Lobisomem, projeto idealizado por Taboo, do Black Eyed Peas, e pelo co-escritor Benjamin Jackendoff, juntamente com o artista Scot Eaton. Juntos, eles trabalharam para amarrar o conceito de Werewolf by Night à mitologia e narração de nativos americanos. A série vê um novo lobisomem surgir.

    Em entrevista ao ComicBook, Taboo disse:

    “O herói Red Wolf tem a tarefa de caçar o monstro. Eu sempre tive um amor e apreço pelo personagem Red Wolf; Na verdade, eu fiz um cosplay me tornando Red Wolf.

    Estamos passando por uma nova perspectiva narrativa por causa da minha herança nativa americana. Eu sempre gostei de contar histórias por essa perspectiva. Embora eu tenha nascido na cidade de Los Angeles, recentemente estive realmente conectado com as comunidades nativas para poder ajudar e inspirar os jovens nativos, especialmente quando se trata de saúde e bem-estar, assim como com artes e música. Por isso, construímos nossa parceria sabendo que, quando criamos, criamos através de uma lente nativa… Tomamos todas as precauções adequadas, como convidar as pessoas certas que representam a comunidade indígena. No que diz respeito à narrativa, existe um respeito e uma empatia por idosos e pessoas de diferentes tribos, nações, especialmente quando você está contando uma história. Esta história é pessoal para mim, porque eu sou meio Hopi, que é minha tribo e o personagem é baseado em Hopi e na reserva Hopi. E para nós, sempre queremos ser respeitosos com os nativos, especialmente quando se trata do Universo Marvel.”

    Jackendoff acrescenta:

    “Eu acho que Werewolf by Night é uma história tão interessante e tem um personagem legal. Sua mitologia é realmente narcótica, e foi uma oportunidade emocionante poder renovar uma mitologia e vinculá-la à narrativa de nativos americanos. Isso foi o que realmente nos empolgou, porque eles ficaram tipo ‘Tudo bem, legal. Podemos pegar a marca Werewolf by Night e permanecer fiéis ao gênero de tudo isso, às criaturas, aos monstros, às grandes coisas, mas amarrá-la à narrativa de nativos americanos, a um plano de fundo de nativos americanos, mas ainda assim é uma divertida história de aventura sobre uma criança.”

    A nova série Werewolf by Night se manterá no tradicional gênero de filmes de terror de monstros, pelo qual a propriedade é conhecida. De acordo com Benjamin Jackendoff, o quadrinho abordará temas como identidade cultural, puberdade e autoconhecimento, uma vez que se trata de um personagem de 17 anos. Jackendoff complementa que a série será de suma importância para a comunidade indígena, pois os criadores respeitam muito as origens históricas deles e que a representatividade do povo nativo americano é essencial para a nova fase da Marvel.

    Apesar de ser uma série independente, Werewolf by Night, Jackendoff diz que terá alguma relação com o cânone da editora.

    “Nosso objetivo é tornar seu próprio mundinho para esta minissérie, mas queremos vinculá-lo ao Universo Marvel que é muito maior. Queremos trazer Nick Fury de alguma forma, queremos trazer a S.H.I.E.L.D., queremos encontrar uma maneira de inseri-lo na narrativa do Universo Marvel. Nossa ideia também é inserir elementos do universo do Homem-Aranha na trama, assim como o principal rival do protagonista: o Cavaleiro da Lua.”

    Werewolf by Night #1 estará à venda em Abril.



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    CRÍTICA | Gigant – Vol.1 (2019, Panini Comics)

    Imagine uma junção do filme Querida Estiquei o Bebê, de 1992, com a ex-atriz pornô Mia Khalilfa; é com essa mistura inusitada que temos o mangá Gigant; escrito e ilustrado por Hiroya Oku (autor e ilustrador do aclamado mangá GANTZ).

    Gigant é um mangá seinen (mangá +18) com gênero ficção cientifica, publicado originalmente em Dezembro 2017 no Japão pela editora Shogakukan e publicada pela editora Panini Brasil em Dezembro 2019.

    Aqui somos apresentados a Yokoyamada Rei, um colegial de 16 anos, nerd e cinéfilo de carteirinha que está à procura de uma colega de classe para participar do seu filme – Red String – junto com seu amigo para o festival de cinema Piano Film Festival, além das das dificuldades comuns na vida de um adolescente. Certo dia ao retornar da escola Rei se depara com diversos cartazes informando que a atriz pornô Papico mora em seu bairro. Por ser um grande fã da atriz, o conteúdo dos cartazes o incomoda e ele sai arrancado todos eles, até que um encontro inusitado causa uma grande mudança em sua vida.

    Para quem conhece o trabalho de Hiroya Oku já pode esperar uma trama normal de início, mas que à frente vai rolar um plot twist no qual o leitor vai ficar se perguntando “que diabos está acontecendo?”.

    Os personagens principais são bem construídos e nem um pouco clichês. Yokoyamada Rei não é aquele personagem tarado/caricato que jorra sangue do nariz ao ver uma garota peituda – igual ao Mestre Kame da franquia Dragon Ball – mesmo ele sendo um grande fã da Papico ele tem uma admiração muito grande por sua ídolo. Quanto a Papico apesar de ser uma atriz pornô ela não é objetificação sexual, pelo contrário, a mesma tem que sustentar sua família com sua profissão.

    A arte do mangá é excepcional, o cenário sobre a base em 3D fica muito bem feito, como se tivesse sido desenhado por mãos humanas muito competentes. Quanto ao o roteiro, a cada capítulo parece surgir uma nova pergunta que deixa o leitor extremamente curioso, para qual caminho essa trama vai seguir.

    A edição de Gigant da Panini contém 232 páginas, com 09 capítulos, não custa lembrar, mas o conteúdo da obra é impróprio para menores de 18 anos.



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    TBT #56 | V de Vingança (2005, James McTeigue)

    “Lembrai lembrai do 5 de Novembro: A pólvora, a traição e o ardil. Por isso não vejo porque esquecer uma traição de pólvora tão vil.”

    Esse trecho é de uma rima feita sobre a Conspiração da Pólvora, que aconteceu em 1605 na Inglaterra. Guy Fawkes, foi um conspirador inglês encontrado no subterrâneo da câmara dos lordes ingleses com barris de pólvora, pronto para explodir o lugar. O plano não deu certo e Fawkes, junto com seus aliados, foi torturado e morto por traição e tentativa de assassinato.

    No início da década de 1980, a política da Dama de Ferro, Margaret Thatcher deu a Alan Moore a linha para a criação de V de Vingança, que acabou se tornando um dos maiores clássicos das histórias em quadrinhos, que 23 anos depois ganharia vida no cinema sendo um dos filmes mais marcantes dos anos 2000.

    Em uma Inglaterra do futuro, onde está em vigor um regime totalitário, vive Evey Hammond (Natalie Portman). Ela é salva de uma situação de vida ou morte por um homem mascarado, conhecido apenas pelo codinome V (Hugo Weaving), que é extremamente carismático e habilidoso na arte do combate e da destruição. Ao convocar seus compatriotas a se rebelar contra a tirania e a opressão do governo inglês, V provoca uma verdadeira revolução. Enquanto Evey tenta saber mais sobre o passado de V, ela termina por descobrir quem é e seu papel no plano de seu salvador para trazer liberdade e justiça ao país.

    O longa é dirigido por James McTeigue, e apesar de ser o primeiro filme do cineasta, o australiano consegue entregar um filme frenético com diversos questionamentos políticos e reforçando ideias e frases da obra de Moore que fazem impacto e são lembradas até hoje.

    O estilo da direção cinematográfica é bem diferente do estilo exorbitante das irmãs Wachowski e isso mantém os efeitos especiais em segundo plano, exceto no clímax do filme, que é descomedido. A visão da Inglaterra aos olhos do diretor é extraordinária e funciona muito bem, realizando referências aos filmes políticos como 1984. A elevada direção de arte coopera na ambientação trazendo tons quentes para complementar a paleta de cores ocasionando mais o tom do filme.

    “Embaixo dessa máscara há mais do que carne. Atrás dessa máscara há uma ideia, e Sr. Creedy. Ideias são à prova de bala.”

    O roteiro é adaptado e modernizado pelas irmãs Wachowski. A história de Alan Moore é mais complexa e pesada, tendo muitos casos paralelos e criticas politicas mais firmes. Algumas tramas foram retiradas e as ideias anarquistas foram suprimidas durante o processo de adaptação para facilitar o entendimento do filme. Apesar das mudanças, a ideia central da HQ é passada com vigor e beleza.

    As atuações do elenco principal são acima da média. Hugo Weaving é o destaque, já que rouba as cenas apenas com a voz e movimentos físicos. Os seus discursos são imensamente teatrais, mesmo sem a utilização de movimentos faciais. Natalie Portman está sempre formidável em toda a sua filmografia. O restante do elenco, formado por John Hurt, Stephen Fry e Stephen Rea, mantém o nível das atuações, mesmo tendo participações menores.

    É preciso salientar que a resposta anarquista não é a única contida no filme. A inserção de um alter ego de Eve, a prisioneira Valerie, sinaliza outra via de resistência ao totalitarismo. A leitura da história completa da personagem, a torna novamente humana. Para entender isso melhor, basta pensarmos o porquê, por exemplo, de os prisioneiros do Holocausto terem sido marcados por números. Não se tratava apenas de facilitar a sua identificação, mas de desumanizá-los ao lhes negar a sua própria biografia, como seres sem história, de existência provisória e marcados para o extermínio. É por isso que, ao restaurar biografias, V de Vingança dá a mais interessante de todas as respostas ao totalitarismo – a humanista.

    Apesar dos atritos da produção com o criador da história, o quadrinista Alan Moore, e das inúmeras mudanças em relação à trama original, o filme possibilitou tornar-se um cult simbólico, trazendo a máscara de Guy Falkes como a representação de uma época ocasionando devidas proporções e efeitos. Afigurou-se como um dos melhores filmes dos anos 2000. A sua vivacidade, valentia e virtuosidade passada por um vigilante mostra que é uma obra relevante para se ter no acervo e também para sempre nos lembrar desse tema tão sério do qual as sociedades em algum momento da história podem estar sujeitas.

    Assista ao trailer:

    E você, já assistiu ao filme V de Vingança? Lembre-se de conferir nossas indicações anteriores do TBT do Feededigno.



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    CRÍTICA – Um Lindo Dia na Vizinhança (2020, Marielle Heller)

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    Se você estava sentindo falta de um filme motivacional, achou aqui! Um Lindo Dia na Vizinhança é aquele longa que tem o objetivo de aquecer os corações dos espectadores, uma vez que tem o objetivo de mostrar relacionamentos complicados e suas resoluções, com um mediador famoso.

    História

    Na trama, Lloyd Vogel (Matthew Rhys), um repórter investigativo, recebe uma pauta de sua revista para entrevistar o lendário apresentador de um programa infantil, Fred Rogers (Tom Hanks). A partir desta entrevista, Rogers começa a ajudar Lloyd em seus problemas pessoais com o pai do repórter, Jerry (Chris Cooper).

    Análise

    Marielle Heller pensou um formato diferente para a narrativa de Um Lindo Dia na Vizinhança: com uma estética de anos 90 e maquetes, utilizar diversos subterfúgios técnicos para contar a história do filme. Algumas cenas possuem uma linguagem simbólica, algo que deixa um tom bem poético ao filme. Uma cena específica tem um exercício muito interessante para quem está assistindo. Essa simbologia dá todo o norte para que sejam desenvolvidos arcos dos personagens. Lloyd precisa aceitar seus defeitos e tentar ser um pai melhor que Jerry, um homem relapso e egoísta. o personagem de Matthew Rhys não possui carisma, mas tem um peso dramático que conduz muito bem o filme.

    O personagem de Tom Hanks é uma espécie de santo na Terra, algo que é até refutado em uma cena. O fato de Fred Rogers ser tão puro e canônico o torna excêntrico e, ao mesmo tempo, chato, uma vez que ele é certinho demais, mesmo que pareça ser perturbado em algum sentido, apesar de o longa não mostrar isso. Hanks está ótimo, com muito carisma, mesmo que seu personagem seja insuportável em alguns momentos. Portanto, a sua indicação ao Oscar, na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, é mais do que justa.

    Veredito

    Um Lindo Dia na Vizinhança é um filme sobre perdão, amor e legado. A proposta é muito boa, todavia, seu marasmo e pieguice é tamanho que faz com que a obra se torne apenas mais um no tão manjado formato “filme para Oscar”. Tom Hanks salva o longa com sua interpretação, mas a falta de carisma dos demais personagens acaba tornando-o mais um na fila de tantos outros com a mesma estrutura.

    Confira o trailer:

    Um Lindo Dia na Vizinhança chega aos cinemas nesta quinta (23).



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    Como o Aranha-Verso fez Tobey Maguire e Andrew Garfield canônicos

    Desde que Homem-Aranha no Aranhaverso permitiu que diversos Homens-Aranhas e Mulheres-Aranhas se juntassem em um mesmo universo, os fãs sonham em ver as versões de Tobey Maguire, Andrew Garfield e Tom Holland se juntando em um crossover. O que os fãs não sabem, é que os Homens-Aranhas de Maguire e Garfield já se juntaram… nos quadrinhos.

    Durante o evento original Aranha-Verso da Marvel Comics, o roteirista Dan Slott conseguiu trazer praticamente todas as versões alternativas do Homem-Aranha para a mesma história – desde o Homem-Aranha 2099 até o Homem-Aranha 1602, e o cult Supaidaman. Infelizmente, graças a questões legais, Slott não conseguiu incluir no filme da Sony Pictures mais versões do Homem-Aranha. Mas isso significa que ele precisava incluí-los de forma mais sorrateira.

    Em Aranha-Verso #2 (2015), Slott incluiu uma curta história intitulada “São as Pequenas Coisas.” Durante o interlúdio de 3 página, dois Homens-Aranhas de universo alternativos (incluindo um de “Renove Seus Votos”) dão uma pausa na luta contra os Herdeiros que tentam consumir os Aranhas-Totem para encher seus lançadores de teias. Enquanto eles conversam sobre a quantidade de Aranhas diferentes que viram, um Homem-Aranha comenta com outro “não parava de cantar músicas de séries” – uma indicação não tão sutil a crítica ao musical Spider-Man: Turn Off the Dark. O outro Homem-Aranha que eles encontraram quando disseram que tentava ensinar inglês a ele, indicava que o Homem-Aranha da série da PBS, The Electric Company também lutou no Aranha-Verso.

    Aranha-verso

    Agora, entrando de fato no tópico de discussão dessa publicação, o primeiro Homem-Aranha diz ter visto um deles sem a máscara que “parecia o cara de Seabiscuit”, referencia o filme de corrida de cavalos que Tobey Maguire fez em 2003. E também vale falar, que seu gêmeo interdimensional diz, “Eu acho que vi o cara de A Rede Social ali”, uma referência ao personagem de Andrew Garfield no filme sobre o Facebook de 2010. Graças a essas observações indiretas, Slott conseguiu garantir aos fãs que Maguire e Garfield não fossem deixados de fora do grande espetáculo que foi o Aranha-Verso – mesmo que os fãs provavelmente nunca vão conseguir ver esses dois Homens-Aranhas em ação.

    Com um novo filme do Aranhaverso sendo desenvolvido, entretanto, e uma forte dica de que o filme do Morbius acontece dentro do UCM, a possibilidade de Tobey Maguire, Andrew Garfield e até mesmo Tom Holland aparecerem juntos em um crossover parece… plausível. Certamente, a recente Crise nas Infinitas Terras da Warner Bros. revelou que a DC Comics está disposta a incluir diversas participações de seus filmes como Superman Returns até a série do Batman dos anos 60. Uma cena mostrou até o Flash do Ezra Miller encontrando o personagem vivido por Grant Gustin do Arrowverso.

    Mas conta aí nos comentários. Você acha possível que um crossover entre os Homens-Aranhas ainda pode acontecer fora da animação Homem-Aranha no Aranhaverso?